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EVENTO
Flashes da Mostra de Cinema ![]() Imagem de "Diário", série de filmes realizado pelo diretor israelense-brasileiro David Perlov
Divulgação Um filme belga em português, os diários de David Perlov e uma conversa com o diretor Ricardo Elias EUA em xeque Não é incomum encontrar discursos antiamericanos numa reunião de porte global. Na seleção da 30ª Mostra Internacional em São Paulo, houve dois destaques que miram a administração Bush e revelam fatos notórios. São filmes indispensáveis. “Caminho para Guantánamo”, de Michael Winterbottom, e “Uma Verdade Inconveniente”, de Davis Guggenheim. O primeiro é inglês e narra a epopéia de quatro amigos paquistaneses que moram na Inglaterra. Um deles pretende se casar e todos voltam para o Paquistão. Sem maiores explicações, eles são capturados por soldados americanos e levados como prisioneiros para a baía de Guantánamo, Cuba. Não é documentário, mas parece. O filme é baseado em depoimentos de jovens que viveram na pele o drama. “Uma Verdade Inconveniente”, que já estreou nos cinemas de São Paulo, pode ser tratado como um libelo anti-Bush que tem como protagonista o ex-candidato à presidência Al Gore. O tema é o aquecimento global e suas conseqüências catastróficas para o mundo. O desafio do público é descartar o caráter político da mensagem e se ater às informações alarmantes contidas no documentário.
“A Verdade do Gato” é um documentário de 52 minutos rodado em Carmo de Rio Verde, no estado de Goiás. A câmera acompanha a rotina de cortadores de cana sazonais que são contratados por um “gato” a pedido dos chefões das usinas da região. O filme desperta a atenção por vários motivos. Primeiro, o diretor chama-se Jeremy Hamers e nasceu na Bélgica. Outra peculiaridade: não existem diálogos entre os personagens, apenas cochichos que o diretor não faz a mínima questão que sejam captados pelo público. Servem como efeitos sonoros, ruídos. A impressão é de que não existe ninguém por trás das câmeras, como se elas tivessem sido fixadas em algum ponto e largadas com o botão acionado. A linha narrativa é conduzida apenas pela leitura em off das cartas de um dos trabalhadores rurais, o Tião. Ele revela a Terezinha, sua esposa, sua jornada de trabalho: as dores nas costas e nos braços, as refeições minguadas, a troca do facão. A repetição de imagens mostrando os operários talhando a cana e a plantação sendo consumida por labaredas gigantes tem um efeito atordoante.
No encontro com os realizadores do filme “Hedy Lamarr: Segredos de uma Estrela de Hollywood”, na sala de conferências da Mostra, o diretor Fosco Dubini afirmou: “Eu não gosto de estrelas de cinema. Prefiro os momentos de fragilidade das pessoas”. Pois é o que conferimos na tela: o esforço em desconstruir o glamour da atriz austríaca Hedwig Kiesler, considerada à época a atriz mais bela de Hollywood. Célebre por ter protagonizado a primeira cena de nudez da história do cinema, no filme “Ecstasy” (1933), Hedy Lamarr passou como um “torpedo na consciência americana”, disse Dubini. Foi contratada pelo magnata da MGM, Louis B. Mayer, e teve de se enquadrar diante das imposições contratuais dos estúdios de Hollywood. É uma boa chance para o público entender como os grandes estúdios conduziam de forma rígida a formação de uma estrela de cinema.
“Os 12 Trabalhos” é o segundo longa-metragem do diretor paulistano Ricardo Elias -a sua estréia foi com o filme “De Passagem”. Ele conta a história de um grupo de motoboys que trabalham para uma firma e rodam a cidade para fazer entregas. A primeira exibição em São Paulo teve a presença do elenco e de parte da equipe. Após a projeção, o diretor falou a Trópico. Qual a importância de São Paulo na sua obra e neste filme em particular? Ricardo Elias: Eu acho que o filme é um possível retrato de São Paulo. Existem outras abordagens que poderiam ser exploradas sobre a cidade. A idéia para mim enquanto realizador e espectador foi reconhecer a sujeira ali. E a questão do motoboy é muito representativa do que é a cidade de São Paulo. Uma cidade que acolhe muito as pessoas, mas ao mesmo tempo é muito agressiva. Existem poucos espaços de comunhão, as pessoas ficam isoladas. Não tem praia, e os espaços coletivos são mal aproveitados. Você se sente isolado o tempo inteiro. Existiu algum tipo de pesquisa para você entrar nessa cultura do motoboy? Elias: Eu e o roteirista fizemos várias entrevistas. Algumas histórias que estão no filme resvalam no que nos foi contado. A gente fez uma pesquisa bem grande. Há várias referências a outros filmes em “Os 12 Trabalhos”. A cena em que o protagonista está diante do espelho lembra muito “Taxi Driver”, do Martin Scorsese, e a seqüência final, na praia, parece muito com “Os Incompreendidos”, de François Truffaut. Elias: Sim, você tem razão. Tem também um pouco de “Couro de Gato”, do Joaquim Pedro de Andrade. Uma cena da moto é do Roberto Santos, de “O Grande Momento”. São várias referências. É quase como um “sampler”, o filme funciona um pouco como isso, a gente tem uma base e em certos momentos a gente insere outros elementos.
A missão obstinada de David Perlov em filmar as pessoas nas ruas e examinar a vida em suas passagens mais ordinárias faz de seu documentário “Diário” um registro de caráter quase sagrado. Apesar da dureza de certas imagens, os comentários em off do diretor são banhados por sensibilidade poética. Seu esforço é captar a realidade da forma mais aleatória possível. Durante os seis episódios, Perlov usa duas metáforas para tentar explicar seu cinema. Diz que aponta sua câmera assim como se estivesse dentro de um tanque de guerra ajustando a mira. E afirma também que gostaria de entrar em um táxi e colocar a câmera ligada na janela, deixando que as paradas nos semáforos definissem o enquadramento. A produtora e companheira Mira Perlov acredita que David sempre viveu em Israel a solidão de um imigrante. “Ele nunca se integrou à sociedade israelense. Tudo o que era muito público, ele deixava um pouco de lado”. Sobre suas discretas aparições em “Diário”, Mira diz que “era muito difícil ter uma câmera dentro de casa o tempo todo, ser o objeto filmado”. As duas heroínas do filme são as filhas Yael e Naomi”.
O novo filme do italiano Nanni Moretti, “O Crocodilo”, opta por retratar de forma burlesca o circo armado por Berlusconi nos últimos anos no país. O tom é de comédia, mas deixa um gosto amargo na boca. As situações oscilam entre a fantasia criada pelo imaginário fértil do produtor de filmes B, Bruno Bonomo, e a desilusão ao ter de enfrentar a realidade. Duas seqüências são sintomáticas. Bruno tenta descansar numa cama que faz parte do set de filmagem quando uma escavadeira destrói o muro à sua frente e o expõe à realidade das ruas. Em outro momento de decepção, Bruno entra com os filhos dentro de uma cabana de lona e fecha o zíper, numa tentativa ingênua de resguardar-se das intempéries do cotidiano.
A atriz Hermila Guedes nasceu em Cobrobó, interior de Pernambuco. Começou a carreira no teatro, em Recife, e atuou no filme “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes. No próximo mês, completa 26 anos. Graças a seu papel como Hermila em “O Céu de Suely”, levou o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio deste ano. Ela interpreta uma garota que retorna ao Ceará para reencontrar a família. Acaba sendo abandonada pelo marido e rejeitada pela avó. “Às vezes eu me sinto muito como ela. Quando volto para o interior me sinto um pouco deslocada. É um sentimento natural querer almejar outras coisas, viajar e conhecer outros lugares”, diz Hermila. Ela conta que sofreu para rodar a cena em que é expulsa de casa pela avó. “Lembro que saí da cena e continuei chorando lá fora. A gente acaba se identificando muito com a personagem.” Na última seqüência do filme, Hermila deixa Iguatu de ônibus e encosta a cabeça na janela. Vê João passando de moto. Ela olha resignada, não manifesta nenhuma reação decifrável. Quando perguntei sobre esse semblante-enigma, ela disse que “ao mesmo tempo em que fica indiferente quando o João passa de moto, ela tem um sorriso escondido no rosto. O final do filme fica aberto. O público fica esperando se ela vai voltar com ele. Pode ser que um dia ela volte”.
A vida de imigrantes é amplamente discutida em dois filmes de peso: o italiano “Cartas do Saara”, de Vittorio de Seta, e o indiano “Arame Farpado”, do diretor Bappaditya Bandopadhyay. Ambos mostram a peregrinação de personagens fora de órbita, em busca de suas identidades e amargando episódios de discriminação e ódio racial. “Cartas do Saara” usa uma base quase documental para contar a história de Assani, um jovem senegalês que peleja para sobreviver na Itália. Passa por um abrigo de imigrantes africanos perto de Nápoles, hospeda-se na casa de uma prima em Firenze e viaja, por fim, a Turim, onde uma professora de italiano o acolhe. Após uma briga com moradores locais, Assani decide voltar para sua casa, no Senegal. É ali onde ele extravasa seus rancores e busca reencontrar suas raízes perdidas. O segundo filme, “Arame Farpado”, mantém tom mais brando e usa sátiras para compor um cenário de guerra imaginária na fronteira entre Índia e Bangladesh. A protagonista é Sudha, uma imigrante ilegal que vive mudando de religião e personalidade para escapar de situações adversas. Busca abrigo num campo meteorológico, onde se envolve com Binod, o técnico que mede a temperatura lançando balões no céu.
“Acidente”, projeto experimental co-dirigido pelos mineiros Cao Guimarães e Pablo Lobato, é um estudo acurado e idílico das imagens. A idéia da dupla foi compor um poema usando apenas nomes de cidades de Minas Gerais, para depois percorrer cada município e registrar imagens casuais. “A gente tem um link com o interior de Minas. Eu nasci numa cidade chamada Bom Despacho, onde o avô do Cao Guimarães era um médico meio excêntrico que filmava as suas cirurgias. Daí, quando eu conheci o Cao, rolou essa ressonância e a gente começou a vislumbrar a possibilidade de fazer um trabalho em parceria”, disse Pablo Lobato na saída da primeira exibição do filme em São Paulo, no Cinesesc. O primeiro passo foi descartar as cidades que terminavam em “polis”, que tinham origem indígena ou que carregava nomes de santos. Chegaram a 200 municípios e imprimiram pequenas fichas de papel para trabalhar na criação de poemas. “No fim, das 20 cidades escolhidas a gente não conhecia nenhuma”, afirmou Pablo. Por falta de boas histórias nas primeiras cidades visitadas, eles decidiram fazer um filme sobre “assunto nenhum”, em que o “acaso e os incidentes fossem o norte”. É recorrente vermos na tela imagens estáticas que sofrem alguma interferência apenas quando algo de fora entra no enquadramento. Uma vidraça que se fecha de repente ou uma enxurrada que escorre pelo piso filmado. “É um filme feito com muita liberdade. O foco é acreditar na potência que a realidade tem a cada instante a te oferecer”, disse Pablo.
Tanto em “Flandres”, como em “Candy”, a relação amorosa de casais adolescentes é esfacelada e atropelada pela realidade que os cerca. Resta apenas a resignação dos personagens diante do meio hostil. O destino é aceito de maneira conformada, como se fosse impossível resgatar forças do vazio imperante. Na maioria das situações, a luta parece ser em vão. Os dois filmes optam por revelar esse mal-estar de forma dura, sem concessões ou ilusões. O primeiro é dirigido pelo francês Bruno Dumont e ganhou o grande prêmio do júri no Festival de Cannes deste ano. Demester é dono de uma fazenda na região de Flandres e mantém uma relação sem compromisso com a amiga de infância, Barbe, filha de um proprietário de terras local. Ele é convocado para uma guerra, e viaja com outros três amigos para o campo de batalha. Barbe sofre com a solidão e começa a ter espasmos, até que é internada em uma clínica psiquiátrica. “Candy” é uma produção australiana, dirigida por Neil Armfield, que tem o ator Heath Ledger, de “Brokeback Mountain”, no papel principal. Ele interpreta um jovem poeta que se casa com a pintora Candy. Os dois são viciados em drogas e fazem serviços esporádicos para sobreviver. Quando resolvem tentar a reabilitação, percebem como suas vidas foram devoradas e ambos estão condenados. O amor mostra-se débil como forma de redenção.
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