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ensaio
HISTÓRIA

A educação dos bárbaros
Por Jean Marcel Carvalho França

O pragmatismo, afinal, venceu a obsessão dos intelectuais do século 19 por civilizar o povo brasileiro

Bernardo de Vasconcelos, aquele político e intelectual do Império que era liberal e virou conservador, dizia, lá pelos idos da década de 30 do Oitocentos, que de nada valia os homens de Estado terem grandes planos para o país, se o povo brasileiro, analfabeto como era, nem sequer conseguia entendê-los, o que dirá colaborar para a sua implantação.

Décadas mais tarde, já no limiar do século XIX, Machado de Assis, em uma de suas crônicas, recomendava aos políticos locais que jamais falassem em nome do “povo brasileiro”, mas, no máximo, em nome daquela pequeníssima parcela alfabetizada da população, parcela que supostamente conseguia entender o que era dito pelos ilustres “representantes do povo”.

Ainda que nos soem um tanto “politicamente incorretos”, tais comentários, por certo, receberiam o aval da esmagadora maioria dos letrados brasileiros do século XIX. Todos, com mais ou menos paixão, comungaram da idéia de que havia um país a construir, sem dúvida, mas sobretudo, e especialmente, de que havia um povo a civilizar, um povo rústico e iletrado, “ansioso” por ser banhado pelas “luzes” da cultura ocidental-européia.

A “crença” era antiga e, de certo modo, saíra, como tantas outras idéias caras aos homens de letras do Brasil oitocentista, das narrativas de viagem. O visitante europeu, desde muito cedo, pintou a população local como bárbara ou, no mínimo, como semi-bárbara, de qualquer modo, muito necessitada da cultura e das regras de civilidade européias.

Há uma passagem sobremodo ilustrativa de tal crença no conhecido “Viagem pelo Brasil”, dos alemães Spix e Martius. Logo que desembarcaram no Rio de Janeiro, em 1817, os naturalistas trataram de registrar, certamente para a surpresa de muitos dos seus leitores europeus, o seguinte: “Quem desembarca convencido de encontrar esta parte do mundo, descoberta só desde três séculos, com a natureza inteiramente rude, violenta e invicta, poder-se-ia julgar, ao menos aqui na capital do Brasil, fora dela, tanto fez a influência da civilização e cultura da velha e educada Europa para remover deste ponto da colônia as características da selvageria americana, e dar-lhe cunho de civilização avançada. Língua, costumes, arquitetura e afluxo de produtos de todas as partes do mundo dão à praça do Rio de Janeiro aspecto europeu”.

No que tange à “selvageria americana”, os simpáticos sábios prussianos não são, nem de longe, os primeiros a tecerem tal gênero de comentário. Ao contrário, trata-se de um “lugar comum” das narrativas de viagem sobre o Brasil, um tópico cuja origem remonta ao século XVII, quando começam a aparecer as primeiras descrições estrangeiras das cidades costeiras espalhadas pelo litoral brasileiro. O que é novo na observação destes visitantes das décadas iniciais do século XIX é a “esperança” de que o contato mais intenso com a cultura européia, propiciado pela abertura do país às gentes e coisas de outras nações, cedo apagaria nos brasileiros os vestígios dessa tal “selvageria”.

Felizmente ou infelizmente, e isso pouco importa a essa altura, a dita “intelligentsia” local, ao menos aquela do século XIX, herdou, quase como um filho primogênito, a perspectiva desses visitantes; um pouco acerca de si própria, sem dúvida, daí o seu comportamento sempre acanhado e submisso diante daquele ou daquilo que “vinha do estrangeiro”, mas sobretudo acerca daquela entidade que ganhou formas e cores ao longo do século XIX, o denominado povo brasileiro. É raro encontrar um letrado coetâneo que não tenha olhado para essa “ralé de todas as cores”, como dizia o regente Feijó, como uma espécie de malta desordeira e ignara na qual era preciso, a todo preço -por meios propositivos, mas também à custa da força, se necessário fosse-, incutir princípios de civilidade.

Daí o caráter quase missionário de que se revestiu a atividade do intelectual brasileiro do Oitocentos, de Monte Alverne a Machado de Assis, passando por Gonçalves Magalhães, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e tantos outros. O primeiro, o sermonista Monte Alverne, homem que gozou de grande popularidade e prestígio no seu tempo, deixou registrado no “Discurso Preliminar”, contido em suas “Obras Oratórias”, que pregava não para encantar os amantes das belas-letras, mas para doutrinar o povo, incutir-lhe idéias úteis ao desenvolvimento da moral, da civilização e do sentimento patriótico.

José de Alencar, tempos depois, numa defesa que faz de sua peça “Asas de um Anjo”, acusada na época de imoral, comenta: “Não há aí uma só personagem que não represente uma idéia social, que não tenha uma missão moralizadora”. Ainda mais contundente neste aspecto é o político e literato Quintino Bocaiúva que, em 1863, respondendo a uma carta do jovem Machado de Assis, procura incentivar o escritor novato com as palavras seguintes: “És moço, e foste dotado pela Providência com um belo talento. Ora, o talento é uma arma divina que Deus concede aos homens para que estes a empreguem no melhor serviço dos seus semelhantes. A idéia é uma força. Inoculá-la no seio das massas é inocular-lhe o sangue puro da regeneração moral (...). Repito, pois, nessa obra de cultivo literário há uma obra de edificação moral”.

Edificação moral, missão civilizadora, doutrinação do povo, as designações são muitas, mas a “missão” é sempre a mesma: através da “Ilustração”, educar e moralizar um povo que, àquela altura, estava, aos olhos desses homens, há milhas de distância do ideal de cidadão que se queria para o jovem país.

De lá para cá, é verdade, muita coisa mudou. Os “homens de letras”, melhor, os intelectuais, passaram a ter perspectivas muito variadas da gente do país, do tal “povo brasileiro”. Todavia, se repararmos com mais vagar, é notável o quanto da partição bárbaro/civilizado, ainda que por vezes com sinais trocados -valoriza-se a tal “porção bárbara”, mas se reafirma a partição-, está presente no Brasil mestiço, popular e um pouco debochado, “à la” Gilberto Freyre e Jorge Amado, ou naquele Brasil “de gente feliz e antropofágica”, de alguns modernistas, ou, ainda, mais recentemente, no Brasil de povo “anárquico e colorido”, construído pela Tropicália. Isto para não mencionarmos o “povo bom, mas carente de conscientização”, que por décadas alimentou os sonhos e os escritos de muitos pensadores e militantes da esquerda local.

Tal concepção, ao menos, verdade seja dita, mostrou-se, ao fim e ao cabo, mais pragmática, sobretudo depois de se “descobrir” que, em um país com carências elementares, a “conscientização” do povo dispensa a “elitista” solução do Oitocentos de civilizá-lo, de “derramar a educação sobre todas as classes” -como dizia o conservador Bernardo de Vasconcelos. Em país de “gente simples”, basta uma “bolsa-família”.

(Publicado em 30/1/2007)

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Jean Marcel Carvalho França
É professor do Departamento de História da UNESP-Franca e autor, entre outros, de "Literatura e Sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista" (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999) e "Outras Visões do Rio de Janeiro Colonial" (José Olympio, 2000).

 
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