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LITERATURA

Monteiro Lobato on line
Por Thaís Fonseca


Carta de Monteiro Lobato a sua futura mulher, Maria Pureza da Natividade, a Purezinha, de 24 de setembro de 1906
Divulgação/Fundo Monteiro Lobato

Projeto digitaliza documentos do autor de “Urupês” e torna acessíveis suas cartas, desenhos e fotografias

Em setembro de 1906, Monteiro Lobato, então um jovem advogado de 24 anos vivendo em Taubaté, escreve à sua namorada, Purezinha, uma carta, em que capricha na veia lírica: “Que te hei de dizer que cansada não estejas de ouvir? Que te amo? Que vejo em ti os alicerces de minha felicidade? Que me é luz, vida, perfume, aurora, alegria?”. Nas quatro páginas enviadas, o mesmo tom apaixonado se mantém, até a despedida: “Adeus, ama-me como te amo. Aperta-te ao coração enternecidamente o teu de sempre, Juca”.

A carta de Lobato destinada a Maria Pureza da Natividade, com quem ele se casaria dois anos mais tarde, é uma das 216 longas correspondências mantidas por Lobato, e esta agora disponível à leitura, em facsímile, pela internet. As correspondências fazem parte do acervo do escritor que está sendo digitalizado com o nome de Projeto Temático Monteiro Lobato (1882-1948) e Outros Modernismos Brasileiros. Criado por uma equipe de pesquisadores, o trabalho tem apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Universidade de Campinas (Unicamp).

No site www.unicamp.br/iel/monteirolobato é possível encontrar, entre outros itens do Fundo Monteiro Lobato, retratos de família e fotografias, desenhos e aquarelas de autoria do próprio Lobato, além de pesquisas produzidas no âmbito universitário, como teses, monografias e dissertações sobre o escritor. Todos esses documentos estão sob custódia do Centro de Documentação Alexandre Eulálio (Cedae), do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

O Fundo Monteiro Lobato tem hoje cerca de 2.000 documentos. Seu início foi em 1999, quando a jornalista Cilza Carla Bignotto doou o material que adquiriu durante sua pesquisa de mestrado sobre Lobato à Unicamp. Entre esse material estavam recortes de jornais, de revistas e uma coleção com cerca de 500 obras raras. “Eu morava em Santos quando encontrei livros raros, que estavam à venda por um preço baixíssimo. O vendedor os havia comprado da família de um colecionador conhecido na cidade, já falecido”, conta Cilza.

Em 2001, o Fundo se tornaria ainda mais sofisticado, após a visita dos herdeiros de Lobato à Unicamp. Cilza diz que eles ficaram entusiasmados com o grupo de estudos da universidade e doaram, em regime de comodato, o acervo de que dispunham. São cartas, fotografias históricas, livros e objetos pessoais do escritor. Faz parte da doação ao Cedae, por exemplo, um exemplar de “Orlando Furioso”, de Ariosto, com anotações manuscritas de Lobato nas bordas. Para Cilza, divulgar na internet um acervo desse porte significa democratizar a informação. “Digitalizar os documentos torna-os mais acessíveis às pessoas, pois é possível conhecer os arquivos de maneira rápida e clara”, diz.

Muitas das teses e dissertações disponíveis no site, aliás, foram reunidas durante um projeto sobre a história da leitura e do livro no Brasil. Chamado “Memória da Leitura”, ele foi iniciado na Unicamp por uma pesquisa da professora Marisa Lajolo, reconhecida especialista em Lobato e coordenadora do Projeto Temático. “A figura do autor sempre aparecia relacionada à modernização de projetos editoriais de difusão de leitura. Foi essa uma das razões para a criação do site”, afirma Marisa. O exemplo mais evidente da atuação de Lobato foi quando esteve à frente da editora Monteiro Lobato & Cia e, depois, da Companhia Editora Nacional. Nesse período, apresentou vários escritores inéditos ao público e introduziu novos modelos editoriais, inclusive no que diz respeito ao projeto gráfico dos livros.

Outro atrativo do site é a publicação das fotografias, dos desenhos e das aquarelas. “Esses lados de Lobato poderão ser conhecidos e, ainda, pesquisados, na medida em que possibilitam novas perspectivas sobre a sua obra e biografia”, ressalta a pesquisadora.

Existem, por exemplo, fotografias da família, como a de Lobato criança com seus pais. Ou, ainda, as que aludem a momentos históricos do país. “Há dezenas de fotos em que se pode estudar mais detalhadamente a história das campanhas de Lobato para a exploração do petróleo no Brasil. Muitas delas, inclusive, são completamente inéditas”, diz.

Há também links na página do Projeto Temático em que se pode encontrar os nomes e a localização das monografias, dissertações e teses que ainda não foram digitalizadas, bem como artigos, textos publicados em jornais ou revistas, bibliotecas e outras páginas da internet sobre o escritor.

Em relação às cartas, Marisa destaca o grande valor que elas têm para o estudo da história literária do país e do processo criativo do autor. “Há na correspondência de escritores, muitas vezes, alusões a situações que eles mesmos apontam terem inspirado algum texto. Além disso, ler as cartas familiares de um escritor pode torná-lo mais próximo do grande público, o que pode constituir uma caminho sedutor para aproximar os jovens da literatura”.

Na web, as correspondências estão divididas em três categorias: ativas, passivas e de terceiros. Nem todas as cartas já estão digitalizadas. A maior parte das que estão disponíveis são as ativas, como a mensagem apaixonada que Lobato enviou à Purezinha. Das passivas, poucas podem ser lidas por enquanto no site. Entre elas, existem algumas de grande importância histórica, como as escritas por Mário de Andrade e por Lima Barreto. A intenção é de que o maior número possível de documentos esteja na internet até 2007.

Desde abril desse ano, quando o projeto foi lançado, já foram feitos em torno de 2.500 acessos. Marisa diz que o interesse tem se mostrado grande, tanto dentro como fora da universidade. Muitos, até mesmo, procuram o Cedae para doar materiais relacionados ao escritor. Essa atitude, para ela, contradiz a idéia de que o brasileiro não preserva sua memória. “Começo a acreditar que o que falta às pessoas que não freqüentam círculos intelectuais é se sentirem participantes da história do país. Por isso, a democratização de acesso a documentos me parece muito importante.”

Marisa também defende a criação de um maior número de acervos digitais. “Seria ótimo se as universidades brasileiras liderassem um movimento amplo pela disponibilização online de seus acervos”, sugere.

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link-se

Monteiro Lobato e Outros Modernismos Brasileiros - http://www.unicamp.br/iel/monteirolobato/

Publicado em 11/11/2006 .

Thaís Fonseca
É jornalista.

 
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