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RESENHA
O cinema na estante Mercado editorial abre espaço para obras relevantes de teoria e história dos filmes Para o bem ou para o mal o cinema brasileiro tem estado presente em salas de exibição, mostras e festivais. Desde o lançamento de “Carlota Joaquina: princesa do Brasil”, em 1995 (eu prefiro cravar como ponto de inflexão “Terra Estrangeira”, do mesmo ano), o período marcado pelo nome de Cinema da Retomada mobiliza discussões que vão da esfera das leis de incentivo cultural e dos debates em torno da Ancine à cobertura dos principais festivais de cinema por aqui e pelo mundo. O mercado editorial, atento aos novos ventos, tem aberto espaço para publicações sobre cinema, editando ou reeditando obras relevantes, que arejam as discussões no plano histórico, teórico ou da articulação -pouco comum por aqui- entre cinema e filosofia. A seguir, destaco quatro livros recém-lançados: “O século do cinema”, de Glauber Rocha (Cosac Naify), “O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência”, de Ismail Xavier (Paz e Terra), “O primeiro cinema: espetáculo, narração e domesticação”, de Flávia Cesarino Costa, e “O cinema pensa: uma introdução à filosofia através dos filmes”, de Julio Cabrera (Rocco). Diferentes em sua natureza, foco e propósitos, para o que se propõe todos têm em comum o fato de que despertam os leitores para questões e temas localizados que ficariam confinadas à arqueologia dos nichos conceituais.
Sob coordenação de Ismail Xavier, a Cosac Naify tem reeditado a obra crítica de Glauber Rocha (a escrita polêmica do líder do Cinema Novo estava confinada nas estantes universitárias desde o início dos 80). Em 2003, publicou o marco “Revisão crítica do cinema brasileiro”, primeiro livro de Glauber, publicado em 1963, em que foram esquadrinhados os desafios que sua geração tinha pela frente. Em 2004, foi a vez de “Revolução do Cinema Novo”, no qual Glauber fala de amigos, de personalidades, dá entrevistas, expõe teses: estéticas da fome e do sonho. Agora, a editora publica “O século do cinema”, reunião dos escritos de Glauber sobre o cinema internacional, desde a época em que era jovem crítico de jornais da Bahia e de outros estados do país, no final dos 50, até suas últimas intervenções, como a crítica mordaz a “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola, no “Caderno B” do “Jornal do Brasil”, em 1980. Publicado pela primeira vez em 1983, dois anos após a morte do cineasta, os escritos de “O século do cinema” revelam uma face talvez hoje em dia menos conhecida de Glauber: sua voracidade pantagruélica para dar conta de praticamente tudo que se liga ao cinema. Como nas edições de “Revisão crítica” e de “Revolução”, novamente a Cosac Naify apresenta ao público uma edição esmerada. A se destacar de início o prefácio assinado por Ismail Xavier. Nele é enfatizada a importância de se ler Glauber tendo em vista que se trata de alguém que tinha uma consciência aguda do lugar de onde falava e das respostas que devia dar ao seu contexto, de modo a intervir nos debates mais amplos da cultura cinematográfica. A se destacar também nessa edição o apêndice à edição de 1983. Nele, com apresentação novamente de Ismail, é acrescentado o texto em que Glauber faz um balanço do Cinema Novo no mundo, ainda em 1968, pouco depois, por conseguinte, de “Terra em transe”; outro em que o precoce Glauber, em 1958, se posiciona sobre a crise do neo-realismo; e também um texto em que Glauber, em 1967, fornece aos incaultos (ou aos que não se afinam com o cinema moderno) algo como um receituário para uma aproximação de Godard: “Você gosta de Jean-Luc Godard? (Se não, está por fora)”. Malgrado a boa edição, uma ressalva: apenas nos textos do apêndice as fontes estão indicadas logo abaixo do texto (o que, assim entendo, facilita a consulta); nos textos do corpo do livro, em contrate, as fontes estão inseridas no final, junto com o índice remissivo (o mesmo ocorre também na reedição de “Revolução do Cinema Novo”). Para uma maior praticidade na consulta, seria interessante se as fontes estivessem registradas logo abaixo do texto. “O século do cinema” está agrupado na seguinte ordem: Hollywood, Neo-realismo e Nouvelle Vague. A se destacar de início o espaço que Glauber dá ao cinema americano. Jovem crítico, ele deu grande importância ao cinema de Hollywood, e o que se pode perceber nas páginas de “O século do cinema” é que ele se ocupa desde Griffith e Chaplin até a incursão de Copolla pela guerra do Vietnã, com “Apocalypse Now”. Assim, Glauber tratou de gêneros como o policial, o western e o suspense; de mitos como James Dean; da metáfora anarcocapitalista em “Easy rider”; da controversa posição de Elia Kazan; e, principalmente, da importância dos primeiros filmes de Stanley Kubrick (Glauber escreveu no final dos anos 50 sobre “A morte passou por perto”, “O grande golpe” e “Glória feita de sangue” e, com uma intuição admirável, dá conta de detalhes desses filmes que serão explorados à exaustão na filmografia posterior de Kubrick). Destaque dessa primeira parte do livro é à importância dada ao western: primeira cristalização estético-social do cinema americano. E, embora contrário ao posicionamento político de John Ford, Glauber reconhece nele o responsável pela evolução e amadurecimento do gênero -elucidativo a esse respeito é o registro do “bate papo” que ele teve com John Ford, por ocasião do Festival de Montréal, cuja data, infelizmente, carece de registro. Os escritos de “O século do cinema”, aliás, evidenciam como Glauber foi influenciado pelo western, por filmes como “Rastros de ódio”, de Ford, e “Matar ou morrer”, de Fred Zinnemann. A segunda parte do livro é sobre o que seria o neo-realismo. Mas o título é enganador. Na verdade temos os escritos de Glauber sobre o cinema europeu. Assim, desfilam nas páginas textos que Glauber escreveu em momentos diferentes sobre Eisenstein, Luis Buñuel, Jean Renoir, Roberto Rossellini, Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni, Federico Fellini etc. São todos textos escritos num tom que oscilam entre a crônica e a reminiscência. Não são unicamente textos críticos, mas de aproximação afetiva e de alusões (o estilo segue algo muito próximo do aforismo e do solilóquio). Temos um Glauber terno e reverente diante de nomes como Buñuel, Visconti -o espaço dedicado a Buñuel é generoso; nele Glauber vaticina que o diretor espanhol é o ultimo artista verdadeiramente maldito. Digno de nota, ainda, nessa segunda parte do livro, é a apreciação feita da obra de Visconti, com ênfase na análise de “Rocco e seus irmãos”. As comparações feitas entre Visconti e escritores como Thomas Mann e Marcel Proust evidenciam como Glauber pensava o cinema e fazia uma análise errática de filmes, combinada com numa articulação mais ampla que sempre incluía outras formas de expressão. Interessante ainda nessa segunda parte do livro é ver como, em momentos diferentes, ele torceu o nariz para Federico Fellini e Ingmar Bergman: ambos, por motivos diferentes, viram as costas para o conflito de classes. A terceiro parte de “O século do cinema”, dedicada à nouvelle vague, é curta: dois textos da edição original -“Alphaville” e “Você gosta de Godard? (Se não, está por fora)”- estão incompletos, e a versão definitiva pode ser lida no apêndice. A figura de proa da terceira parte é, justamente, Godard. Interessantes são as observações que Glauber faz à participação que ele teve em “Vento do Leste”, no qual destaca o que o separa do Godard do tempo do grupo Dziga Vertov. Interessantíssima também nessa terceira parte -e não tem a ver com a Nouvelle Vague- é a entrevista que Glauber deu ao jornalista português João Lopes, quando estava em Sintra, a poucos meses de sua morte. Aqueles que encontram dificuldade em entender sua trajetória, nos filmes que vão de “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” até “A idade da Terra”, terão a oportunidade de ver como as respostas dadas são esclarecedoras. Para quem conhece pouco os posicionamentos de Glauber sobre o cinema internacional -em particular o americano-, “O século do cinema” pode revelar gratas surpresas. Antes de “Barravento” (seu primeiro longa-metragem, de 1961), Glauber praticamente não faz referência ao cinema europeu: o crítico do suplemento literário “Sete Dias” tinha os olhos presos ao que vinha de Hollywood. Em contraste, na medida em que desponta o cineasta, o crítico voltado para filmes e temas americanos perde espaço para o que tem em mira as inovações trazidas pelo neo-realismo, pela Nouvelle Vague, pelos debates trazidos pelas revistas francesas: nos anos 60 Glauber praticamente não se ocupa do cinema americano. “O século do cinema” revela também que em sua última década de vida ele praticamente perdeu interesse pela crítica e pela análise de filmes internacionais: os caminhos que o cinema europeu e o americano tomaram nos 70 parecem não interessá-lo. Na pena do crítico voraz e antenado, nomes como os de Werner Herzog, Rainer Fassbinder, Andrei Tarkovski, Theo Angelopoulos e Martin Scorsese, são como se não estivessem existido. Para quem, ainda, entende a obra cinematográfica de Glauber por referência à emergência de temas nacionais, “O século do cinema” mostra como ele pensava os grandes temas internacionais: desde muito jovem, sempre esteve antenado aos debates mais relevantes de sua época e é do contato com esses debates que ele forjou sua própria trajetória.
Do incansável professor Ismail Xavier temos ainda a reedição atualizada de “O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência”. Publicado inicialmente em 1977, o livro chega à terceira edição (a 2ª edição é de 1984), com um acréscimo: o ensaio “As aventuras do Dispositivo”. Como destaca Arlindo Machado no prefácio, trata-se de livro pioneiro no Brasil: colocou estudantes desses últimos 30 anos em contato com os principais debates acerca das diversas teorias de cinema. No primeiro ensaio, “A janela do cinema e a identificação”, Ismail envereda pela importante questão da especificidade do cinema. Para tanto, coloca o leitor em contato com debates que assinalam as posições de teóricos como Maya Deren, André Bazin, Noel Burch, Bela Balazs e Edgar Morin acerca da polêmica entre ilusionismo e identificação. Com respeito a esse debate, o autor defende que cada imagem particular é impressa na película e esse processo é inequivocamente objetivo, mas a justaposição de duas imagens é uma intervenção humana e, por isso, um ato de manipulação. Na estrutura do livro, o primeiro ensaio funciona como uma espécie de introdução ao tema que vem adiante: “A decupagem clássica”. Tema capital para quem se aproxima das questões teóricas de cinema, Ismail procede a uma apresentação em que recorre a procedimentos ao mesmo tempo didáticos e pontuais. Para os não especialistas, ou os que tenham apenas interesse incidental pelo cinema, digno de registro é a apresentação do caminho que vai do “teatro filmado”, nos primórdios do cinema, à montagem -os exemplos exibidos fornecem um panorama que possibilita ao iniciado entender a evolução da linguagem cinematográfica, com destaque para a distinção sutil entre câmara subjetiva e representação direta de processos psicológicos de personagens. E possibilita ao estudante ou mesmo estudioso inferir questões sobre as razões que conduzem os primeiros realizadores à passagem do “teatro filmado” ao domínio da montagem. A apresentação da decupagem clássica serve de mote para o artigo seguinte: “Do naturalismo ao realismo crítico”. Nesse ensaio, Ismail destaca que a representação naturalista de Hollywood está assentada em três elementos básicos, a saber: a decupagem clássica, responsável pela produção do ilusionismo e do mecanismo de identificação; a elaboração de um método de interpretação emoldurado pela filmagem em estúdios; a escolha de histórias que sensibilizassem o público -com isso, o controle da realidade criada pelas imagens. O que se tem então, com a opção pela representação naturalista, é o caminho para a produção industrializada, que se expressa na divisão de gêneros. Inicialmente espontânea (fruto de experimentação -tentativa e erro- e de retorno financeiro), a prática americana influencia o cineasta e teórico russo Lev Kulechov, que nos anos 20 lançou os princípios da montagem. O ensaio seguinte do livro -“O realismo revelatório e a crítica à montagem”- é um dos mais elucidativos, principalmente para quem quiser se antenar no realismo empirista de Kracauer, nos detalhes das novidades introduzidas pela crítica francesa, tributária de André Bazin no início dos 50, na incursão cinematográfica legada por Merleau-Ponty e nas proposições inovadoras para o nexo entre estética e psicologia levantadas por Jean Mitry no inicio dos 60. |