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MÚSICA

Bonde do Rolê na velocidade da luz
Por Alan de Faria


A banda curitibana Bonde do Rolê
Eugenio Vieira/Divulgação

O trio curitibano lança álbum pela Domino Records, a mesma de Franz Ferdinand e Artic Monkeys

2006 foi um ano importante para o Bonde do Rolê. O grupo fez turnês pela Europa e pelos EUA e foi notícia na internet e em revistas nacionais e internacionais de respeito, como a britânica “New Music Express” e a norte-americana “Rolling Stone”. Mas é 2007 que promete ser “o” ano do trio formado pelos músicos Marina Ribatski, Rodrigo Gorky e Pedro D’Eyrot. O motivo? Eles assinaram contrato com a gravadora independente Domino Records, a mesma das bandas hypes Franz Ferdinand e Artic Monkeys, e devem lançar nos próximos meses o primeiro álbum com alguns de seus sucessos, como “Melo do Tabaco” e “Dança da Ventoinha” e participações especiais de Edu K e Lovefoxxx, vocalista do Cansei de Ser Sexy, entre outros.

O disco, porém, pode não ser distribuído no Brasil. “Ainda estamos resolvendo as ofertas para lançar o álbum aqui”, diz Gorky, DJ e produtor da banda curitibana. Já conhecidos no exterior, sobretudo na Europa, onde realizaram a turnê ao lado do DJ norte-americano Diplo, o Bonde do Rolê tem tudo para aumentar o seu público. “Em quase todos os shows que fizemos nos países europeus, tinha gente que foi especialmente para nos ver”, conta Gorky.

Para D’Eyrot, também DJ e produtor do grupo, o “batidão” característico do ritmo dos morros cariocas que a banda faz é o responsável por fazer com que os gringos dancem sem mesmo conhecerem o conteúdo das letras das músicas. “Quando toca, ninguém fica parado”, afirma. O Bonde do Rolê mistura rock dos anos 80 com batidas típicas do funk carioca.


Sem palavrões

A ascensão do Bonde do Rolê começou quando o som da banda chamou a atenção de Diplo, que contratou o grupo para lançar um CD promo e um vinil pela sua gravadora, a Mad Decent. À época, o DJ fez apenas um pedido: proibiu que as canções da banda tivessem palavrões ou bizarrices em inglês. “Na verdade, ele só pediu para a gente pegar leve nas versões, afinal de contas, vai demorar para os gringos entenderem nossa ‘cultura funk’”, ironiza D’Eyrot.

Aliás, um dos bons momentos do Bonde do Rolê em 2006 foi justamente o encontro com a funkeira Deise Tigrona, no palco do Tim Festival. “Todos da banda são fãs dela. Gostamos do jeito que ela canta, principalmente de suas letras, que foram usadas por muitos grupos”, diz Gorky, referindo-se, inclusive, a artistas internacionais, como a cantora anglo-cingalesa M.I.A., que sampleou trecho da música “Injeção”, de Deise, no hit “Buck Done Gun”.

A razão do interesse pelo Bonde do Rolê no exterior pode ser explicada justamente pelo sucesso do funk carioca lá fora. Em entrevista à revista “Bravo!” (maio, 2006), o jornalista Silvio Essinger, autor do livro “Batidão - Uma História do Funk”, fala da bênção que o funk carioca tem recebido no exterior: “Inúmeros DJs e críticos estrangeiros, sobretudo nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Alemanha, o encaram como um braço criativo da música eletrônica”, explica. Com isso, acrescenta o jornalista, “uma parcela da elite brasileira passa a olhá-lo de modo semelhante: menos como algo tosco, descartável, e mais como um produto de relevância cultural”. Não é de se estranhar, portanto, que casas noturnas e festas badaladas fiquem cheias quando a atração é Tati Quebra-Barraco ou o DJ Marlboro, um dos responsáveis por tornar conhecido o funk carioca fora do Brasil.

Já um outro motivo do burburinho provocado pelo Bonde do Rolê se deve à novidade de seu som. Num cenário cultural no qual a internet se torna cada vez mais presente e responsável por revelar novidades, muitas gravadoras, como a própria Domino Records e a Trama, miram os olhos para sites, como o MySpace, com o objetivo de descobrir tendências e bandas que apresentam um trabalho diferenciado.

Foi por meio da internet que grupos como o Cansei de Ser Sexy (escolhida a “a banda mais quente de 2006” pela MTV do Reino Unido) e o Artic Monkeys começaram a despontar. Para se ter uma idéia do poderio da internet, o boca-a-boca provocado no mundo virtual pelo Artic Monkeys foi tão intenso que, no dia do lançamento do álbum de estréia da banda (“Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not”), foram vendidas quase 120 mil cópias do disco na Inglaterra.

No entanto, a importância da internet na disseminação do trabalho do Bonde do Rolê divide a opinião dos integrantes da banda. Enquanto a vocalista Marina Ribatski credita um papel fundamental ao MySpace, D’Eyrot prefere minimizar a importância da rede. “Só fomos para a internet após recebermos pedidos de amigos que gostavam do som nas festas em que tocávamos. Mas, obviamente, não teríamos despertado o interesse do Diplo tão rapidamente. O processo seria, sem dúvida, mais lento e menos abrangente”, diz.


Trajetória meteórica

A verdade é que tudo tem acontecido de maneira meteórica na carreira do Bonde do Rolê. Formado em maio de 2005, a partir de quando passou a tocar em festas de amigos, é provável que o trio não imaginasse que, um ano e meio depois, estaria em turnê pelos EUA ao lado da banda Cansei de Ser Sexy (CSS).

Se no exterior são bem-vindos e recebem uma série de elogios, em terras brasileiras o Bonde do Rolê ainda passa despercebido por grande parte dos jovens e da mídia. O público da banda curitibana se restringe à freqüentadores de clubes alternativos da cidade de São Paulo e aficionados por novidades do mundo musical. Os elogios são escassos, e as críticas, em geral, negativas, apesar de a APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) ter eleito o show da banda em São Paulo como o melhor de 2006. “A maioria das coisas que ouvimos de ruim é o de sempre, como: ‘eu faria melhor’ ou ‘funk carioca não presta’”, diz Gorky.

De qualquer maneira, isso parece preocupar pouco o Bonde do Rolê –que ainda tenta entender sua trajetória meteórica no exterior. “Desde o lançamento do single em vinil até o Tim Festival, foi susto atrás de susto... Claro, dos bons!”, diz Gorky.


(Publicado em 21/12/2006)


link-se

Algumas músicas podem ser ouvidas no site www.myspace.com/bondedorole

Sobre a turnê nos EUA - www.thephoenix.com/tourblog

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Alan de Faria
É jornalista.

 
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