CIÊNCIA
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TRÓPICOS

Um thriller etnológico na alta Amazônia
Por Renato Sztutman

Romance-ensaio do antropólogo Philippe Descola aborda a cultura dos temidos índios Achuar

Muitos antropólogos experimentaram um devir escritor. Depois de defender como tese de doutorado “As Estruturas Elementares do Parentesco”, em 1949, Claude Lévi-Strauss voltava à sua expedição ao Brasil central e oriental nos anos 1930 para escrever aquele que seria o seu livro mais lido, “Tristes Trópicos”, de 1955. Escrito sob a forma de um diário, “Tristes Trópicos” aliava a observação do universo brasileiro -sobretudo indígena- a uma enxurrada de digressões filosóficas e antropológicas bem como a impressões subjetivas sobre aquele outro mundo, tão distante do Quartier Latin.

Pierre Clastres, ensaísta de mãos cheias, também experimentaria o mesmo devir ao escrever “Crônica dos Índios Guayaki”, de 1972, desta vez uma espécie de romance etnológico que buscava reconstituir as sutilezas da vida de um povo indígena nômade, fortemente ameaçado pela expansão da sociedade industrial.

Seguindo a tradição da casa, Philippe Descola, que havia sido orientado por Lévi-Strauss em sua densa pesquisa sobre os Achuar (subgrupo Jivaro) durante os anos 1970, resolveu também transformar sua experiência de dois anos entre esse povo da Amazônia equatoriana em uma peça literária.

Oscilando entre o tom epopéico presente em “Tristes Trópicos” e a linguagem da crônica privilegiada por Clastres, Descola deu à luz, depois de dez anos de escritura, a “As Lanças do Crepúsculo”. Livro que foi, aliás, publicado em 1993 na mesma coleção de seus mestres, a coleção Terre Humaine, da editora Plon (Paris), e que ganha agora tradução para o português pela Cosac Naify.

Se em “La Nature Domestique” (A natureza doméstica), seu primeiro livro, de 1986 (inédito no Brasil), temos um trabalho acadêmico (científico) de fôlego, que avança num debate teórico particular sobre a relação entre natureza e sociedade -centrado, no caso, na etnografia dos Achuar-, em “As Lanças do Crepúsculo”, passamos a um relato que põe em primeiro plano tanto a subjetividade do autor como a das pessoas com quem ele conviveu. Nesse sentido, misturam-se na mesma narrativa a história do antropólogo francês que se embrenha na mata à procura de um povo guerreiro e as histórias dessas gentes guerreiras, imersas em tramas sentimentais e políticas.


Imersão guerreira

Os Jivaro, que se espalham num largo território entre o Peru e o Equador, tornaram-se conhecidos pelo Ocidente pela sua forte inclinação guerreira e, mais especificamente, pela prática da caça às cabeças, hoje não mais cometida devido à intervenção pacificadora do Estado e das missões religiosas. De todo modo, ainda no início do século XX ouvia-se falar de um complexo guerreiro jivaro -baseado não apenas nas investidas bélicas, mas também num rico sistema cerimonial e nas atividades de redução das cabeças dos inimigos- que nada ficava a dever aos antigos Tupi da costa dos séculos XVI e XVII, os famosos canibais que figuravam nas crônicas de Jean de Léry e Hans Staden.

Embora seduzido por essa atmosfera exótica e aterrorizante, Descola anuncia, no início do livro, que seu objetivo, quando da partida ao campo, era desconfiar do estereótipo de “cruéis guerreiros” para prestar atenção aos modos de vida dos Achuar e ao que eles tinham a dizer sobre a natureza, a vida em sociedade, o cosmos e o contato com o mundo dos brancos.

Diferentemente dos Shuar, subgrupo jivaro que habita a Amazônia peruana e sobre os quais abundam relatos sobre a caça às cabeças, os Achuar mantêm-se reticentes quanto a essa prática, atribuindo-a aos seus vizinhos, também seus antigos inimigos. Imerso no cotidiano dos Achuar, Descola pôde descortinar, por sua vez, um forte sistema de vendetas, disparado por disputas de diversas naturezas -por exemplo, a disputa por mulheres. Essas disputas que produzem mortes -no mais das vezes violentas- constituem o pano de fundo da narrativa de “As Lanças do Crepúsculo” e permitem ao autor compreender um pouco mais a belicosidade achuar, que se estabelece não entre pessoas absolutamente distantes, mas entre pessoas ligadas, de uma maneira ou de outra, por laços de afinidade.

Na segunda parte do livro -intitulada justamente “Histórias de Afinidade”-, Descola conclui que a diferença entre as guerras que tinham por objetivo a caça e a redução de cabeças -estabelecidas entre pessoas de tribos diferentes, Achuar e Shuar, por exemplo- e as guerras mais correntes nos dias de hoje -estabelecidas entre afins reais ou potenciais- não seria de natureza, mas sim de grau. De modo inesperado, nas últimas páginas do livro, o autor reconhece num canto entoado durante um ritual guerreiro feminino imagens semelhantes àquelas evocadas no grande ritual das cabeças reduzidas, o tsantsa, realizado outrora pelos Shuar e vastamente descrito nos relatos dos missionários do século XIX.

É desses cantos entoados pelas mulheres achuar, que vêem partir seus maridos para a guerra, que Descola extrai o título de seu livro. A imagem das “lanças do crepúsculo”, armas invisíveis enviadas pelos xamãs inimigos para conter e aniquilar os guerreiros que se entregam às investidas, incessantemente evocada nesses cantos, remete ao fulcro da experiência achuar da guerra, pois esta não se resume aos enfrentamentos visíveis e físicos -o campo de batalha-, mas diz respeito também a elementos invisíveis e metafísicos.

Os Achuar atuais, como os antigos Jivaro, são decerto uma civilização de guerreiros. No entanto, a tarefa de Descola, em seu esforço de apresentar essa civilização e essa guerra para um público mais amplo que o da academia, é o de afastar julgamentos baseados em valores ocidentais, julgamentos seduzidos pela imagem da barbárie, e assim propor uma nova compreensão desses fenômenos nos termos dos próprios indígenas. A guerra jivaro não está livre do horror da violência; no entanto, ela está longe de ser um jogo sem regras, onde seria possível matar impunemente. Os Achuar bem sabem quão ásperas são as conseqüências de uma morte. Talvez seja por isso que eles defendem tão assertivamente a necessidade de manter uma boa distância entre as famílias. Segundo a glosa de Descola, “para viver felizes, vivamos escondidos” (p. 251).


Thriller indígena

A narrativa de “As Lanças do Crepúsculo” desenrola-se de modo cronológico. Começa com a chegada de Descola e sua esposa, Anne-Christine, em Puyo, cidade equatoriana mais próxima do território achuar, e culmina nos últimos momentos da estada do antropólogo entre os indígenas. A narrativa acompanha, assim, os movimentos de Philippe e Anne-Christine por boa parte do território achuar, não se prendendo a um único local.

Partindo da região do alto Capauari, onde está a aldeia de Wajari, este que se torna amigo “cerimonial” ou “codificado” (amik, corruptela achuar do termo espanhol) do autor, Descola transitou por entre diferentes aldeias, que mantinham entre si relações tanto de aliança (matrimonial e política) como de hostilidade. Esse deslocamento contínuo revela a intenção do autor de oferecer um retrato mais amplo –multilocalizado- da vida social achuar, ela também caracterizada por um intenso trânsito por entre as aldeias (geralmente afastadas umas das outras), que inclui festas intercomunitárias (bebedeiras), comércio, investidas guerreiras e acusações de feitiçaria.

O que alinhava a narrativa dos deslocamentos do antropólogo e sua esposa, ambos interessados na dinâmica da sociabilidade e da belicosidade achuar, é o encadeamento de certas histórias pessoais, em sua maioria ligadas a rumores, boatos e disputas que conduzem às vendetas e à guerra. Isso confere ao livro de Descola a tônica de um romance policial.

No terceiro capítulo -“Rumores de Aldeia”-, ficamos a par do desaparecimento, em um lugar um tanto distante, de um certo Ikiam. Segundo o diz-que-diz dos habitantes do alto Capauari, este teria sido assassinado no momento em que tramava a vingança contra sua esposa e o amante dela. Descontente com o marido, a adúltera teria ido viver em uma aldeia distante com um tal Sumpaish. Os companheiros de Descola apontam dois suspeitos: o próprio Sumpaish, por tentar defender-se, e o cunhado do morto, Kawarunch, sujeito reconhecido como perigoso, sedento por homicídios e, sobretudo, objeto de muitos ódios. Esse incidente singular, que levaria a muitos outros, pois tudo está interligado e as causas são sempre semelhantes, entremeia as 518 páginas de “As Lanças do Crepúsculo”.

Dentre os desdobramentos do episódio narrado, Descola narra, mais adiante, o acordo estabelecido entre Yaur, o irmão do desaparecido, e Sampaish, que consiste numa compensação material pelo homicídio, no caso, a troca de um objeto de certo valor -uma espingarda- pela morte do parente. Os Achuar sabem, no entanto, que conceder uma arma ao inimigo é apenas manter a guerra entre parênteses; é portanto anunciar a possibilidade de ele se vingar, de ele então recobrar aquela vida poupada.

Além disso, Descola deixa claro que uma espingarda não é, entre aqueles indígenas, uma simples arma de fogo. Ela tanto pode prestar-se como objeto de troca cerimonial, como pode tornar-se, depois de usada, impregnada pela “alma” do sujeito por ela executado, devendo, assim, ser cercada de tabus e ritos de purificação.

Voltando sempre ao affair Ikiam, Descola narra um outro episódio decisivo, um novo assassinato, desta vez do segundo suspeito do crime, Kawarunch, mais uma vez sob o pretexto da disputa por uma mulher. Esse incidente faz explodir uma tensão latente, acirrando a oposição entre facções. Os parentes do morto prometem vingança, não aceitando qualquer forma de compensação.

O autor, em seu afã de seguir as pistas oferecidas pelos rumores e de se lançar pelo território achuar, obtém algum trânsito entre as facções inimigas, mas não sem o risco de ser identificado a uma delas e, assim, acabar sendo ele também objeto de vingança. Esse perigo ganha expressão especialmente nas páginas finais do livro, quando o antropólogo vê-se diante de uma forte ebulição guerreira por parte da parentela de Tiripiur, poderoso chefe de guerra e xamã, um anfitrião com os qual ele não parecia nutrir uma grande intimidade, visto que já fora hóspede de um de seus mais severos inimigos.


Lição de etnologia

Descola faz convergir a escrita de um romance policial -no caso possibilitada pelo encadeamento de histórias particulares de vingança- com a de uma monografia antropológica em seus moldes mais clássicos. O livro é dividido em três partes e de certo modo pretende dar conta da “totalidade” da vida social de um povo indígena: começa pelos aspectos econômicos e ecológicos, passando pelo tema do parentesco e da organização social para culminar numa apresentação da vida religiosa.

Na primeira parte -“Domesticando a Floresta”-, o autor descreve elementos do cotidiano achuar que envolvem os modos de subsistência e a relação com o ambiente. Um grupo de irmãos se solidariza na construção da casa de um deles, as mulheres ocupam-se das roças e revelam seus saberes em relação às mais diferentes espécies que ali habitam, um homem que vai à floresta para caçar leva consigo um pouco do curare (veneno de caça), homens e mulheres mobilizam-se juntos numa pescaria com timbó (veneno de pesca). Descola reencontra, nessas cenas descritas com minúcia, o argumento de “La Nature Domestique”: as relações com os domínios da natureza são pensadas pelos Achuar como relações plenamente sociais, ou seja, seres não-humanos -animais e plantas, por exemplo- são pensados ali como sujeitos, pois partilham uma mesma “alma” com os humanos.

Nesse regime “animista”, as mulheres tomam os cultivares de suas roças como seus consangüíneos, que, como tais, devem ser cuidados; ao passo que os homens visualizam os animais de caça como afins que devem ser seduzidos. Haveria, portanto, comunicação entre humanos e não-humanos, e esta se tornaria possível seja por meio de um vasto conjunto de encantações (anents), muitas delas transcritas pelo autor ao longo do livro, seja por meio de sonhos, que podem ser o resultado de uma “viagem da alma” para outros patamares do cosmos.

A segunda parte -“Historias de Afinidade”- debruça-se sobre as tramas de aliança (matrimonial e política) e inimizade que se desdobram das relações de afinidade. Descola discorre sobre os laços de “amizade cerimonial”, que conectam por obrigações de generosidade e solidariedade pessoas que não necessariamente aparentadas.

Em seguida, transfere sua atenção para as ocasiões em que ocorrem enfrentamentos pacíficos -por meio de diálogos cerimoniais- entre homens, membros de diferentes aldeias. Nesse ponto, o autor adentra a problemática da organização política achuar, que não conhece a figura de chefes e instituições centralizadoras, mas apenas a lógica de alianças ocasionais e o reconhecimento de certos “grandes homens”, guerreiros de renome que consolidam facções.

 
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