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Ruth: Guerra-Peixe tinha características que associo à genialidade: uma imensa curiosidade, aliada à ânsia do saber, investigar e criar, revelando valiosas correlações entre seus achados. Além disso, possuía uma notável capacidade de trabalho.

A bem da verdade, não sei se tinha consciência da importância do seu legado. Talvez não se desse conta dessa importância, pois não era isto que o absorvia. Seu compromisso era com o trabalho em si, com o que descobria e criava no aqui e agora. Deixou pesquisas de campo nos museus de folclore do Rio e de S.Paulo; depoimentos no Museu da Imagem e do Som (RJ); seu livro sobre maracatus do Recife é um clássico; e o número de dissertações e teses sobre sua música cresce a cada ano.

Está para sair o primeiro livro sobre Guerra-Peixe, idealizado por ele e publicado pela Lumiar. Precisamos de décadas para conhecer as muitas facetas deste músico brasileiro, que considero um ícone da nossa cultura.


Uma conversa com Jane Guerra-Peixe

Quando fui fazer o show de lançamento do meu CD de compositor, em 1999, eu sabia que precisaria tocar alguma coisa de Guerra-Peixe, que havia se tornado uma influência, uma espécie de bússola, um abre-caminhos em minha vida de músico, de criador. Fiquei alguns dias no seguinte processo: escolher uma música do maestro; encontrar alguma partitura disponível dessa música que eu escolheria; pedir autorização para a família.

Escolhi a “Família de Emigrantes”, primeiro movimento da suíte “Tributo a Portinari”, que eu havia ouvido pela primeira vez naquele CD de capa verde, “Tributo a Guerra-Peixe”, interpretado pela Ospa com regência de Ernani Aguiar. Nesse próprio CD vinha um agradecimento a uma tal Jane Guerra-Peixe, sobrinha, herdeira, curadora da obra do compositor. Consegui o telefone e liguei.

- Jane Guerra-Peixe? Meu nome é Alexandre Elias, sou músico, estou lançando um CD e gostaria de tocar uma música do maestro César Guerra-Peixe no show de lançamento.

- Que ótimo, Alexandre. E qual seria a música?

- “Família de Emigrantes”.

- Mas a “Família de Emigrantes” é uma composição para orquestra sinfônica. Você vai tocar com uma orquestra?

- Não. Meu plano é tocar com minha banda.

- Banda?

- Sim. Piano, teclado, baixo, bateria, guitarra, flauta, sax, percussão e voz.

- (segundos de silêncio) Hum... Alexandre, desculpe-me, mas acho que não vai ser possível liberar não...

Ora, claro. A pessoa é a responsável pela obra de um dos compositores mais importantes do país, e, do nada, certo dia, liga um louco de 27 anos, pedindo autorização para tocar, com uma banda, uma de suas peças sinfônicas. Claro que ela deveria não autorizar. Só que eu fiquei duas horas falando sem parar, tentando convencê-la de que eu faria um bom trabalho, dizendo que o Egberto Gismonti havia gravado um disco de arranjos eletrônicos para a obra de Villa-Lobos etc. E, por fim, ela autorizou:

- Você pode passar aqui em casa para pegar uma cópia da partitura.

Não só autorizou, como foi ao show, gostou muito. Dias depois ela me ligou porque queria conversar um assunto importante comigo. Combinamos um encontro no show “Nara, uma senhora opinião”, da cantora Cris Delanno. A Cris foi quem cantou a minha versão para banda da “Família de Emigrantes”. Jane chegou com uma bolsa cheia de partituras do maestro:

- Pronto! Queria que você fizesse com essas a mesma coisa que você fez com a “Família...”

A partir dali surgiu entre nós uma amizade que até hoje só me traz alegrias e muito me honra. E chega a ser prazeroso acompanhar e ver como Jane administra com bravura, cuidado, delicadeza e força descomunal a obra de nosso gênio.

Nosso projeto, de reler a obra do maestro em arranjos de música popular, que nasceu ali depois do show da Cris Delanno, continua até hoje, correndo atrás de recursos, e já conta com agregados como Zélia Duncan (que a partir do projeto acabou letrando e gravando, recentemente, uma composição do maestro), Aldir Blanc, Ronaldo Bastos, Cláudio Lins, Suely Mesquita, Robertinho Silva, Flávia Costa -que se tornou nossa sócia no projeto- e vários outros.

Dia desses, agora, recentes, Jane me liga para dizer que um grupo de pesquisadores de Pernambuco estava preparando um trabalho sobre a obra do maestro, trabalho que seria publicado em dois volumes. E ela gostaria que eu fizesse a supervisão, a revisão das partituras. A pessoa que estaria à frente da tarefa seria uma professora de história, e ela precisava de um músico. Claro que aceitei fazer esse trabalho. E Jane me disse que a professora, chamada Isabel, entraria em contato.


Entrevista com Isabel Guillen

Achei interessante a idéia de entrevistar Isabel Guillen, uma professora de história que acabou se apaixonando por Guerra-Peixe. Isabel é professora na UFPE, fazendo pós-doutorado sobre a história dos maracatus-nação, trabalhando especialmente com Dona Santa, rainha do maracatu elefante, que também foi objeto de pesquisa de Guerra-Peixe. Acho que aqui, nessa entrevista, poderemos ter uma luz sobre uma das atividades do maestro que achamos que conhecemos, mas sem ter a exata noção da profundidade em que ele se jogou: seu trabalho como pesquisador.


Como a sra. descobriu o trabalho de Guerra-Peixe?

Isabel Guillen: Descobri o trabalho de Guerra-Peixe ao iniciar minhas pesquisas históricas sobre os maracatus-nação do Recife e a cultura afro-descendente de modo mais amplo. O livro de Guerra-Peixe “Maracatus do Recife” é uma referência obrigatória para o estudo da cultura popular em Pernambuco. Conforme fui estudando a bibliografia e levantando a documentação, meus interesses se diversificaram e comecei a especular sobre a atuação de Guerra-Peixe no período em que esteve no Recife.

Fiquei me perguntando sobre como tinha sido essa atuação, o que ele tinha feito aqui etc. Sabia que músicos importantes, como Capiba, tinham sido seus alunos; que tinha trabalhado na rádio “Jornal do Comercio” etc. Fui buscar informações mais específicas sobre o maestro, fui ler seus outros trabalhos publicados em revistas e jornais, enfim, descobri que a atuação de Guerra-Peixe merecia ser pesquisada com mais detalhes. Então fui atrás de seu acervo na Biblioteca Nacional, que tem parte de sua correspondência, alguns de seus trabalhos publicados etc. E, ao analisar a bibliografia sobre o maestro, descobri que sua atuação como músico no campo do folclore e do estudo da cultura popular fora importantíssimo.

Um dia um colega me disse: “Seria bom se tivéssemos os cadernos de campo dele, as anotações que fez para escrever o ‘Maracatus do Recife’”. Achei a idéia excelente e fui perguntando às pessoas que conheciam o trabalho do maestro, até descobrir que Jane Guerra-Peixe estava conservando grande parte do acervo dele, e que tem trabalhos importantes para a história da cultura popular pernambucana.


Em sua opinião, qual a importância do maestro para a música popular e para o folclore?

Isabel: A obra de Guerra-Peixe é fundamental para o estudo da cultura popular. Ele publicou trabalhos que ainda hoje são referências, como seus estudos sobre as bandas de pífano, sobre rezas de defunto, sobre caboclinhos etc. Guerra-Peixe, de um modo quase que intuitivo, fazia etnografia, ou etnomusicologia.

Ele não simplesmente recolhia as músicas das manifestações folclóricas, mas estava interessado também nas pessoas que faziam essas músicas, na sua cultura de modo mais amplo. Seu trabalho, portanto, se situa naquele limiar entre o folclorista que apenas “registra” as manifestações da cultura popular e o pesquisador que faz trabalho de campo de modo mais sistemático.


Ainda hoje os pesquisadores podem encontrar material raro em um livro como “Maracatus do Recife”? Esse trabalho continua atual?

Isabel: Esse livro de Guerra-Peixe é referência obrigatória não só para os que estudam os maracatus, mas para aqueles que fazem maracatu. Muitos maracatuzeiros lêem o livro do maestro para saber como era o maracatu de Dona Santa, o famoso maracatu elefante. Apesar de ser um trabalho datado (muitas coisas mudaram nos maracatus desde a publicação do livro, muitas coisas permaneceram....) ainda é muito lido e merece uma outra edição, com certeza.


A sra. acredita que, hoje em dia, o pesquisador da música popular de Pernambuco precisa passar pelo trabalho que Guerra-Peixe fez? Precisa conhecer o trabalho do maestro?

Isabel: Não tenha dúvidas a respeito disso! O grande problema é que esses trabalhos não são de fácil acesso, e há muitos trabalhos do maestro inéditos, que, quando forem publicados, ainda que sejam só suas notas de campo, vão contribuir significativamente para o estudo da cultura popular em Pernambuco e também no Brasil de modo mais amplo.


Esse trabalho do maestro nos faz refletir sobre um assunto que hoje parece ser muito importante, até mesmo polêmico: a divisão entre cultura erudita e cultura popular em um país como o nosso. A própria obra autoral do maestro, sua música de concerto, é fortemente carregada pela música folclórica. Costumo dizer que o maestro foi o orquestrador do nosso folclore. Como a sra. vê isso? Realmente essa divisão entre cultura popular e erudita existe no Brasil? Precisa existir?

Isabel: O historiador italiano, Carlo Ginzburg, em seu livro “O Queijo e os Vermes”, ao se referir a essa divisão entre popular e erudito, utiliza o conceito de circularidade para mostrar que não existe uma separação rígida entre popular e erudito. Artistas, escritores, intelectuais, estão sempre colocando em circulação variadas formas de manifestação cultural, modificando-as, resignando seus sentidos etc.

Podemos chamar essas pessoas de mediadores culturais, pessoas que aproximam os mundos, fazem traduções, tornam inteligível aquilo que muitas vezes é muito diferente. Eu sou apaixonada pelo estudo desses mediadores, porque são pessoas que não têm medo dessa diferença, que estão dispostas a ver, ouvir, entender e se encantar com o outro. Essa relação amorosa com a cultura do outro propicia a produção de coisas novas e muitas vezes ricas e belas.

No Brasil, essa troca sempre ocorreu. E nesse sentido Guerra-Peixe pode ser considerado um grande mediador, sem preconceitos para com o popular, sem estabelecer fronteiras intransponíveis entre um e outro.

Agora, há uma diferença muito grande entre o Brasil da atualidade e de Guerra-Peixe. Hoje vivemos o mundo da globalização, em que a cultura é um dos bens mais disputados no mercado, como entretenimento. Tudo está virando espetáculo. E a cultura popular, como fica nessa história? O que se assiste hoje no Brasil é uma grande expropriação de um saber e de bens culturais de grupos tradicionais para colocá-los no mercado sem que isso traga benefícios para quem os produz. Isso para mim é muito sério.

Pensemos nos maracatus estudados por Guerra-Peixe. Hoje existem grupos de maracatu espalhados pelo mundo todo, e os jovens se encantam com seu poderoso batuque. No carnaval do Recife, maracatus abrem oficialmente o carnaval num grande espetáculo comandado por Nana Vasconcelos, e a Noite dos Tambores Silenciosos atrai um público enorme, todos os anos. Tudo isso está acontecendo na esteira do sucesso alcançado por Chico Science e Nação Zumbi.

Muitos grupos já gravaram CDs, foram para a Europa fazer shows etc. Mas quem efetivamente está ganhando com a cultura popular e seu tremendo sucesso hoje? Questão complexa que não dá para responder aqui... Mas dá para aprender com Guerra Peixe a ter uma atitude amorosa com essa cultura popular, que resulta num respeito pelos grupos que a fazem. Não um amor indistinto pela música, porque Guerra-Peixe sempre soube respeitar aqueles que detinham o saber, aqueles que faziam a música. A música popular, de cunho tradicional, ela é profundamente comunitária, e não adianta nada transformá-la em partituras, se por trás das notas não há respeito pelo homem.


A sra. acredita que ainda hoje existe uma elite que despreza nossa cultura popular?

Isabel: Acho que não. Com certeza encontraremos pessoas que não gostam, por uma questão de pura fruição. Não gostar de maracatu, ou de frevo, não significa desprezar a cultura popular. Acho que hoje é impossível que alguém diga que ela não é importante para a definição de nossa identidade, por exemplo.


Epílogo

“A música -minha arte e profissão no sentido mais amplo- sempre foi assunto para que eu me tornasse extremamente polêmico, como por vezes até agressivo, desagradem a quem quiser minhas opiniões. Tenho uma posição definida na música brasileira, que me custou muitos anos de experiência e pesquisa; e por isso não devo optar pelo meio-termo e sossobrar no bajulismo da maioria dos que querem tirar proveito de certas oportunidades” (César Guerra-Peixe).

 
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