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Caixa de DVDs lançada na França permite redescobrir a obra do rebelde diretor Luc Moullet
A Nouvelle Vague não foi igualitária com seus criadores. Se de um lado temos Godard, Truffaut, Chabrol e Rivette, que se tornaram cineastas aclamados mundialmente, do outro lado, temos Luc Moullet, cineasta político e prolífico que ficou à sombra de seus companheiros, apesar de ter uma das mais ricas filmografias do cinema de autor francês.
Uma caixa com oito dos primeiros filmes de Moulet foi lançada recentemente na França e permite agora rever a obra deste diretor rebelde, que começou a dirigir praticamente no mesmo momento em que eclodia a Nouvelle Vague -seu segundo curta, "Terres Noires" (1961), é um ensaio cinematográfico sobre pobres no interior da França e tem a consistência de um "Las Hurdes", de Buñuel.
A estrela da coletânea de Luc Moullet é seu primeiro longa, "Brigitte e Brigitte", uma espécie de versão feminina de "Os Primos" (Claude Chabrol, 1959). O longa de 1966 atualiza alguns dos preceitos inovadores colocados em prática por Godard desde "Acossado": uma cinefilia incontida e engajada, a distinção radical entre a imagem e o som, a cacofonia de sons e diálogos. "Brigitte e Brigitte" coloca na frente da ação duas amigas do interior, recém-chegadas na Paris dos anos 60. Enquanto Godard, Truffaut e Chabrol escolheram freqüentemente contar sobre conquistas amorosas do ponto de vista de um personagem masculino, Moullet o faz do ponto de vista das garotas, que usufruem dos mesmos direitos libertários que comandavam os personagens masculinos do movimento.
A supremacia feminina continua no segundo longa do diretor, "As Contrabandistas" (1967), uma comédia dramática que bebe na fonte de "Jules et Jim" (só que com duas mulheres para um homem) e vai além da narrativa de Truffaut, ao inserir elementos revolucionários e mensagem política num “road movie a pé”, bastante coerente com a idéia de filme baixo orçamento defendida por Moullet.
"As Contrabandistas" usa do humor para militar em favor da paz (“o contrabando é a melhor maneira de lutar contra uma guerra; se não há impostos, não há dinheiro para comprar armas”, dispara uma das contrabandistas). Filme radicalmente contra a sociedade de consumo, nele as personagens, marginais dentro do capitalismo, são também dissidentes no seu próprio universo -as duas garotas fogem não só dos agentes da alfândega como também do “sindicato das contrabandistas”. "Brigitte e Brigitte'' e "As Contrabandistas'' serviram de base para o cinema de Moullet nas décadas seguintes, que reuniu o militantismo polílitico a uma narrativa de cunho bastante pessoal, em que o trabalho do ator é a peça-chave.
Luc Moullet, ele mesmo, e ator e teórico da interpretação para o cinema . Comparado várias vezes pela crítica francesa ao humorista Jacques Tati, Moullet só viria a criar seu “personagem único”, nos mesmos moldes de Tati, Buster Keaton ou Charles Chaplin, na metade dos anos 70, com outros dois filmes: "Anatomia de uma Relação" (1976) e "A Gênese de uma Refeição" (1978), que são obras gêmeas e complementares da nova fase da filmografia do diretor.
"Anatomia de uma Relação" parte de uma perspectiva pessoal para falar de um mal-estar coletivo: a dificuldade das relações no capitalismo. Desse filme, Serge Daney vangloriou as virtudes inovadoras da utilização do som, entre a modernidade e o classicismo. “É um filme do começo do cinema falado, sobretudo na interpretação de Moullet... que articula o texto com uma voz que parece já envelhecida... como se houvesse sempre uma lição a ser tirada daí. O espectador fica então diante de algo bastante cotidiano, mas que é ao mesmo tempo conduzido de uma maneira interpeladora através da voz”, escreveu Daney.
Já "A Gênese de uma Refeição" vai mais fundo nos questionamentos sociais, políticos e metalingüísticos. Moullet parte em expedição à África e à América Latina para investigar como são produzidos os alimentos que chegaram à sua mesa no almoço daquele dia. Com esse ponto de partida, que lembra alguns filmes do movimento Kino-Pravda, de Dziga Vertov, Moullet mostra como os trabalhadores africanos e latino-americanos recebem menos e têm condições de trabalho mais duras do que os trabalhadores europeus; como a inflação e os atravessadores aumentam consideravelmente os preços dos produtos industrializados; e como os operários e agricultores são o elo mais fraco do sistema de produção.
Não são conclusões que possam surpreender um militante da esquerda, mas Moullet conduz seu “documentário” de maneira bastante pessoal, usando o próprio corpo (e o da sua atriz principal) como meios de expressão. Sua presença física marca a construção da narrativa, individualizando a obra e a impedindo de ser rotulada em qualquer gênero cinematográfico. Segundo o crítico Fabrice Revault d´Allones, o diretor adota um olhar clínico sobre o real, até o ponto de discutir como o cinema (e mais especificamente o seu filme) se insere perfeitamente na lógica comercial. Para o crítico Serge Le Peron, trata-se de um verdadeiro filme de agitação.
Em outro “road movie a pé”, "Uma Aventura de Billy the Kid" (1971), Moullet não só parodia o gênero mais tradicional do cinema americano, o western, como também o leva para dentro da forma européia de fazer cinema. O filme se insere ainda mais no universo nouvelle-vaguiano por ter sido estrelado por Jean-Pierre Léaud, intérprete-símbolo de Truffaut.
Com esse filme, Moullet pôde pôr em prática um paradoxo que parece inerente ao seu cinema (e também ao dos seus colegas da Nouvelle Vague): como um diretor de cinema europeu, com um baixo orçamento, sendo um militante político, pode fazer um filme de gênero, como aqueles que floresceram no cinema americano? Ele também indaga sobre a razão de o western fascinar até mesmo diretores que estão geográfica e culturalmente bem distantes do universo simbólico que o gênero retrata.
A preocupação com o western reaparece em "A Girl is a Gun" (o filme tem título em inglês), em que Moullet cria um estudo formal sobre como o gênero teria se desenvolvido caso tivesse nascido nas planícies do Luberon, região central da França, e não nos desertos do Arizona. Obviamente, a hipótese é absurda e ignora de propósito a dimensão histórica e ideológica do western, com sua função de representar a grandeza da nação americana no cinema, bem como a supremacia dos brancos sobre os nativos.
Parafraseando Lubitsch, Luc Moullet costuma dizer que “para saber filmar atores, é necessário saber filmar montanhas”. E são esses dois elementos o centro nervoso de várias de suas ficções. “Eu sou um verdadeiro autista, me sinto perfeitamente bem nas montanhas ou nos desertos. Durante 15 dias atravessei o Colorado sem ter uma conversa com quem quer que seja, e os lugarejos me interessam sobretudo quando estão em ruínas”, revelou Moullet num texto à revista "Cinéma".
Em "Uma Aventura de Billy the Kid", Moullet deixa a paisagem tomar conta da sua mise en scène, e a suspensão da narrativa, uma das características mais marcantes do cinema moderno, acaba virando regra no filme. A errância, a predominância de planos abertos, em que o homem parece em desvantagem perante a natureza, são também elementos de "As Contrabandistas".
A caixa de DVDs de Luc Moullet se completa com uma nostálgica declaração de amor às salas de cinema. Em "Les Sièges de l´Alcazar", figuras míticas das salas escuras (a vendedora de balas, a bilheteira, o projecionista) se misturam a dois personagens criados a partir de exemplos opostos da cinefilia dos anos 60: as revistas rivais "Cahiers du Cinéma" e "Positif". Enquanto assiste a filmes de Visconti, Feuillade, Antonioni e Cottafavi, o crítico dos "Cahiers" se apaixona pela garota que faz crítica para a "Positif"", e os dois vivem um amor impossível em meio a ideologias díspares e preferências imutáveis que cercam cada uma das revistas.
Os filmes lançados em DVD, de difícil acesso mesmo na França, são uma boa introdução à obra do diretor, que está terminando seu novo trabalho, "Le Prestige de la Mort". Há mais de dez anos, Moullet alterna o trabalho de diretor com o de professor em escolas de cinema, como a Femis, e se mostra sempre atento a cinematografias do Terceiro Mundo ou de países periféricos. Entusiasta do cinema brasileiro, chegou a afirmar que o gaúcho Jorge Furtado seria o cineasta mais instigante do continente americano. Para quem vem de uma formação cinéfila ancorada no cinema hollywoodiano como Moullet, o elogio ganha ares de uma piscadela ideológica.
(Publicado em 24/4/2007)
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Pedro Maciel Guimarães
É jornalista, mestre em cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle (Paris 3). Trabalha atualmente em tese de doutorado sobre o cinema português e Manoel de Oliveira.
1 - Moullet é autor de "La Politique des Acteurs", análise sobre a interpretação e o trabalho do ator tendo por base 4 atores norte-americanos Gary Cooper, John Wayne, Cary Grant, James Stewart.
2 - S. Daney in "Entrevista com Luc Moullet", "Cahiers du Cinéma", nº 283, dezembro 77, p. 47.
3 - F. Revault d´Allones, “Luc Moullet, Comique Moderne”, in "Luc Moullet, le Contrabandier", Paris, Cinémathèque Française, 1993, p. 7.
4 - S. Le Peron, "La Narration Genetico-Agitatoire de Luc Moullet", "Cahiers du Cinema", nº 299, abril 1979.
5 - L. Moullet, "Mes Paysages", "Cinéma" 10, outono 2005, p. 14.