ELITIZAÇÃO
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audiovisual
ACELERAÇÃO

Paisagem-passagem
Por Eder Chiodetto

"Fast_Slow Scapes", de Giselle Beiguelman, transforma a visão dos locais em experiência poético-sensorial

Globalizar-se a ponto de se tornar um ser conectado com as novas experiências de vida em sociedade inclui necessariamente a idéia de aumentar seus pontos de contato pelo planeta. Em suma, o homem contemporâneo implodiu os limites geográficos e expandiu suas redes, ampliando o conceito de local para o de aldeia global. Como conseqüência, ou causa, criou aparatos físicos e virtuais, para encurtar tais distâncias. Tais aparatos surgem sob o signo da ansiedade e do imediatismo que marca nosso tempo, sempre permeados pela aceleração, pela velocidade.

Sob o signo da velocidade o deslocamento entre origem e destino se tornou, abruptamente, uma experiência radical de anulação, de apagamento da paisagem. Entre origem e destino restou o vácuo ou, quando muito, estilhaços de imagens que num frenesi surgem e desaparecem na tela do computador, do palm top, do celular, no retrovisor do carro, na janela do trem, do táxi, do avião, da van. Paisagem-passagem.

A velocidade atenta, num primeiro momento, contra o nosso poder de percepção do entorno. A paisagem, que deixa de ser vista como imagem estática e passa a ser um fluxo vertiginoso de linhas, cores e volumes que tendem ao abstrato se reconfigura aos nossos olhos, modificando sobremaneira o conceito de contemplação.

Quando chegamos no destino, seguimos permeados pela velocidade que nos guiou até ali. O corpo desacelera, mas nossos sensores não. Observar cada vez mais o mundo como paisagem-passagem, como fluxo e não mais como um quadro fixo, nos fez adquirir uma espécie de olho-scanner. Aceleramos assim, inclusive o que é estático. O olho-scanner entende a paisagem como superfície, sem profundidade, sem densidade.

A contemplação do quadro fixo, da imagem estática, por outro lado, nos oferece –oferecia- a possibilidade de perceber a imagem, a paisagem, o mundo não como leitura de scanner, da esquerda para a direita, mas em planos, com profundidade de campo, densidade.

O audiovisual -o melhor termo talvez fosse “visual-sonoro”- “Fast_Slow Scapes” (2006), da artista Giselle Beiguelman, em exibição na Galeria Vermelho, em São Paulo (até o dia 16 de dezembro), oferece uma chave de leitura das mais instigantes sobre esse olhar contemporâneo diluído na paisagem urbana. Ao justapor a impossibilidade contemporânea para a contemplação da imagem estática e a volatilidade das imagens em movimento, a artista faz de sua obra não uma crítica ranzinza sobre os novos tempos, como tem sido comum na arte contemporânea, mas sim uma espécie de sinfonia do caos, um quase guia poético de leitura da paisagem urbana.

Provando que o mundo necessita cada vez menos de fotógrafos ou videomakers, e mais de editores, Beiguelman edita de forma vibrante, por meio de acelerações descontínuas e interrupções temporais, imagens por ela captada com prosaicos aparelhos de telefonia celular durante seus deslocamentos, a bordo de sete meios de transporte diferentes, em várias cidades pelas quais viajou nos últimos anos.

A excelente trilha sonora, emprestada do alemão Trickform, que Beiguelman encontrou na sua extensa rede de contatos, cria a paridade perfeita para alçar vôos nas imperfeitas e belas confluências entre a percepção visual e auditiva que a artista recolhe no mundo para redesenhar em novo formato.

Desta forma, agregando o olho-scanner a imagens que se fixam, o volátil com o permanente, a artista constrói peças ricas em texturas e tessituras e nos devolve a paisagem-passagem em forma de experiência poético-sensorial muito bem calibrada. A paisagem urbana ressurge, então, como diluição do espaço-tempo não mais como esgotamento, como cegueira coletiva, mas como campo da sublevação das experiências sensitivas do homem contemporâneo.

Obra multifacetada, “Fast_Slow Scapes” oferece sempre novas surpresas e conexões diversas a cada nova apresentação. Obra para ver-rever-ver-rever-ver. Prova inconteste de que a artista conseguiu apreender, na concepção de seu projeto, o binômio contemplação-diluição. Quietude e vertigem em alta voltagem.

Publicado em 11/12/2006

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Eder Chiodetto
É fotógrafo e curador.

 
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