CIÊNCIA
O catálogo universal da vida, por Paula Sibilia
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TRÓPICO/DOCUMENTA

“É preciso trabalhar para lutar contra o politicamente correto e a má consciência”
Por Lisette Lagnado


Instalação de Thomas Hirschhorn, na 27ª Bienal de São Paulo
Divulgação

A curadora da 27ª Bienal de São Paulo entrevista o artista suíço Thomas Hirschhorn

Thomas Hirschhorn, nascido em 1957, em Berna (Suíça), vive e trabalha em Paris. Entre suas várias exposições internacionais, basta citar a 48a Bienal de Veneza (“dAPERTutto”), a Whitechapel Art Gallery, de Londres, o Prix Marcel Duchamp, no Centre Georges Pompidou (Paris, 2000), o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (solo), o Walker Art Center de Minneapolis, a Documenta 11 de Kassel e a Tate Modern, de Londres.

Ele participa até o próximo dia 17 de dezembro da 27a Bienal de São Paulo, intitulada “Como viver junto” e inspirada no título que reúne os seminários de Roland Barthes (1977-1978). Ele participa da primeira Bienal de São Paulo cujo projeto foi escolhido, pela primeira vez em sua história de meio século, por um concurso internacional. Hirschhorn foi convidado pelo grupo dos curadores com os quais trabalhei (Adriano Pedrosa, Cristina Freire, José Roca e Rosa Martínez), e a decisão de escolhê-lo não correspondeu aos envios sugeridos pelos órgãos oficiais que determinariam quais são os artistas “suíços” para o evento brasileiro. A 27a Bienal de São Paulo aboliu as representações nacionais.

A imprensa brasileira, após uma ótima recepção do projeto da Bienal no decorrer do ano, deu voz à intelligentsia que desconhece as práticas artísticas contemporâneas. Uma das expressões depreciativas mais recorrentes é: “Bienal politicamente correta, monótona, atapetada de bons sentimentos”. Em oposição à intelligentsia (que já irritava Hélio Oiticica e Glauber Rocha nos anos 1960 em diante), agora a crítica amadorística, que deveria reler Jacques Rancière, armou-se de coragem para endossar este viés e afirmar que a mostra seguiu “a prerrogativa ética em detrimento da estética” e que, portanto, “peca pela ausência de qualquer tipo de transcendência”.

Já em 1995, Hirschhorn havia escrito a respeito de sua posição diante do “politicamente correto”. Ora, esse artista nem sequer foi considerado digno de uma análise pelos críticos brasileiros quando receberam a “cumbuca”, agravando assim o já conhecido “silêncio dos intelectuais” de uma sociedade para a qual propus uma Bienal que não fosse um evento efêmero, mas que durasse um ano inteiro, que colocasse o Estado do Acre no mapa internacional por sua luta por um “desenvolvimento sustentável”, uma Bienal com seis seminários internacionais, com um programa de residências artísticas e com o show do grupo Konono nº 1 para encerrar 2006 com a música que a periferia de Kinshasa conseguiu levar até o chamado Primeiro Mundo.

Na época de Baudelaire, somente a participação de Thomas Hirschhorn, independentemente do projeto da 27a Bienal, teria merecido meia dúzia de resenhas críticas -me lembra um não-especialista em artes visuais. No Brasil, o editor de um dos maiores cadernos de cultura se vê obrigado a delatar “a ausência marcante de alguns dos principais curadores e críticos (ou ex-críticos e ex-curadores?) do país: “a omissão”.

Para Hirschhorn, tudo não passa de “interpretação”. Assim, quando dizem “autoritário”, isso significa, de fato, “que (a Bienal) tem uma direção, é determinada”; quando afirmam que é movida por “bons sentimentos”, leia-se que ela é uma “resistência às pressões do mercado”; quando chamam-na de “politicamente correta”, que ela é “engajada, consciente do mundo que nos envolve e do momento em que vivemos”; quando decretam que se trata de uma Bienal “monótona”, entenda-se que ela soube “evitar o espetacular e a competição pueril”.

Na entrevista a seguir, em torno deste terceiro tema -“O que deve ser feito? (a educação)”-, proposto pela documenta a um coletivo de mais de 80 publicações de todo o mundo, Thomas Hirschhorn dá suas respostas para quem estiver disposto a trabalhar e a agir. Entre seus 118 convidados, a 27a Bienal de São Paulo ficará marcada, quer queiram quer não queiram, por sua obra, uma sala impressionante, toda construída de papelão, chamada “Restore now” (Restaure agora), composta de livros agigantados, instrumentos de trabalho e imagens de corpos dilacerados.

No decorrer da preparação da Bienal, Hirschhorn costumava terminar suas mensagens com mais uma daquelas frases que nos retorcem o pensamento lógico: “Nunca está definitivamente ganho, mas tampouco nunca está definitivamente perdido”. Adel Abdessemed (nascido na Argélia em 1971), que também agrega sentido para o tema desta Bienal (e indignou uma atriz por mostrar, em um de seus trabalhos, um gato comendo um rato), sempre concluía seus e-mails laconicamente para mim com a repetida e persistente afirmação: “The best is to be done” (O melhor está por ser feito) _para citar dois artistas da mostra em São Paulo. A omissão não faz parte do programa da 27ª Bienal.

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Como você emprega a sua força para que a sua visão do mundo possa transformar o observador? Thomas Hirschhorn: Eu penso que -sendo artista- a força deve ser a de criar uma forma. Se eu tenho alguma força é exatamente esta: dar forma. Minha força deve ser a de dar uma forma, a minha forma, a forma que vem de mim e a forma que venha somente de mim mesmo. Eu devo afirmar esta forma contra todas as razões e contra todas as opiniões e devo ser absolutamente livre com a minha forma. Não devo aceitar nenhuma imposição, não devo escutar nenhuma crítica e devo agir “sem cabeça” afirmando minha forma pessoal.

Devo assumir o fato de ser ridículo diante da minha forma. Eu penso que é esta a força do artista. Assim, aplicando essa força, apoiando nela e a multiplicando –justificativa- tudo se torna evidente e tudo se torna claro. Essa força, essa forma dada, irradia e toca o Outro. Há um impacto, pois a forma dada possui um sentido, ela faz sentido. A Arte possui -pois se trata de Arte- a capacidade de implicar o Outro e -por se tratar de Arte- ela possui uma dimensão política.

Eu sei também que a Arte -pois se trata de Arte- cria a condição para que um diálogo ou um confronto com o Outro se estabeleça. Então, eu penso que, se tenho a força de fazer uma forma que só venha de mim e se eu tiver a coragem de afirmar esta forma, o Outro pode ser transformado pela minha forma, pela minha visão. É -em todo caso- minha missão.


Você gosta realmente de apagar todos os vestígios deixados para trás para que ninguém consiga atingi-lo (é esta a estratégia da vanguarda). Além disso, quando se escreve 15 vezes a palavra “forma” ao dar uma resposta, espera-se a clássica queda do crítico na fórmula: “Então, você é formalista, meu caro artista?”. E pronto! O crítico é lançado de chofre a uma descida vertiginosa ao abismo da desconstrução. Cada vez que vi seu trabalho (uma vez em Kasel e outra vez na galeria de Chantale Crousel), tive percepções divididas, em se tratando das suas intenções. Estou de acordo com Buchloh quando ele diz que com a exposição “ Invitation”, no Jeu de Paume, você terminou com a abstração. Receio, no entanto, a instrumentalização dos signos (da comunicação de massa, por exemplo) no espaço. Não seria tornar banal a tragédia da atualidade? Não seria fazer -até mesmo colocar em evidência- as mesmas apropriações do cotidiano? Retorno a Oiticica. Ele defendeu o “artista construtor” somente redefinindo o termo. A construtividade não é, no léxico dele, um jogo de formas e de geometrias. A construtividade remete o artista à sociedade e à dilatação do sensível. Você não preferiria a palavra “construtor” à palavra “forma”? Você não estaria na mesma sintonia?

Hirschhorn: Adoro Hélio Oiticica e sua obra. Seu trabalho conta para mim. Mas eu só tive a experiência dessa obra a partir de 1992, com uma exposição magnífica no Jeu de Paume, em Paris. Essa exposição me chocou, eu estava implicado. Seu trabalho teve uma implicação direta e imediata comigo, é este o poder da arte. Essa exposição me deu uma coragem enorme. “Construtor” é um belo termo, eu quero também construir, quero ser também construtivo, mas prefiro mesmo assim a palavra “forma”, ela me parece mais -como dizer- universal. “Forma” é simples, aberta, econômica, mas pode criar também mal-entendidos e incompreensão, sei disso, mas não tenho medo disso.

Gosto de me repetir, quero me repetir e devo fazer isso em demasia. Pois eu quero, fazendo demasiadamente, criar as condições para que uma mudança de sentido possa intervir. Insistindo com a palavra “forma”, desejo que o termo-mesmo seja ultrapassado. Eu quero, insistindo e repetindo, dar importância a alguma coisa, pois estou engajado nela. Ao mesmo tempo, ao repetir e insistir, essa coisa se esvazia de sentido, se torna oca. O que eu quero é que o engajamento e o vazio -postos juntos- criem um novo sentido. Você sabe, não sou um historiador da Arte, não posso comentar as opiniões dos historiadores da arte -por mais justas que elas fossem, pois não posso fazer arte e me ver fazendo arte!

É por isso que não posso compreender os seus receios, pois a cada dia eu sou e quero ser desafiado -de novo-, como artista -com relação ao mundo e com relação ao tempo no qual vivemos. Penso que tenho um instrumento -a Arte- para enfrentar os medos e receios. O cotidiano, o banal, a atualidade, a informação, quero absolutamente ultrapassá-los, mas não quero ultrapassá-los sem confrontá-los. Quero tocar no que é problemático -lutar com- o mais diretamente possível. Talvez não consiga chegar lá com o meu trabalho -é sempre possível-, estou consciente dos riscos, mas não tenho medo. Porque quero poder agir -através do meu trabalho-, responder e obrigar o Outro a responder: qual é a minha posição? E quero ter a ambição de responder à questão e de indagar: o que eu quero?

Não sou o espectador ou o teórico do meu próprio trabalho, sou seu ator. Não posso refletir sobre o meu trabalho sem antes de ter tido a ousadia de fazê-lo, senão não o faria simplesmente! O que eu quero é trabalhar, é fazer. E quero ser responsável pelo meu trabalho, quero tomar a responsabilidade de algo do qual não sou responsável. É isso: estar livre com aquilo que vem de mim mesmo.


Falemos um pouco do “Monumento Bataille”, de 1992. Bataille sempre defendeu “a experiência interior” com relação à exigência de uma comunidade: “Se eu quero que minha vida tenha um sentido para mim, é necessário que ela tenha um sentido para outrem”. Podemos estar de acordo com Blanchot, que invoca Nietzsche para lembrar-nos que a comunicação é um rasgo?

Hirschhorn: Eu não preciso de Filosofia para o meu trabalho de Artista, preciso de Filosofia para viver e prego a amizade entre a Arte e a Filosofia. Quero trabalhar para esta amizade e quero então tentar explicar o que eu quis fazer com o “Monumento Bataille”. Não se tratava de ilustrar o pensamento de Georges Bataille e não me situo no campo da Filosofia. Esse trabalho é dedicado a Bataille, de quem sou . Ele é para mim ao mesmo tempo um modelo e um pretexto, pois ser um fã me permite utilizar o mundo das formas dos fãs. O fato de ser um fã me liga a outros fãs, o fã de uma equipe de futebol ou o fã de uma cantora.

O “Monumento Bataille” é uma experiência, uma experiência pessoal que fiz paralelamente a outras. Penso que fazer Arte é um ato de solidão -mas não se trata de uma solidão narcisista ou depressiva, trata-se de uma espécie de tentativa solitária para resistir. Quero resistir à tentação do consumo e quero resistir à tendência de tornar as coisas mais lindas do que elas são. Fiz o “Monumento Bataille” por causa somente do texto, sublime, “A Noção de Despesa”, publicado no livro “A Parte Maldita”. Fiz também esse trabalho por causa das reflexões de Bataille sobre o Homem Acéfalo.

Bataille, enquanto pensador da transgressão, com seus escritos sobre o princípio da perda, do dom, da sobrecarga e do excesso, é primordial para mim. Pensei: há um trabalho a ser feito -um trabalho de forma-, um trabalho que almeja o impossível, que quer mais do que o possível. Eu quis fazer um trabalho com amor, sem respeito. Quis fazer um trabalho determinado e quis assumir o fato que essa determinação ultrapasse às vezes o que eu quis.

Com o “Monumento Bataille” quis dar forma a um Monumento que funciona como uma máquina, uma máquina que carrega, que produz e cria alguma coisa. O “Monumento Bataille” quer produzir amizade e sociabilidade, quer oferecer saber e conhecimento, o “Monumento Bataille” quer criar diálogos e confronto e o “Movimento Bataille” quer permitir a criação dos elos e das conexões. Estou interessado pelos múltiplos sentidos que pode ter um Monumento. Estou interessado pela complexidade do campo de força que vem de um Monumento. O “Monumento Bataille” quer ser um outro gênero de Monumento.

1 - Cf. “Folha de S. Paulo”, caderno “Ilustrada”, Juliana Monachesi: “Na mostra, a ética eclipsou a estética. Ao eleger a arte colaborativa, documental, com pretensões políticas, exposição assume risco de ser monocórdia e redundante”, São Paulo, sábado, 2 de dezembro de 2006, pág. E4.


2 - Os críticos deveriam se informar e ler. No mínimo, as publicações básicas da Phaidon Press, que nenhum acadêmico sério consegue desprezar enquanto está formando seu “gosto”. Cf. “Thomas Hirschhorn”, com textos de Benjamin H. D. Buchloh, Alison M. Gingeras e Carlos Basualdo, Londres e Nova York, 2004.


3 - Cf. Marcos Augusto Gonçalves, “Folha de S. Paulo”, caderno “Ilustrada”, “Curadores e críticos evitam pôr a mão na cumbuca”, São Paulo, sábado, 2 de dezembro de 2006, pág. E5.


4 - Cf. “Folha de S. Paulo”, Marcos Augusto Gonçalves, op. cit.

 
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