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dossiê
MÚSICA BRASILEIRA

Compositores em alta
Por Matheus G. Bitondi

Ambiente cultural dá sinais de interesse pelos criadores de música erudita no país

Em um país onde a música popular goza de reconhecimento internacional, do apoio quase unânime dos meios de comunicação, do aval da classe intelectual e de um representante no Ministério da Cultura, é no mínimo estranho observar os compositores chamados “eruditos” em seus esforços solitários em busca de um pequeno espaço em um mercado extremamente restrito.

Fruto de um mesmo contexto e de talentos equiparáveis, mas certamente mais preparados do que aqueles da música popular, a música de concerto brasileira quase sempre se viu desamparada em sua trajetória, e, entre seus compositores, são poucos aqueles que puderam se gabar de viver da própria música. Esta situação está longe de mudar, mas, de uns anos para cá, esforços por parte de diversas instituições tem dado sinais de uma crescente valorização deste repertório e de seus criadores.

As primeiras dentre estas instituições que merecem destaque são as próprias orquestras nacionais, e certamente o melhor exemplo vem da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Nos últimos anos, a Osesp vem se dedicando à gravação de um repertório de importância já plenamente reconhecida.

Junto ao selo sueco BIS, a orquestra tem lançado no mercado títulos que incluem sinfonias do compositor amazonense Cláudio Santoro (1919-1989) e do paulista Camargo Guarnieri (1907-1993), além das famosas “Bachianas Brasileiras”, de Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Muitas destas obras existiam até então apenas em interpretações de orquestras estrangeiras, e quem ganha com estas novas gravações é o público brasileiro, que não mais terá de ouvir a popular “Embolada”, de “Bachianas Brasileiras nº.1”, interpretada por uma orquestra eslovaca...

Além disso, a orquestra já tem por tradição incluir compositores brasileiros em sua programação. Em 2006, foi a vez de dois senhores altamente respeitados no meio musical, mesmo que raramente ouvidos: José Antônio de Almeida Prado (1943), com seu “Salmo 23”; e Gilberto Mendes (1922), com “Alegres Trópicos: Um Baile na Mata Atlântica”.

O primeiro soube mesclar como poucos as técnicas composicionais vanguardistas, aprendidas com Olivier Messiaen na França, ao melodismo brasileiro de inspiração folclórica, aprendido de Camargo Guarnieri. O segundo foi responsável pela divulgação no Brasil do caldeirão de idéias que fervia na Europa nos anos 60, e que tinha como principais representantes compositores como Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez, Luigi Nono e John Cage. Em 2007, a Osesp prepara a estréia de uma obra do paulista Flo Menezes (1962), que, embora mais jovem que Almeida Prado e Mendes, já garantiu seu espaço no cenário musical tanto do Brasil como do exterior.

Outro conjunto que tem contribuído sobremaneira com a produção composicional do Brasil é a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. Por se tratar de uma formação instrumental muito mais jovem do que a orquestra sinfônica -uma banda sinfônica é constituída quase que exclusivamente por instrumentos de sopro e percussão, apresentando o contrabaixo como único instrumento de cordas-, o repertório para banda não é tão vasto e variado. Durante muitos anos, a programação da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo esteve repleta de transcrições duvidosas de peças do repertório orquestral e de arranjos e composições de músicos americanos, que têm uma tradição mais sólida no que se refere a esta formação, mas cujo repertório apresenta pouco interesse fora dos EUA.

Nos últimos anos, porém, sob a batuta do maestro Abel Rocha, a BSESP tem investido fortemente na produção nacional, encomendando e estreando peças de compositores como João Guilherme Ripper, Arrigo Barnabé, Edson Zampronha, Denise Garcia, entre outros. Em 2006, além de uma encomenda a Almeida Prado, a banda estreou uma ópera do compositor carioca Ronaldo Miranda (1948). “A Tempestade”, sobre texto de Shakespeare, se não for a única, é uma das raras óperas originalmente compostas para banda sinfônica no Brasil. E Miranda, recentemente contratado para a cadeira de composição da Escola de Comunicações e Artes da USP, é outro compositor que vem se destacando no panorama musical. Para 2007, a BSESP prepara outras estréias e anuncia o paulista André Mehmari (1977) como compositor residente.

A ópera, aliás, é outro gênero que vem despontando dentro da produção musical no país. Em 2006, ao lado de “A Tempestade”, somente em São Paulo foram encenadas duas outras óperas escritas por compositores brasileiros: “Kseni, a Estrangeira”, da brasileira radicada na Alemanha Jocy de Oliveira (1936), e “Olga”, do carioca Jorge Antunes (1942). A produção desses dois espetáculos é um forte indício deste crescente interesse por autores nacionais.

A apresentação de “Kseni” marca a volta aos palcos brasileiros de uma entre vários compositores que há muito deixaram o país em busca de melhores condições de trabalho. E a encenação de “Olga”, ópera sobre a vida da revolucionária Olga Benário, marca o fim de uma longa luta por parte de Antunes em busca de meios e apoios para sua montagem. Vale ressaltar que essa luta só chegou ao fim após a nomeação para diretor do Theatro Municipal de São Paulo do maestro Jamil Maluf, outro nome que deve ser lembrado quando se fala em incentivo à produção nacional.

Ainda que de forma bem mais tímida do que na programação das salas de concerto, a produção dos compositores brasileiros vem despertando interesse também do mercado fonográfico. No ano que passou, foram lançados dois CDs produzidos pelo percussionista Joaquim Abreu, outro militante da produção brasileira contemporânea, destacando obras de compositores como Ronaldo Miranda, Flo Menezes, Roberto Victório, Almeida Prado e Willy Corrêa de Oliveira (1938).

Este último, aliás, foi tema de um outro lançamento importante: o álbum “Willy Corrêa de Oliveira, o Presente” traz a gravação inédita da obra para canto e piano do compositor. Ao lado de Gilberto Mendes, Willy foi um dos principais expoentes da música de vanguarda brasileira e, como professor da USP, foi responsável por várias gerações de compositores subseqüentes, incluindo os já citados Flo Menezes e André Mehmari.

Ao lado da produção fonográfica, também a produção cinematográfica parece começar a se dar conta do valor dos nossos compositores. Nos últimos dois anos, foram produzidos dois documentários registrando e reverenciando a carreira de alguns dos compositores já citados: “Maestro Jorge Antunes - Polêmica e Modernidade” e “A Odisséia Musical de Gilberto Mendes”, que fornecem um bom panorama tanto da produção musical dos compositores que enfocam, quanto do contexto em que eles desenvolveram seu trabalho.

Todo esse interesse que cresce em torno de nossa música contemporânea e gera novas formas de divulgação vêm somar-se aos já tradicionais eventos que abarcam este repertório, tais como a Bienal de Música Brasileira Contemporânea, organizada no Rio de Janeiro pela Funarte, e o Festival Música Nova, fundado há mais de quatro décadas por Gilberto Mendes e realizado anualmente nas cidades de Santos e São Paulo, ainda sob sua coordenação e recentemente com auxílio do Centro Universitário Maria Antônia, ligado à USP.

Com tudo isso, criam-se novos espaços e audiências para esses importantes personagens da cultura brasileira com bastante atraso, mas talvez ainda a tempo para as futuras gerações de compositores. Esperemos, porém, que tudo não seja apenas mais um daqueles surtos passageiros que acometem a vida cultural do país.

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Matheus G. Bitondi
É compositor, mestrando em música pela Unesp.

 
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