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dossiê
MÚSICA BRASILEIRA

A elite da elite da elite
Por Humberto Pereira da Silva

“A música erudita não interessa ao capitalismo”, diz o compositor Willy Corrêa de Oliveira, que tem suas obras editadas em CD

A música erudita feita no Brasil desperta pouco interesse de público, ocupa espaço reduzido e tímido dos cadernos de cultura dos grandes jornais e, com isso, muitos de nossos principais intérpretes e compositores acabam conhecidos apenas entre si e por alguns poucos amantes da música, numa espécie de confraria de iniciados. Para Willy Corrêa de Oliveira, um dos principais compositores brasileiros da segunda metade do século 20, essa situação ocorre devido à própria natureza da música erudita, que é refratária ao capitalismo.

Nesse mundo por demais restrito, o próprio Willy tem uma trajetória singular. Iniciou-se como compositor em Recife, em meados dos anos 50, e suas composições iniciais foram fortemente marcadas pelo nacionalismo musical brasileiro. Graças à amizade com Olivier Toni, tomou conhecimento no final da década de 50 da obra de Stockhausen, Boulez e Nono, que o levaram à escrita dos compositores seriais. Com esse estímulo, viajou à Europa, onde freqüentou estúdios de música eletrônica, os cursos de Darmstadt e, principalmente, se deixou influenciar pelo trabalho de Henri Pousseur.

De volta ao Brasil, nos princípios dos anos 60, ao lado de Gilberto Mendes, Rogério Duprat, Damiano Cozzela e Julio Medaglia, participou do Grupo Música Nova de São Paulo, que publicou um manifesto em 1964 e instaurou um Festival de Música Nova. Nesse período, desenvolveu o uso de procedimentos isomorfos entre texto e música, em colaboração com a poesia concreta. Sua fase vanguardista, no entanto, foi sacudida por uma crise de consciência política no final dos anos 70: ele rompeu com suas referências e optou pelo questionamento político da composição e da vida musical, através de um engajamento explícito.

Depois de um período de afastamento crítico do meio musical erudito, gradativamente ele foi retomando sua atividade criativa. Parte de suas composições dessa fase recente foi compilada pelo projeto “Willy Corrêa de Oliveira, o Presente” realizado pelo Núcleo Água-Forte -através do Programa Cultural Petrobras, com o apoio da Edusp. O projeta lega ao público, em edição bilíngüe, dois álbuns de partituras: “Álbum de Peças para Piano” e “Álbum de Canções”, para voz e piano; e um CD duplo - “Piano” e “Miserere e Canções”-, gravado com os pianistas Caio Pagano, Lilian Tonela, Fernando Tominura, Isabel Kanji, Bruno Monteiro e Maurício de Bonis, e a soprano Caroline de Comi, acompanhado de um livro encarte.

A seguir, Willy, 65 anos, fala sobre seu engajamento político, de suas desilusões com o ofício de compor, de seu entusiasmo com o cinema de Jean-Luc Godard e da incompatibilidade entre o capitalismo e a música erudita. “Como a música erudita exige muito de você, um conhecimento que levaria uma vida -e isso não produz capital-, ninguém opta por esse tipo de conhecimento. Pouquíssimos o fazem, apenas uma elite da elite da elite”, analisa o compositor.

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A música erudita está distante da chamada “cultura de massa” e praticamente só é ouvida pela “burguesia pensante”. Você é um artista visceralmente crítico do consumismo e da ideologia burguesa. Em seu trabalho, como fica a questão da criação artística quando posta frente ao engajamento?

Willy Corrêa de Oliveira: Sobre o engajamento, eu passei por vários momentos absolutamente contraditórios. O primeiro deles foi típico produto de uma mente pequeno-burguesa. Eu rechaçava todo engajamento político em nome de uma arte que se dizia universal e vanguardista, mas que não passava ela mesma de uma parcela da arte burguesa. Essa foi a primeira parte: não aceitar o realismo socialista, ser muito crítico com relação aos seus produtos, pois os padrões que eram da cultura com a qual me formei, sobretudo os da cultura de vanguarda, eram contrários à idéia de uma arte engajada.

Depois, tive uma fase seguinte bastante engajada, quando eu parei com toda atividade pequeno-burguesa para, mesmo como pequeno-burguês, me colocar a serviço de uma causa. Então comecei a fazer música que era usada no dia-a-dia: em passeatas, greves etc.

Penso que, hoje, o problema da arte engajada não se coloca a curto prazo. Exatamente agora eu não sei como seria colocar o problema dessa arte, pois você não tem a que se engajar. Se não tem, como fazer uma arte engajada? Como artista, para mim ficou assim: eu componho porque preciso. Bem vejo que a música não é necessária para ninguém, mas eu a faço para mim mesmo. Acho que estou dialogando com a minha situação no mundo.


Por conta do engajamento político, como foi a sua relação com outros artistas de sua geração, como Gilberto Mendes, Rogério Duprat e Damiano Cozzela, responsáveis pela fundação do Festival de Música Nova?

Willy: Naquele primeiro momento eu estava muito ligado ao Gilberto Mendes, ao Rogério Duprat. Nós fundamos o Festival de Música Nova. Estive na direção do festival até pouco antes de 1979, quando entrei em crise. Aí eu parei de me interessar e, a partir daquele momento, disse: “Eu não toco mais; nunca mais vou me apresentar!”. Parei com qualquer contato. E um pouco antes disso eu publiquei uma série de artigos na “Folha de S. Paulo”, e esses artigos foram alvos de uma crítica acerba de todos os meus colegas que estavam em volta -me acusaram nos jornais de stalinista, de linha dura, de linha chinesa... Houve um esfriamento muito grande em relação a todos os meus pares, pois eu deixei de ser um par.


Quer dizer, um afastamento só do grupo inicial, de Gilberto Mendes, Rogério Duprat, Cozzela?...

Willy: Não! Desse grupo tive um afastamento absoluto, total; mas não só desse grupo, como de vários outros intelectuais que eu conheci na época, que não suportaram aquele tipo de colocação que eu fazia. Os poetas concretos me acusaram de stalinismo...


Naquele período havia sintonia entre a música nova e a poesia concreta?

Willy: Sim, uma sintonia direta, a gente tinha muito contato, fora uma amizade pessoal que eu sempre tive com eles, principalmente o Augusto (de Campos). Mas houve uma quebra: falei mal de Webern, e eles se sentiram atingidos. Com isso, perdemos realmente o contato.


E qual a diferença que você vê entre aquele momento e, hoje, em relação à expectativa com sua música?

Willy: Quando eu comecei, com todas aquelas ilusões que a burguesia confeccionou, sempre com muito carinho, com biografias de grandes artistas, um composto de ilusões muito grande, então eu, jovem, tinha muita expectativa. Na medida em que fui vivendo, dei com a cara na parede. Cada vez que eu realizava um concerto, mostrava uma peça, eu me sentia muito mal. Ninguém me compreendia; nem mesmo os colegas tinham compreensão, imagine o “público em geral”.

Então foi um contínuo de desilusões paulatinas, até quando tive aquela crise e rompi com a idéia de compositor burguês e passei a fazer uma arte engajada. Aí, já não se colocava mais esse problema. Quero dizer, eu só podia fazer uma arte engajada se ela tivesse uma resposta imediata. Eu teria que mudar na hora se a música não agradasse. Agora, é diferente mudar para agradar uma classe que realmente precisa tomar o poder e mudar para satisfazer uma classe que já está no poder e que estropia as relações humanas.

No momento em que eu vivo hoje, já sei que a arte não tem lugar no mundo capitalista, a não ser quando você fala de arte como mercadoria. A música erudita em especial não interessa ao capitalismo, porque não é uma boa mercadoria, porque você não compra uma sinfonia só para você. Pode no máximo comprar um disco, mas para usar aquele disco você tem que realmente compreender aquilo, por isso a música erudita não vende.

O mercado dela é tão pequeno que eu posso até dizer quanto é. Era, uns dez anos atrás, de 3,8% do total de músicas gravadas. Veja você: 3,8%, incluídos aí a música religiosa, os três tenores (Luciano Pavarotti, Placido Domingo e José Carreras), as valsas, as música para o jantar, para o almoço, de Beethoven a Alban Berg. Ao passo que ninguém conhece Nikos Skalkottas, um dos compositores mais importantes do século XX. Nem os próprios músicos sabem quem é. Eu não tenho ilusões com a música no capitalismo.


Mas por que a música erudita não tem espaço no capitalismo?

Willy: É muito simples: porque uma mercadoria não pode fazer exigências. Uma mercadoria que faz exigências tem que depois produzir muito capital, e a música não produz esse capital. Entender demais a música, o que se produz com isso no capitalismo? As escolas de música estão aí: no máximo são conservatórios de quinta categoria, incluindo a USP. Eles foram interessantes em 1789, com a Revolução Francesa, quando a burguesia criou uma escola de música.

Naquele momento, já era conservatório, para conservar. Imagine o que é um conservatório em 2006! Olhe para a USP, mas não só a USP, qualquer outra universidade aqui e lá fora -nos Estados Unidos, na Europa... Inexiste a música no capitalismo. Porque, para existir, precisaria que existisse uma linguagem musical erudita viva do capitalismo. Como a música erudita exige muito de você, um conhecimento que levaria uma vida -e isso não produz capital-, ninguém opta por esse tipo de conhecimento. Pouquíssimos o fazem, uma elite da elite da elite.


Parte de sua obra entre 1989 e 2005 -além de três “Instantes” e dois “Prelúdios” anteriores à crise do final da década de 70- foi recentemente gravada com o apoio do Programa Petrobras Cultural. Como se deu a iniciativa de elaborar um projeto para a gravação e a edição de suas composições desse período recente?

Willy: Não fui eu que fiz esse projeto. Eu jamais teria feito esse projeto! Quando me desenganei com a burguesia, desde 1979, disse: “Não quero mais apresentar nada; tenho certeza de que não tenho nada a dizer para eles, nem eles para mim”. Então eu não tinha esse projeto incluído. Foi um grupo de músicos, alunos meus na ECA, que teve a idéia de fazer.

Do ponto de vista da esperança, eu não tenho nenhuma que isso vá chegar às pessoas, mas pode ser, e essa é minha dúvida, pode ser que pare em alguém... Eu gostei, porque eles conseguiram realizar um projeto que é bonito, com muito trabalho e dedicação. Eu apenas estive do lado deles e vi o quanto eles trabalharam. Eu nem disse a eles: “Escolham isso ou aquilo”...


Foram eles que escolheram o repertório dos dois CDs, um com peças para piano e o outro com “Miserere” e “Canções”?

Willy: Isto é porque eles queriam fazer exatamente dois CDs. Em um, queriam incluir “Canções”, e, no outro, as peças para piano. No das “Canções”, como tinha um espaço um pouco maior, eles incluíram o “Miserere”, que é executado pelo próprio pianista (Maurício De Bonis) que acompanha as “Canções”. Fora isso, penso que eles acharam que o “Miserere” podia ser incluído. Eu apenas estou aqui de corpo presente; já morri para qualquer tipo de manifestação dentro dos cânones da cultura. Eu não estou interessado mais nisso, mas vou continuar fazendo música até o último dia de vida se continuar tendo essa necessidade.


Você então está dizendo que vai criar para si mesmo...

Willy: Mas os criadores só criam para si mesmos!


A partir de sua trajetória como compositor de música erudita, hoje você discordaria dos termos de Maiakóvski: só há arte revolucionária se houver forma revolucionária?

Willy: Eu não posso dizer que discordo porque seria realmente gratuito, mas não concordo! Porque isso é também parte de um ideário tipicamente pequeno-burguês; que a arte tem de ser revolucionária. Maiakóvski era um pequeno-burguês que viveu um momento importante e soube transitar por aquela história de uma maneira verdadeiramente extraordinária. Mas grande parte das criações estéticas que ele fazia antes de falar com grandes multidões -pois antes ele falava para pequenos círculos- você não entende, são verdadeiras lides surrealistas.

Outras são recados muito concretos. Existia não uma linguagem, mas uma oportunidade. A poesia, que se utiliza da linguagem verbal, portanto as palavras que todos conhecem, é mais compreensiva do que a música. Eu acho que antes de se pensar numa arte revolucionária, numa forma revolucionária, se deveria pensar numa humanidade que cultivasse a arte. Esse é o primeiro passo, e nem foi pensado, nem era possível naquela época.


E o que pensar do realismo socialista?...

1 - O Núcleo Água-Forte desenvolve projetos culturais na área da música erudita e é formado por Thiago Cury, Marcus Siqueira e Maurício De Boni, ex-alunos de Willy Corrêa, na ECA-USP.

 
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