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Hirschhorn: Sim, gosto muito de me repetir, gosto muito de insistir.
Hirschhorn: Não conheço bem Voltaire, mas quero tentar explicar porque gosto de me repetir e porque gosto de insistir: é que é automático. O que eu gosto na repetição é a repetição em si mesma, gosto que a importância resida no fato de repetir alguma coisa e o que se repete é menos importante. Com cada repetição, o que é repetido perde em importância e o ato de repetir ganha importância e dá um novo sentido, a repetição é o sentido mesmo. A repetição é um meio de criar leveza. Gosto do arranhado de um disco, uma máquina que gira no vazio ou um movimento e som infinitos -quase sempre isso não dura tanto tempo. Penso que a repetição é uma forma de resistência, me repetir permite ganhar tempo e se repetir permite resistir contra a ditadura do novo e a cilada da variação. Gosto da música repetitiva e do cinema. Há alguns anos -para ganhar a vida- trabalhei numa casa de aposentados. Havia uma senhora idosa que dizia sempre a mesma palavra -o dia todo-, ela repetia somente “hallo - hallo” (olá, olá). Isso me marcou profundamente. Gosto também de insistir, insisto porque alguma coisa é importante para mim. Insisto somente por alguma coisa se isso me obrigar a fazê-lo e se -de alguma maneira- me sinto obrigado a insistir. A insistência ultrapassa a motivação e a medida. É a coisa pela qual insisto que se torna importante. Insistir é se engajar, se envolver numa missão. Dar-se uma missão é aceitar que existem coisas importantes para si mesmo -eu precisava muito de tempo para compreender isso. Minha missão é meu trabalho de artista, sou eu quem me dou esta missão e sou eu que devo tentar realizá-la. Para mim mesmo. Minha missão é importante, insisto em realizá-la, e isso se torna pesado, e o peso aumenta ao continuar em insistir. Insistir é sempre pesado, muito pesado ou até mesmo pesado demais -mas as coisas não mentem mais. Eu compreendo que alguém possa insistir pesadamente. Com freqüência não sei mais parar eu mesmo, exagero e vou além do razoável. Mas -ao mesmo tempo- insistir é sempre demais -é isso mesmo-, é fazer a mais. Penso que o trabalho do artista é o de insistir, de somente, mas infinitamente, insistir.
Hirschhorn: Agora, não estou entendendo nada, é mais um desses mal-entendidos relacionados ao meu trabalho! Vou explicar: gosto de Gilles Deleuze (fiz o “Monumento Deleuze”), gosto de Michel Foucault (fiz as “24 horas de Foucault”) e gosto da Hannah Arendt (fiz “Hannah Arendt-Map”). Jamais me passou pela cabeça -nem que fosse por um instante- a idéia de criticá-los, não tenho nenhuma razão, nenhuma vontade de criticá-los, não os critico -não por respeito, mas por amor! Pois, como Deleuze, Foucault, Arendt, amo Spinoza (fiz o “Spinoza-Monument”), Nietzsche” (fiz o “Nietzsche-map”), Kant e Hegel. Quanto à “Escola de Frankfurt”, não sei nem mesmo do que se trata. Creio que é isso que muitas pessoas não compreendem, não sou um filósofo, não preciso de filosofia para o meu trabalho de artista -preciso de filosofia para viver! Não faço crítica da filosofia -sou um amante dela. Como posso criticar aquilo que amo? E como posso criticar algo que é tão importante para mim? Não trabalho com respeito, trabalho com amor. Só que, se amamos, estamos de acordo sobre tudo, não criticamos, é limitado, estúpido e pretencioso, eu sou um artista -detesto aquele que tem sempre alguma coisa a criticar, efetivamente assim ele não corre nenhum risco! Só que quero arriscar e ousar, quero arriscar e ousar a dar forma! “Restore Now” (para a 27ª Bienal de São Paulo) é um reservatório de ferramentas não arrumadas e um arsenal não arrumado, num caos e numa não-clareza potencial. Se em “Restore Now” há livros de filosofia ampliados, se há livros de filosofia colados com fita adesiva, se colei ferramentas nos livros de filosofia, se os confrontei com imagens de seres humanos destruídos ou feridos, é para dar forma à afirmação: as ferramentas que estão lá, nós as temos -vamos utilizá-las, utilizemos os martelos, os parafusos, furadeiras, os pé-de-cabra e utilizemos os livros de filosofia -para consertar, bricolar, tampar, construir, mas também para quebrar (as desigualdades), para lutar (contra o racismo, os ressentimentos), para lutar contra (as injustiças), é essa a mensagem de “Restore Now”: nós temos as ferramentas (é por isso que a responsabilidade é universal!), passemos à ação! De qualquer maneira, e é aí que eu não me dirijo exclusivamente ao historiador, ao especialista, ao cientista, ao acadêmico, ao crítico, ao político -pois é preciso agir, e a filosofia e arte podem agir, então me dirijo àqueles que podem ser ativos: utilizemos as ferramentas que temos à mão, uma chave de fenda pode servir como martelo, uma serra pode virar uma arma, um livro pode servir de peso, nós temos as ferramentas, então devemos utilizá-las, mesmo mal, mesmo parcialmente (uma simples lâmina de um abridor de carta corta também!), mas vamos usá-las, é urgente, estamos precisando, agora! Hohn Heartfield já disse: “Utilize a fotografia como uma arma!”.
Hirschhorn: Eu não estou morto, não estou ainda morto.
Hirschhorn: Se você me perguntar: “o que é preciso fazer?” -sabendo que só posso responder para mim mesmo “o que é preciso que eu faça?”, eu respondo: é preciso trabalhar. Trabalhar com amor, com paixão, com alegria, com seriedade e correndo o risco de fazer um trabalho que incomode e que não é baseado em uma análise compartilhada. É preciso trabalhar para lutar contra o cinismo e a negatividade, contra a ditadura das opiniões e dos fatos, contra o politicamente correto e também contra má consciência. É preciso trabalhar para estar de acordo consigo mesmo e poder co-operar com a Realidade, sim, co-operar com a Realidade para mudá-la. A salvação para mim é continuar a trabalhar, pois, trabalhando, eu avanço, faço experiências e de um certo modo eu me educo a mim mesmo. Trabalhar permite me erguer a mim mesmo, me afirmar por meio de uma forma que conta para mim. O que importa é a energia -o que não importa é a qualidade- trata-se da questão de como posso tomar uma posição e dar forma a esta posição que atravessa os particularismos políticos e éticos. Eu quero travar uma batalha contra a questão da Utopia, pois fazer Arte não é utópico e não é sonhar ou escapar da realidade. Fazer Arte é trabalhar sem controle e sem compromisso, e precisamos no mesmo movimento confrontar Utopia e Realidade. É preciso confrontar-se à Realidade com crueldade, crueldade contra si mesmo, inicialmente. Eu quero trabalhar plenamente dentro da minha época -trata-se da questão de como posso criar uma verdade além da história e que é nesse sentido universal? O que devemos fazer, é não tomar distância, é criar novas formas e afirmá-las enquanto formas autônomas. Eu acredito na Autonomia da Arte. A autonomia que me interessa não é a autonomia da auto-suficiência -a autonomia que me interessa é a Autonomia da Arte que é ativa, aquela que permite uma abertura. E aquela que me permite ser minha própria bateria e que permite finalmente me autorizar a mim mesmo. Amo demais -e creio ainda ser válido- aquilo que disse Andy Warhol: “Don´t cry -work!” (Não chore -trabalhe!). Tradução de Leonardo Babo (Publicado em 3/12/2006) . Lisette Lagnado |