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novo mundo
PODCAST

Uma alternativa à guerra mundial
Por DJ Spooky

Músico pensa a cultura da remixagem no contexto da arte atual e no seu confronto com o militarismo

Paul D. Miller, mais conhecido como ou DJ Spooky, é um dos criadores mais interessantes da cena intelectual contemporânea. Misto de DJ, VJ, pesquisador de artemídia, escritor e professor, é o autor de mixagens antológicas, como a que fez do filme “Nascimento de uma Nação” (Grifitth, 1915) e de “Errata, erratum”, com elementos da obra de Marcel Duchamp.

Além de diversos artigos, on e off line, tem um livro publicado pelo MIT Press (“Rhythm Science”, 2004) que lhe rendeu alguns prêmios de design e efusiantes resenhas em revistas de música e de cultura digital, e diversos projetos artísticos, sendo o mais recente o “System Error (For Promotional Use Only)”, cuja versão ensaística publicamos aqui.

Nesse texto, publicado originalmente na lista de discussão Institute for Distributed Creativity, Spooky pretende elaborar uma teoria da cultura de remixagem do ponto de vista afro com alguns elementos japoneses e asiáticos, ao mesmo tempo em que reflete sobre o remix como alternativa crítica ao militarismo e belicismo globais.

O ensaio é também o “statement” de Spooky na exposição “Erro de Sistema - A Guerra Como Força Que Nos Dá Sentido”, em cartaz na Itália de 3 de fevereiro a 6 maio, para a qual Spooky preparou um set musical especial. A receita da mixagem da sua apresentação segue no final, no melhor estilo DIY (Do It Yourself). (Gisele Beiguelman).

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“Um estado de guerra não passa de desculpa para o exercício da tirania doméstica” (Alexander Solzhenitsyn)


Dois anos atrás, um ministro do petróleo saudita deu o que foi uma das declarações mais proféticas a vir do Oriente Médio em muito tempo: “A Idade da Pedra não terminou por falta de pedra, e a Idade do Petróleo vai acabar muito antes de esgotar-se o petróleo do mundo”. Foi um lamento, o reconhecimento de que virá um dia de prestação de contas que vai mudar todo o equilíbrio mundial da riqueza e do poder.

A mixagem que criei para a exposição “System Error” é reflexo de uma série de intervenções geográficas que analisam essa declaração desde a perspectiva do som. Ela visualiza um teatro de áudio na tradição de John Cage, com sua composição “Paisagem Imaginária”, de 1939, que foi a primeira obra composta para prato de toca-discos, ou compositores como Duke Ellington, com sua sinfonia “Eclipse Afro-eurasiana”, que citou música vinda de todas as partes do mundo.

Essencialmente, este é um trabalho que representa a prática da diáspora baseada nas ligações ocultas no som de um mundo que reage à política da percepção. Desde os processos de produção da colisão da era da informação com os valores do século 20 -mídia de massas, produção de massas-, até o etos digital do século 21 -cortar, mixar, queimar, customização de massa-, o fato fundamental de que a música, para a maioria de nós, é uma experiência desmaterializada que percorre tudo, desde a lista de músicas do iPod até as redes em que pessoas transmitem mp3s, vídeos no YouTube ou a vida no Flickr, nos remete novamente a um mundo em que você é o que você consome.

Gosto de enxergar esta mixagem como um espelho que ergui diante a sociedade: é um reflexo da maneira como vivemos hoje. Talvez, quem sabe, o ministro do petróleo saudita tivesse razão.


Escultura social

No século 21, parábolas de sistemas de controle de informações de guerra, como o hiper-revisionista “1984”, de George Orwell, já se tornaram corriqueiros. No século 21 nos vemos diante de um mundo em que a “novilíngua” retrata aquilo sobre o que pensamos, na medida em que até mesmo as origens do conflito no Iraque perdem a nitidez, passando além de qualquer lógica sustentável -as armas de destruição em massa viraram armas de desvio de atenção das massas na mídia dos EUA. Com quem estamos em guerra? Oceania ou Eurásia? O Eixo do Mal? Hugo Chávez? A guerra é a diplomacia exercida por outros meios.

Já foi dito que “a arquitetura não passa de música congelada”. Quero inverter essa frase e desembalar algumas das questões sônicas que a colagem traz para o palco mundial -o que acontece quando a música vira arquitetura líquida? Aplique-se esse cenário à guerra da informação e à música, e você chegará a “System Error”.

O projeto “For Promotional Use Only (Al Yamamah) (Somente para Uso Promocional)” que acompanha este catálogo é uma escultura social feita de vozes radicalmente díspares: ele existe na tradição de “Adventures on the Wheel of Steel”, de Grandmaster Flash, ou de “Death Mix”, do Afrika Bambaata -trabalhos de hip-hop clássico que destruíram completamente o que as pessoas achavam que era a “cultura do mix”.

“System Error (For Promotional Use Only)” não diz respeito apenas a reordenar dados e números -ele embaralha a imaginação contemporânea, como um baralho de cartas, e, nesse processo, subverte a “disposição racional” dos sistemas de mídia. O projeto explode a narrativa linear para que outros significados possam se manifestar.

No reino do “uso justo” do qual surgiu a cultura DJ, a mixagem “System Error” sintetiza um reino fictício, em que pessoas como o turco Mercan Dede, o londrino Roots Manuva, Matisyahu, do Brooklyn, “Subliminal and the Shadow”, de Israel, o jamaicano Mutabaruka, a iraniana Sussan Deyhim, o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, o libanês Clotaire K, o californiano Zack De La Rocha, o minimalismo do compositor iraniano David Abir ou o jazz do saxofone de Evan Parker, ou ainda as pessoas da diáspora hip-hop, como Saul Williams, DJ Shadow, Rob Swift, Asian Dub Foundation, ou escritoras como Arundhati Roy, podem conviver como pontos de dados numa constelação de informações digitais. Todas essas figuras habitam um lugar onde o som funciona como paleta da realização criativa.

Como se emprega a mídia para contar uma história? Em seu cerne, “System Error” pinta um relato dos últimos sete anos -de desinformação da mídia, por exemplo-, com destaque para as declarações de Bush como som encontrado, ou o sampleamento de várias canções iranianas misturadas com hip-hop, que mostram uma conexão simples entre como a música reflete a estética de dados das redes de informação.

Ele apresenta rumores de guerra: gosto de pensá-los como dados pirateados, a moeda forte de uma economia sonora mundial filtrada pelas preocupações regionais. Pense nisso como a arte contemporânea que lhe traz o mundo a partir de fragmentos de som. É um quadro feito de pedaços de som reunidos em colagem, dispersos e condensados num material que reflete um reino de possibilidades infinitas. Marcel Duchamp, James Rosenquist, Jeff Koons, David Hammons, Joseph Kosuth... a lista de artistas visuais relacionados à arte da “apropriação” forma quase um catálogo dos grandes movimentos da arte do século 20 que o século 21 herdou. Eu quis apenas olhar a questão desde a perspectiva do espaço acústico. O que acontece quando esse tipo de colagem é aplicado ao som? Talvez essa seja uma pergunta que Nam Jun Paik estivesse tentando responder com suas mixagens “Global Grooves”, 30 anos atrás.

Existem duas ou três questões que movem esse cenário -o teatro, jogos de memória e o jogo surrealista primitivo do “cadavre exquis”. Gosto de pensar nisso como uma síntese aditiva num contexto de mídia digital: é arte selecionada desde o ponto de vista da memória coletiva. Comecemos primeiro com senso de humor.

Este projeto parte de uma discussão que tive com o artista/curador Naeem Mohaimen sobre porque a música do sul da Ásia se funde tão bem com o hip-hop contemporâneo. Eu expliquei simplesmente que o Caribe é o ponto central da diáspora com essa situação -seus ritmos já chegaram de volta a todas as regiões do mundo-, desde a música rai da Argélia até o bhangra e qawwali do sul da Ásia, desde o afro-beat nigeriano até o kwaito da África do Sul e o dubstep de Londres, o eco do etos jamaicano de sistemas sonoros de colagem de fitas e minimalismo de baixos define o que a maioria de nós enxerga como “música moderna” na cultura digital de hoje.

Acho que se poderia afirmar que a Jamaica é “a ilha mais barulhenta do mundo” e que a Comunidade Britânica é uma câmara de ecos dos elementos que optei por mixar para este projeto em particular. Mas existem outros elementos, como, por exemplo, o West Point Drum Corps (que não chega a fazer uma jam session com místicos sufistas como Mercan Dede todos os dias!).

Em segundo lugar, há a irreverência manifestada pelos filhos da era digital em relação às fronteiras históricas -por que não ir ao bazar de Túnis e ouvir jovens fazendo rimas em árabe sobre remixagens em música rai de ritmos de Dr. Dre, ou, por falar nisso, ouvir grupos como o Cold Cut sampleando a cantora iemenita-israelense Ofra Haza em sua remixagem clássica de “Paid in Full”, de Eric B. e Rakim?

Quero impelir as pessoas a pensar a arte não apenas como objetos, mas como um trabalho coletivo em que a memória é traduzida passando pelo filtro do som. Esse tipo de colagem vê as palavras dos cantores, os sons que arranhei para virarem ritmos, os ritmos e elementos que coloquei em colisão uns com os outros, como uma simulação da história: é tudo uma trilha sonora que conduz ao fim da Era do Petróleo.

Fazer loops, repetir, refratar: é apenas uma contagem de história moderna, feita com outros meios. Vale notar que Al-Yamamah significa “a pomba” em árabe e é o nome do projeto que está ao cerne de uma série recente de escândalos no Reino Unido envolvendo dinheiro de propinas, xeques petrolíferos, bancos suíços, corrupção, chantagem, pagadores, tráficos de drogas, planos de guerra, grandes mentiras, retratações, Dick Cheney e Tony Blair.

É um escândalo que tem tudo -corrupção e covardia nos mais altos escalões, uma chaga aberta no próprio coração da política mundial, algo em que a Guerra do Terror se junta à matança generalizada no Iraque. No entanto, é muito possível que você nunca tenha ouvido falar nele, apesar de ter acontecido há poucos dias. A névoa das negociatas que geram lucros com a guerra parece ser tão espessa quanto a névoa da guerra.

Esta é uma trilha sonora que talvez, apenas talvez, consiga fazer você pensar que outro mundo é possível. Para mim, a música não é música -é informação: é disto que trata a arte -isto é apenas um começo. Como informação, ela se enquadra num nicho complexo na economia digital moderna de hoje, um lugar em que os dados são as características mais onipresentes e impalpáveis do mundo do cotidiano que habitamos.

A guerra, lamentavelmente, é um sistema feito de sistemas de controle de informações, e esta mixagem é um ensaio sobre o tema de como a música filtra pelas redes da cultura moderna da informação -ela mapeia uma cartografia feita de gráficos de operações invisíveis, diagramas e bases de dados estatísticos (afinal, o sampleamento é um modelo matemático usado para analisar grandes quantidades de informações, como a análise do crescimento da população num censo etc. etc).

Lembre-se: a mixagem “System Error” é “para uso promocional apenas”. Pense nesta mixagem como um vírus memético e divulgue a notícia!

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For Promotional Use Only: Podcast Aesthetics

Ghost in the Shell excerto
Intro - Mercan Dede "Sahname"
Afro-futurism intro
Arundhati Roy - "Suspicion of Nationalism" mixado com Clotaire K "Maqam"
Asian Dub Foundation - "Rivers of Dub/Strong Culture"
Meat Beat Manifesto "Basic Beat/Timebomb"
Clotaire K "Lubnan"
Evan Parker "Gees Bend" mixado com the West Point Drum Corps "Field Flourish"
MC W vs Guvnah Arnold
Rob Swift "Mad Bombers/Terror Wrist"
Dj Shadow "Drums of Death" - mixado com Coletiva de Imprensa de George W. Bush
DJ Shadow com Zack de la Rocha: "March of Death"
Matisyahu: "Beat Box"
The Clash: "Guns of Brixton/Return to Brixton"
Bob Marley: "Soul Rebel" (DJ Spooky remix)
Badawi: "Jihad" (DJ Spooky remix)
Nightmares on Wax: "Summer Love"
Azeem: "Bush is a Gangsta"
Evolution Control Committee: "Rocked By Rape"
Dj Siraki: "Azaadi"
Asian Dub Foundation: "Culture Move"
Asphalt Jungle: "Sensation"
Ges-E & Visionary Underground: "Extaa"
Saul Williams: "Not in Our Name" Na'sha "Afterwrath"
Black Star Liner: "Yemen Cutta Connection Dub"
Nusrat Fateh Ali Khan: "Tracery" mixado com hip-hop break beat de The Molemen
Lofti Double Kanon: "Kleb"
Navdeep: "My Technique"
Subliminal & The Shadow: "Divide and Conquer/Hefred U'mshol"
Coldcut featuring Roots Manuva: "True Skool"
Tino Corporation: "Magic Dub" mixado com Mutabaruka "Dis Poem"
Sussan Deyhim: "Meykhaneh (Wine Cave")
Cheb i Sabbah: "Violin Solo"
David Abir: "Lesson 1 Movement A (Study1) excerto"
Vijay Iyer: "Postlude Prayer" mixado com Susie Ibarra "Solar Drums"
Ghost In The Shell - excerto

Tradução: Clara Allain

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