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Rivane: Tem uma frase que li um dia e que nunca mais encontrei e então acho que é de Camus, que diz: “O acaso é a única divindade da razão”. Acho que foi por acaso que encontrei esta frase… E desde então ela vem martelando na minha cabeça. Já matei o tempo matando formiga como o nosso “herói” (a artista se refere claramente à Macunaíma) para refletir sobre a morte e de como nós a experimentamos como tal. Então eu falo: “Você, formiga, chegou a sua hora”. E pimba! Isto para tentar entender o momento em que subitamente o fluxo de vida é interrompido, numa espécie de chance arbitrária. Isto para tentar entender o que seria a noção de morte para a formiga e o distúrbio causado pelo seu desaparecimento. Isto para me lembrar do curso, justamente, natural da vida. Nestes dois filmes que você menciona, as palavras carregadas pelos animais parecem evidenciar uma contraposição entre homem e natureza, mas não vejo as coisas assim. A estranheza e a absurdidade de uma palavra no coditiano dos animais talvez nos deixe apenas atentos para as diferentes estruturas de organização de tudo que é vivo. Voltando à frase citada acima, o que me fascina em fazer trabalhos com formigas, peixes ou lesmas é o mesmo que procuro em todos os outros trabalhos, que é um certo embate ou colaboração entre acaso e controle. Afinal, são os peixes que acabam por “escrever” uma carta de amor, com o movimento de seus corpos, a expressividade do olhar e a indiferença em relação à nossa linguagem, para além do cruzamento das palavras que carregam no rabo. Recentemente voltamos, eu e Cao Guimarães, a filmar formigas. Desta vez as formigas levam para a casa confetes coloridos, muitos deles. Uma abstração do ponto final, por assim dizer. O filme chama-se “Quarta-Feira de Cinzas/Epilogue” e é isto, como se ao final do Carnaval, a formiga, alheia, atenta, sobrevivente ou faminta, recolhesse os restos da folia, na metáfora do confete. Mas quem sabe sobre a matinê dentro do formigueiro, do delírio da rainha-mãe ou da evolução das saúvas-foliãs?
Rivane: Fui convidada para fazer um projeto especial para o catálogo da Bienal. Fiz então uma série fotográfica entitulada “Canteiros/Conversations and Constructions”, assim mesmo, bilíngüe. São construções feitas com comida e que remetem à arquitetura e canteiros de obra. Assim temos por exemplo um ovo em um prato, que faz alusão direta à Brasília, ou um muro feito de pão-de-forma picadinho com mostarda dentro. Normalmente são ingredientes ou objetos de mesa que tem relação entre si, tipo palito-salaminho, para “ilustrar” questões arquitetônicas e urbanísticas que nos são caras nos dias de hoje, seja o modernismo, a favela ou a calçada de pedra-portuguesa. A comida funciona de maneira direta e evidentemente também metafórica. A mesa de comida é lugar de convívio por excelência. Talvez não tenha mais a mesa. Nem a comida. Os muros estão por aí. E quisera fossem de pão-de-forma ou marmelada, como nos contos-de-fada. . Fernando Oliva |