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TRÓPICO/DOCUMENTA
Política e poética da apropriação Diferentes grupos sociais aprendem as artes do audiovisual em interação com videomakers e antropólogos Dois garotos se agarram na chuva, num misto de luta e brincadeira. Os dois corpos se pegam, se empurram, se largam, se atracam de novo, em uma coreografia sensual e agressiva desprovida de estilo definido. Dorso nu, calção, pés descalços na terra batida encharcada, as imagens salientam a cor morena escura dos dois protagonistas. Nada mais há em quadro. A linguagem corporal e a cor da pele sugerem a condição social diferente do vídeomaker, artista plástico e documentarista Cao Guimarães, que, atento aos movimentos da cidade, registrou, da intimidade da janela de seu quarto, como sugere o título do filme, uma performance anônima e espontânea na rua. A proposta não inclui um método ou um estilo. O filme expressa um flagrante, um acontecimento único no espaço e no tempo. “Da Janela do Meu Quarto” destoa do tom ansiosamente verbal que caracteriza uma infinidade de documentários e filmes de ficção, trabalhos recentes, dedicados a registrar a profusão de manifestações culturais que vêm subvertendo a cena pública brasileira. A novidade maior destas manifestações talvez resida em um movimento inédito, insistente e consistente, diversificado e fragmentado, de apropriação dos mecanismos de produção da representação. A desigualdade, a violência urbana, o tráfico de drogas e a mídia constituem temas recorrentes em uma produção literária, musical e audiovisual que, de diversas maneiras, acena com a possibilidade de inclusão social plena. Na dança, na moda e em diversas outras áreas artísticas, a vivacidade e as cores marcam uma produção que legitima e promove o gosto popular para consumo de segmentos abastados. O universo da produção cultural, e não o da política partidária, se apresenta como via privilegiada de um movimento de inclusão com ramificações globais, que coloca a cultura em posição estratégica. Fluxos transnacionais de mídia, capital, armas e drogas, mas também de repertórios culturais e organizações não-governamentais, anunciam os paradoxos de um novo milênio, dilacerado por conflitos que ressuscitam fundamentalismos geográficos, étnicos e religiosos e enfraquecem os Estados nacionais. Nas bordas do mundo ocidental, em uma situação geopolítica que favoreceu ao longo da história, a confluência desigual, mas heterodoxa, de línguas, religiões e etnias, o Brasil acumulou reflexão e práticas antropofágicas que o colocam hoje em posição avantajada quando se trata de pensar fenômenos artísticos, culturais, políticos, sociais, midiáticos, contemporâneos. Discriminações de gênero, raça e classe, a devastação do meio ambiente, o descuido para com a qualidade de vida, convivem com a produção e o manuseio de tecnologias e expressões estéticas inovadoras, que acenam com possibilidades de inclusão. Lideranças indígenas, há décadas, circulam na arena mundial participando de encontros e cerimônias que reúnem seus pares ao redor do planeta. Aqui, como na Austrália, com a ajuda de antropólogos e videomakers, diferentes grupos aprenderam as artes do registro audiovisual. No coração de florestas, projetos tecnológicos de ponta engajam povos locais na catalogação e no estudo de uma diversidade biológica rara, uma das grandes reservas da humanidade. Publicações autóctones nos trazem o frescor das histórias nativas de autoria coletiva, como as “Histórias Tuyuka de Rir e de Assustar”. MV Bill possui um título de Cidadão do Mundo, conferido pela Organização das Nações Unidas no Fórum Mundial das Culturas realizado em Barcelona em 2003 e, além de cantar, faz e publica pesquisa socioantropológica. Cooperativas de moda em favelas do Rio de Janeiro ou de Porto Alegre comercializam produtos que fazem sucesso nos círculos “in”, como o popular “fuxico”, embora não necessariamente gozem do mesmo estatuto em suas comunidades de origem. Na maior parte das vezes, esses feitos heterodoxos partem de alguma interação fecunda entre “nativos” de diversas paragens e “agentes externos” de algum tipo. O projeto “Vídeo nas Aldeias” do antropólogo-videasta engajado Vincent Carelli é um exemplo ilustrativo. Ivaldo Bertazzo, o consagrado coreógrafo da classe média alta paulistana se aventura nas periferias de São Paulo, cidade onde mora, do Rio de Janeiro, da Bahia ou do oriente balinês. Em cada um desses locais, Ivaldo promove a tensão entre saberes profissionais e linguagens locais. Vários trabalhos levaram “cidadãos dançantes” que participaram de cada experiência a expressarem no palco coreografias que misturaram referências ao popular e ao erudito. Talvez o mais recente, “Samwaad, ruadoencontro” seja o mais sofisticado desses esforços de pesquisa do movimento como encontro e “multiálogo” entre diversas linguagens. Muitas vezes essas invenções ocorrem em consonância com projetos de arte-educação ou de fortalecimento da cidadania. Raramente operam expressões estéticas significativas. O discernimento dessas formas raras, mas alvissareiras, desafia as categorias da crítica contemporânea. Oficinas de audiovisual, reality shows, “Cidade de Deus”, “Cidade dos Homens”, “Prisioneiro da Grade de Ferro”, “Ônibus 174” são alguns exemplos de cinema e televisão, de ficção e documentário que expressam diferentes formas que essa apropriação pode assumir e assume na expressão audiovisual. Em busca da superação da posição de “objeto” e de algum controle sobre a constituição de subjetividades, aspirantes a protagonista participam da disputa pelo controle do que será representado, como e aonde. Em outras palavras, reconhecem a política -e indagam sobre a poética- das representações. A pesquisa antropológica de Alba Zaluar nas terras da Cidade de Deus despertou o talento de ficcionista de seu assistente local, Paulo Lins, que quebra tabus seculares ao se aventurar em uma forma de expressão usualmente de elite em um país de pouca cultura literária. O movimento de Paulo Lins prenuncia a chamada “literatura marginal”, que, nos últimos 10 anos, se articularia, a partir do hip hop, movimento com conexões transnacionais, inaugurando uma autonomia de manifestação talvez inédita entre as classes populares brasileiras. Algumas publicações e debates depois, Feréz, autor de manifesto e organizador da primeira coletânea de trabalhos da corrente, publicada na revista “Caros Amigos”, ao participar de debate com o sociólogo José de Souza Martins, na 2ª Festa Literária de Paraty, expressa sua angústia por um reconhecimento que ultrapasse a denúncia social, que alcance qualidade e legitimidade literárias propriamente ditas. Seja como base para roteiros cinematográficos, na música, na ambientação sonora de filmes de ficção, ou como assunto mesmo de documentários, essa literatura extrapola a manifestação escrita. O livro de Paulo Lins inspirou Fernando Meirelles, cineasta oriundo das lides do vídeo paulistano dos anos 80, com experiência na realização publicitária. A opção pela filmagem no morro, pelo uso de atores amadores levou à realização de um extenso laboratório conduzido por Kátia Lund em torno de uma ONG, “Nós do Morro”. Segundo o diretor, o roteiro do filme foi reescrito 11 vezes a partir de elementos retirados da fala dos próprios aspirantes a atores, personagens de si mesmos. A linguagem rápida de edição, o roteiro amarrado, a história bem contada, o uso de artifícios como o que acentuou o brilho da pele de atores retintos, não prejudicam a verossimilhança do filme, fundada na linguagem falada e na ginga corporal autóctone. O “método” de construção de diálogos engendrado na feitura de “Cidade de Deus” vem sendo usado, com doses maiores de improviso, por exemplo, na feitura do seriado “Cidade dos Homens”, cujos roteiros e argumentos se referenciam em sondagens de inspiração etnográfica e contam com a colaboração decisiva dos atores, chamados a cunhar falas a partir de situações descritas, seqüência a seqüência, na hora da filmagem. Seria possível detectar aqui uma espécie de mímese de repertórios locais apropriados pelo filme. É como se a fabulação de autoria de Paulo Lins, retrabalhada por Meirelles e Bráulio Mantovani, ganhasse corpos e vozes “reais” na pele dos atores locais. Já o documentário “O Prisioneiro da Grade de Ferro”, de Paulo Sacramento, aborda diretamente essas relações de alteridade, adotando uma perspectiva, que, em relação à tradição “sociológica” do documentário brasileiro, poderia ser descrita como “antropológica”. Nesse caso, mais do que um discurso geral, uma tese a respeito de um “outro” sobre o qual se fala, busca-se entender a complexidade da vida no presídio a partir da visão “de dentro”, ou seja, dos próprios presos. O documentarista tenta desmistificar o lugar, se aproximar com abertura, buscando penetrar a visão que esse “outro”, prisioneiro, tem de si mesmo. Resultado de uma oficina audiovisual conduzida pelo cineasta com detentos no antigo presídio do Carandiru, o filme busca expressar uma visão que se opõe aos estereótipos que associam presos à violência e à barbárie. Nesse sentido, o filme se aproxima de “Carandiru”, de Hector Babenco, uma produção ficcional, de proporções muito diversas, mas também baseado em um roteiro senão “de dentro”, de alguém que foi ao menos um pouco de dentro. Falando sobre si próprios, os presos-cineastas no filme de Sacramento, ou os presos pacientes, que conhecemos através do relato do médico do presídio, aparecem humanizados. Aqui não encontramos nenhum dos personagens de “Cidade de Deus”. No outro extremo, simpatizamos com os desenhistas, escultores, crentes ou torcedores que o filme apresenta. Em “Da Janela do Meu Quarto”, por sua vez, nada ouvimos do que dizem os atores do balé beligerante, em seu jogo de corpo corriqueiro. Não há som direto. A trilha sonora instrumental -contemporânea e minimalista- é extra-diegética e salienta uma leitura autoral que não pretende transmitir uma “mensagem programática”, mas enfatiza a qualidade plástica imanente a essa atuação improvisada. As imagens captadas de cima para baixo em planos longos, médios, seguem o ritmo de cada “round” do movimento dos garotos. O filme venceu o X Festival É Tudo Verdade, na categoria curta-metragem. Ao receber o prêmio, o artista agradeceu aos meninos, atores involuntários de um registro fílmico que desconhecem. Deles, o diretor não sabe nome ou endereço. “Da Janela do Meu Quarto” pode ser interpretado como uma pequena peça clássica. A câmera incógnita registra. Posteriormente, edição e trilha sonora desenham uma interpretação autoral sensível à beleza que emana daquele jogo e que, por isso, pode transcendê-la. Há algo naquela expressão corporal que vai além da desigualdade social e da discriminação. Algo que tem a ver com a complexidade de impulsos a um só tempo sensuais e agressivos. Uma tensão constante que permanece ao longo de uma luta sem vencedor, que não evolui em direção a um clímax. Presenciamos, “de fora”, a poesia de um relacionamento que não se realiza oralmente. Esse distanciamento destoa de outros trabalhos contemporâneos, que, de uma maneira ou de outra, buscam lidar com uma alteridade que invariavelmente se reinstala. Aqui o tom autoral reconhece e admira a natureza poética desse outro, que fica menos estranho. O embate pelo protagonismo anima a cultura contemporânea. Diferentes opções de roteiro, posicionamento de câmera, procedimentos de edição, estabelecem jogos específicos de alteridade entre quem, de alguma forma, participa do universo “de dentro” e quem registra “de fora”. Injunções inesperadas nessas articulações podem produzir experiências estéticas interessantes, especialmente quando estranhamentos e aproximações se assumem da maneira explícita. (Publicado em 3/12/2006) link-se English version - http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2805,1.shlX . Esther Hamburger 1 - Celso Athayde, MV Bill e Luiz Eduardo Soares, “Cabeça de Porco” (Objetiva, 2005). 2 - “Caros Amigos, “A Cultura da Periferia - Ato I”, s/d, and “Caros Amigos”, “A Cultura da Periferia - Ato II”, s/d (Ed. Casa Amarela). 3 - Fernando Meirelles em entrevista a Tata Amaral em “Trópico” - http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/1605,1.shl 4 - Ver Jean Claude Bernadet, "Cineastas e imagens do Povo" (Companhia das Letras, 2004).
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