CIÊNCIA
O catálogo universal da vida, por Paula Sibilia
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audiovisual
HUMOR

A grande mentira
Por Mauricio Stycer


Sacha Baron Cohen interpreta Borat, no filme do mesmo nome
Divulgação

O filme “Borat”, por enganar os seus entrevistados, não passa de uma série de pegadinhas sem conseqüências

Imagine que a instituição que você ajuda mensalmente, digamos, a Fundação Abrinq, organiza um jantar para impressionar um visitante estrangeiro, alguém capaz de fazer propaganda no exterior das ações de benemerência da entidade. Durante o luxuoso jantar, do qual você participa, o convidado estrangeiro vai ao banheiro e, ao retornar, com cara de bobo, pergunta o que deve fazer com o saco cheio de cocô que traz à mão. Ah... antes, ele havia pedido para filmar o jantar, como forma de registrar, no documentário que estava realizando sobre o Brasil, as ações sociais da Fundação Abrinq. Irritado, ou simplesmente nauseabundo, você se retira do jantar no instante em que o convidado pergunta o que fazer com os excrementos que trouxe do banheiro -cena que será devidamente registrada pela câmera do documentarista plantado na sala de jantar. Vista posteriormente no conjunto do filme, a cena ajudará a pintar o retrato da classe alta paulistana, dona de hábitos luxuosos, conservadora politicamente, cuja má consciência a impele a fazer trabalhos comunitários.

Quem assistiu “Borat” não deve ter tido dificuldades de reconhecer uma cena semelhante à acima descrita. É uma das muitas, escatológicas ou não, em que o comediante faz graça ao expor a hipocrisia ou, simplesmente, a idiotia do discurso de diferentes tipos ou “categorias” de americanos. Um sujeito tenta explicar a Borat como fazer piada nos Estados Unidos. Feministas se esforçam em destrinchar a luta pela igualdade de direitos dos sexos. Jovens negros ensinam o “documentarista” a falar as gírias e palavrões que eles usam no cotidiano e, em seguida, Borat repete o vocabulário ouvido em outro contexto. O vendedor de armas, estimulado, expõe o seu anti-semitismo. O apresentador do programa de meteorologia na TV faz papel de bobo ao vivo. Jovens universitários, bêbados, não escondem o nível intelectual próximo de amebas. E por aí vai...

A recepção crítica a “Borat” realça, não sem razão, a ousadia deste comediante inglês em afrontar os cânones do politicamente correto com o objetivo de expor a imbecilização galopante que assola a cultura média americana. Aliás, não apenas da cultura americana. A crítica que o filme é anti-semita, por exemplo, obrigou o escritor Moacyr Scliar, outro dia, na “Folha de S. Paulo”, a ter que explicar a piada, à maneira do cidadão que ensina a Borat que convém, para não causar dúvidas, encerrar toda piada, em inglês, com um “não”.

O problema de “Borat”, na minha maneira de ver, é o pacto que ele cobra do espectador. Para rir com o comediante é preciso concordar que os fins justificam os meios, aceitar que ele ludibrie dezenas de pessoas e instituições para mostrar como são ridículos. Humoristas têm facilidade em defender essa tese, com base na idéia de que o humor não pode ter limites.

Entre jornalistas, essa é uma questão mais polêmica: um repórter pode mentir para obter uma informação? Há quem defenda o recurso a expedientes eticamente condenáveis em nome da revelação de informações de interesse público, mas também há muita gente que considera inaceitável violar padrões éticos essenciais em nome de algo -o “interesse público”- que pode assumir diferentes faces, dependendo dos interesses envolvidos. Esta é uma questão delicada e não pretendo me aprofundar a respeito neste espaço.

“Borat”, na minha visão, não vai tão longe. O filme fica a meio caminho, entre uma peça de humor e um documentário de caráter jornalístico. Dizer que é um “falso documentário” não ajuda muito. Não que documentários não mintam, não distorçam a realidade. Não é disso que se trata. Mas falar em “falso documentário” apenas reforça a impressão de que o comediante recorreu a uma técnica (o documentário) socialmente consagrada como forma de “retratar a realidade” justamente com o objetivo de enganar os seus entrevistados.

Não entenda esse comentário sobre o filme como fruto de mau-humor. Achei graça em “Borat”. Acho apenas que a questão ética, altamente condenável, vem em primeiro lugar ao se lidar com um filme cuja estrutura está assentada em uma mentira. Como técnica para produzir reflexão, não acho que “Borat” valha a pena. Vejo o filme como uma espécie de “pegadinha” estendida, ao longo da qual nos divertimos levemente, sem pensar que podemos ser a próxima vítima.

(Publicado em 9/3/2007)

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Mauricio Stycer
É jornalista.

 
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