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dossiê
MÚSICA BRASILEIRA

Em busca de Guerra-Peixe
Por Alexandre Elias

Os brasileiros precisam redescobrir a obra de um de seus maiores compositores

César Guerra-Peixe nasceu em Petrópolis, em 18 de março de 1914. Faleceu no Rio de Janeiro, em 26 de novembro de 1993. Ainda criança, foi matriculado na Escola de Música Santa Cecília, para estudar violino, solfejo e piano. Mais tarde mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou no então Instituto Nacional de Música, hoje Escola de Música da UFRJ.

Em meados da década de 40, encontra Hans Joachin Koellreutter e Cláudio Santoro, e juntos formam o grupo Música Viva, voltado exclusivamente para a música dodecafônica. Depois de compor várias peças sob as rédeas curtas do dodecafonismo, ele então decide “nacionalizar” a técnica de Schoenberg, aliando às suas 12 notas elementos da música brasileira. Mas finalmente, por volta de 1949, Guerra-Peixe abandona definitivamente o dodecafonismo.

Talvez, a partir daí, comece não só sua fase mais expressiva, mas também a fase que iria fazer dele um dos maiores, mais criativos e originais compositores eruditos do Brasil. Tornou-se um nacionalista. Tornou-se um compositor poderoso. Acima de tudo, um grande melodista. Emocionantes, dramáticas, simples e profundas, cantabiles, melodias infinitas e translúcidas. Eloqüentes, quase folclóricas, destinadas à eternidade. Mesmo as sinfonias, mesmo as peças para orquestra fazem com que a gente fique assobiando seus motivos por vários e vários dias.

Sua música também estreitou laços com a música popular. Pesquisou nosso folclore, escreveu o clássico livro “Maracatus do Recife”, foi arranjador em discos de Baden Powell, Edu Lobo, orquestrou músicas de Tom Jobim. Também são seus os arranjos do importantíssimo disco “Afro Sambas”, de Baden Powell e Vinícius de Moraes.

Agora, esses quatro primeiros parágrafos que escrevi foram desse jeito mesmo: rápidos, para informar o necessário. Mesmo porque esse texto não pretende ser biográfico. Mas, a partir daqui, a escrita vai precisar ser lenta, quase contemplativa. Pois este será um texto praticamente todo escrito a partir de memórias afetivas.

Eu me lembro de um dia passar em frente à Escola de Música Villa-Lobos, no centro do Rio de Janeiro, e ver um cartaz com uma foto do Guerra-Peixe, com um dos braços esticados, o dedo indicador apontando algo, um gesto imperativo, o rosto com uma feição cinematográfica, como o personagem de um guerreiro, um conquistador, um desbravador. Uma figura realmente impressionante.

Entretanto, além desse personagem impressionante, uma outra coisa muito me chamou a atenção: na foto, ao fundo, havia um piano de armário, simples, meio parecido com o meu piano de armário. Pode soar como algo sem sentido, mas isso fez com que eu ficasse imaginando se aquele seria o piano dele. Porque eu acho que o instrumento de um grande músico é quase um fetiche para um estudante de música.

Nessa época eu deveria ter uns 20 e poucos anos, e ele já era praticamente uma lenda viva. Só que, ao mesmo tempo, parecia ter um piano parecido com o meu. O que me fazia imaginar: “Como podemos ter pianos parecidos, eu um estudante, e o maestro? Será que se um dia eu tocar no piano de um compositor como o Guerra-Peixe a minha música vai soar da mesma forma? Será que se eu compusesse algo no piano dele minha música seria diferente? Será que o instrumento absorve o talento ou algo da alma de seu dono?”.

Mas, voltando ao cartaz da Escola de Música Villa-Lobos. O tal anunciava um curso de composição, ministrado pelo maestro. Lembro-me de ter ficado muito excitado para fazer, mas estava atarefado nas aulas de composição que tinha com Ian Guest, e resolvi adiar por um semestre minha matrícula. Não lembro se adiei por um semestre ou mais, mas sei que antes que eu conseguisse estudar com Guerra-Peixe, ele faleceu.

Eu confesso aqui que não conhecia nada de sua obra. Conhecia apenas sua fama como compositor e como professor muito exigente. Então, dias depois, por coincidência, um amigo me mostrou uma música do maestro, ao violão. Chamava-se “Lua Cheia”. Fiquei impressionadíssimo. Levei a partitura para casa, estudei, toquei, mostrei para outras pessoas, e imediatamente fiquei com fome de Guerra-Peixe. Queria ouvir mais, tudo que eu pudesse ouvir.

Um dia eu estava olhando CDs em uma loja, no tempo em que as lojas de CDs vendiam bons CDs de música erudita, inclusive com obras de compositores brasileiros. Encontrei um de capa verde, chamado “Tributo a Guerra-Peixe”, com a OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre), regência de Ernani Aguiar, que trazia as seguintes obras: “Tributo a Portinari” e “Sinfonia nº 2, Brasília”. Foi o primeiro CD que consegui comprar com obras do maestro. A primeira faixa era o primeiro movimento do Tributo: “Família de Emigrantes”, e ouvir aquilo pela primeira vez foi uma experiência fantástica.

Mais adiante, vou escrever sobre Jane Guerra-Peixe, sobrinha, herdeira e curadora da obra do maestro. Vou falar de como a conheci. Mas o que quero falar agora é o seguinte: alguns anos depois dessa minha primeira audição do CD de capa verde, eu estava no apartamento da Jane para pegar uma cópia de uma partitura. Justamente de “Família de Emigrantes”, a música que tanto havia me impressionado. Enquanto eu olhava umas fotos do maestro, dispostas em um móvel na sala principal do apartamento, Jane me chama, de uma saleta: “Alexandre, vem aqui, quero te mostrar uma coisa”. Quando eu entro na saleta dou de cara com um piano de armário, o mesmo que aparecia ao fundo da foto daquele cartaz. Ela me olha e diz: “Esse é o piano do Guerra-Peixe”.


Entrevista com Ruth Serrão

É impossível falar de Guerra-Peixe e piano e não falar de um dos nomes mais importantes na biografia do compositor: a pianista Ruth Serrão.

Ruth é uma daquelas artistas que podemos chamar de patrimônio musical de nosso país. Uma das maiores pianistas brasileiras, uma das maiores do mundo, ela era uma das intérpretes preferidas de César Guerra-Peixe. O compositor lhe dedicou algumas de suas obras e ela estreou várias de suas peças para piano.

Mas achei que apenas lembrar ou falar dessa incrível musicista seria muito pouco, então resolvi entrevistá-la, para que ela falasse, com suas próprias palavras, um pouco sobre sua convivência com o maestro e sua música.


Como era, para a sra., estrear várias peças de Guerra-Peixe? A partir do momento em que o maestro lhe entregava uma partitura, havia alguma troca entre vocês? Ele acompanhava a evolução do estudo da partitura? Opinava? A sra. o solicitava?

Ruth Serrão: Estréias de novas obras são fatos marcantes na carreira de um intérprete. Quando o compositor, em vida, escolhe determinado músico para uma estréia mundial, ele leva em consideração a capacidade do instrumentista e a empatia artística entre os dois. Fiz inúmeras primeiras audições de peças brasileiras e estrangeiras e são sempre experiências inesquecíveis.

Gosto de começar a trabalhar sozinha, descobrindo a nova obra, sem nenhum referencial. No caso de Guerra-Peixe, eu tinha intimidade com sua linguagem, mas isso nem sempre é possível. Após sentir uma certa familiaridade com a mensagem musical e resolver alguns problemas técnicos, começam as trocas com o compositor para esclarecer dúvidas, solucionar problemas e corrigir erros na partitura.

Tocar para compositor é intimidante e assustador, especialmente quando se trata de uma primeira audição privada de peça inédita. O intérprete está inseguro -peça nova, ainda verde- e o criador conhece a fundo suas intenções musicais. Foram muitas as peças que estreei e minhas idéias musicais sempre coincidiram com as dos compositores -a última foi em agosto na Unirio. No entanto, presenciei a desaprovação do Guerra na interpretação de uma de suas canções, impedindo sua estréia, que só se realizou anos depois. Mas isso é raro.


A sra. chegou, alguma vez, a acompanhar o processo de criação do compositor?

Ruth: Sim. Tive o privilégio de acompanhar seu processo criativo na “Tocata do Joizinho”; na transcrição para piano da parte orquestral das “Lúdicas” para violão e orquestra, que ele fez especialmente para Rogerio Rossini e para mim; na “Suite Urbana” e na “Rapsódica”, sua última obra e dedicada a mim. Ele criava com uma rapidez incrível!

Tínhamos também a preocupação de corrigir os erros inevitáveis de copista e de edições, sempre que trabalhávamos uma peça nova ou não. Quando tocamos o “Pequeno Concerto Para Piano e Orquestra” no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, descobrimos que faltavam diversos compassos na parte do piano. Ficamos boquiabertos, pois a peça já havia sido apresentada duas ou três vezes e ninguém havia notado a falha...


Em sua opinião, o que mudou, no cenário da música erudita brasileira, da época em que Guerra-Peixe era vivo até agora?

Ruth: É quase impossível fazer essa avaliação, pois em nosso meio há muitas contradições e está sempre sujeito às mudanças políticas. Minha impressão é que, de uma maneira geral, houve crescimento nas atividades artísticas, pelo aproveitamento das leis de incentivo fiscal; hoje um maior número de empresas patrocina a nossa arte. Por outro lado, os cachês dos músicos caíram consideravelmente e, ao examinarmos um projeto de concertos ou gravações, quem ganha menos é o músico... e com certeza eles estão a cada ano mais pobres.


Costumo dizer que existe uma situação injusta no Brasil. Parece que todos os nossos compositores de música erudita vivem à sombra de Villa-Lobos. É como se Villa-Lobos fosse sempre o único compositor erudito brasileiro a viver na memória afetiva do país. A sra. concorda? Acha que Guerra-Peixe, por exemplo, tem menos reconhecimento do que deveria?

Ruth: Eu não falaria em injustiça. Villa-Lobos é uma figura genial e controversa, e com ele a vida musical brasileira teve um impacto definitivo. Ele trabalhou para ficar na memória, abraçando projetos de grande vulto. Por exemplo, lotou estádios com coros de jovens, introduziu o ensino de música nas escolas e preparou os primeiros professores de música da rede pública. Também divulgou incansavelmente sua obra na Europa e América do Norte.

Muitos compositores vivem ou viveram à sombra de Villa-Lobos. Quando Guerra-Peixe abraçou o nacionalismo em 1949, tinha consciência dessa força e decidiu procurar seu próprio caminho, começando por se mudar para Recife, afastando-se das influências do Rio de Janeiro. Guerra-Peixe nos deixou também um legado definitivo como compositor, pesquisador, e formou uma escola de composição em Minas e outra no Rio. Acredito que o reconhecimento de seu talento e de sua genialidade tem se fortalecido e continuará a crescer, ao longo do tempo.


A música de Guerra-Peixe era fortemente ligada ao nosso folclore, à nossa música popular de raiz. Isso exige algo tecnicamente especial do intérprete? Como é para um pianista, com sua técnica desenvolvida a partir da escola clássica européia, tocar uma peça de Guerra-Peixe? Quais são as principais dificuldades? Quais as principais descobertas?

Ruth: A música é universal. Durante séculos, ela vem desenvolvendo uma linguagem única, com suas regras e símbolos para composição e interpretação, revelando um mundo mágico e acolhendo a todos: criadores, intérpretes e ouvintes.

Pianistas podem tocar desde Scarlatti, Beethoven, Liszt, Debussy a Guerra-Peixe, com os mais variados sotaques, adaptando sua técnica -ferramenta valiosa se usada criteriosamente- às necessidades do estilo.

Para compreender bem os clássicos europeus, estudamos sua língua e história, analisando sua música e absorvendo sua cultura. Para interpretar bem Guerra-Peixe é preciso conhecer os folclores pernambucano e paulista, a música urbana do Rio de Janeiro, a idéia do tropicalismo e ouvir muita música popular de raiz e sua música de concerto. Só assim desenvolvemos uma familiaridade com sua linguagem musical.

Do mesmo modo que estudamos a fundo Bach e Beethoven, temos que estudar a fundo nossos compositores: este é o grande segredo!


Como é tocar Guerra-Peixe no exterior? Como é recebida sua obra lá fora?

Ruth: A minha atuação no exterior sempre esteve ligada ao público acadêmico de conservatórios e universidades, ou a pequenas comunidades ligadas à música. A música de Guerra-Peixe sempre foi muito bem recebida. Na década de 80, publiquei um artigo na revista “Clavier” sobre o “Prelúdio Tropical nº 4 - Ponteado de Viola”, e consegui inserir o “Prelúdio Tropical Nº 7 – Tocata”, como uma das peças obrigatórias para piano no concurso para alunos de 1º e 2º graus no Estado de Wisconsin. Praticamente esgotamos a primeira edição; nos Estados Unidos é proibido tirar cópia de música impressa.


Para a sra., Guerra-Peixe tinha consciência da importância de sua obra?

 
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