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ensaio
HISTÓRIA
O lugar onde tudo é possível Visões fantasiosas e invencionices dos viajantes dos séculos 16 e 17 construíram mitos resistentes a respeito da América do Sul Cristóvão Colombo conta que viu, por acaso, em uma das quatro viagens empreendidas à terra que ele acreditava ser a Índia, umas sereias mergulhando nas proximidades da sua embarcação. O tom em que conta isso ao leitor é corriqueiro, tem a naturalidade de quem havia lido e incorporado as descrições do Oriente de Marco Polo e Pierre D’Ailly, corriqueiro ao ponto de o descobridor acrescentar que, da distância em que as tinha vislumbrado, as míticas criaturas não pareciam ser tão bonitas como diziam na Europa. Um século e pouco mais tarde, em 1608, um aventureiro inglês de nome William Davies, depois de retornar de uma viagem ao rio Amazonas, relatou aos seus leitores que vira na região, como era de se esperar, as renomadas guerreiras amazonas, e que tudo o que delas contavam no Velho Mundo era verdade, salvo que decepavam um dos seios, o do lado direito, para se tornarem melhores arqueiras. Davies, neste ponto, era categórico: tratava-se de uma invencionice, pois as amazonas não somente tinham ambos os seios, como os tinham muito belos. Antes dele, um outro seu conterrâneo bem mais célebre e culto, Walter Raleigh, havia despendido uma parte razoável da sua agitada existência atrás de Manoa, a cidade de ouro situada no reino da Guiana, e o espanhol Juan Ponce de León consumira anos da sua vida em busca da fonte da juventude, localizada provavelmente lá pelos lados da Flórida. Até mesmo o circunspecto Pêro Magalhães Gândavo, cria indiscutível daquilo que Sérgio Buarque de Holanda denominou o “realismo pedestre” lusitano, não deixou de assinalar, na sua pioneira “História da Província de Santa Cruz”, a existência de um tal “monstro de São Vicente”, criatura de “horrendo aspecto” e, como tantas outras coisas, totalmente desconhecida no Velho Mundo. De sereias a monstros, de riquezas infinitas a bizarrices em geral, a América, desde muito cedo, talvez desde os tempos em que o próprio nome América, cunhado em 1507, se colou à terra, tornou-se, aos olhos do europeu, o abrigo de todos os possíveis -dos positivos e dos negativos. Foi, por certo, essa América das infinitas possibilidades que impulsionou o sonho jesuíta de encontrar no Novo Mundo um enorme e manso rebanho de almas a converter, um rebanho que somente aguardava o ímpeto missionário dos discípulos de Loyola para criar o reino de Deus na terra. É verdade que os jesuítas, para além dos tradicionais milagres enquadráveis na tradição católica, não viram muitas maravilhas nas terras americanas, não viram, excetuando um ou outro caso, montanhas de ouro, guerreiras amazonas ou fontes da juventude. Os abnegados padres, no entanto, não foram impassíveis ao caráter inusitado do continente americano, não foram impassíveis às suas singularidades. Lembremos, a título de ilustração, que muitos dos seguidores do pioneiro Manuel da Nóbrega detectaram indícios claros de que o apóstolo São Tomé, logo ele, teria andado pelas praias baianas ou, talvez, como enfaticamente defendeu o jesuíta João Daniel em pleno século das luzes, pelo coração da região amazônica. A mesma América das muitas possibilidades alimentou, também, o sonho laico de encontrar na nova terra gente satisfeita com a própria existência, mas guiada por leis, morais e religiões diferentes das conhecidas, de encontrar sociedades mais livres e mais justas do que aquelas da Europa, já tão gastas pelo tempo e carcomidas pelas injustiças. É o que pensa um homem culto como Montaigne, leitor de Léry, Thevet, Barré, Benzoni, Las Casas e uma meia dezena de outros divulgadores de notícias sobre a América, é o que pensam igualmente inúmeros aventureiros que se meteram no interior do novo continente em busca de uma “vida de liberdade”, diversos escritores de romances utópicos que ambientaram as suas histórias no mundo novo que nascia, dezenas de livres pensadores a cata de exemplos de além-mar que lhes permitissem formular discretas críticas às sociedades que tinham diante de si, em suma, é o que pensam um número enorme de indivíduos ansiosos por encontrar um lugar onde seus desejos se concretizassem e as suas frustrações se resolvessem. Mas não foram somente os insatisfeitos, os críticos da civilização européia que partilharam desta visão da América. A Europa contente consigo mesma também é, a seu modo, devedora de tão impactante perspectiva, que o digam Hegel, Buffon, De Pauw e uma multidão de viajantes que deixaram registradas suas impressões -impressões de europeus orgulhosamente civilizados- dos estranhos hábitos e da confusa moral da gente americana. Para tais indivíduos, aqui no Novo Mundo, ou ao menos em grande parte dele, naquela parte mais distante da civilização européia, onde o sangue se misturou em demasia e onde a corrupção moral atingiu níveis alarmantes, a barbárie manifestava-se de maneira extrema e inusitada: a religião católica era praticada de um modo quase irreconhecível, a luxúria e a perversão tinham colorações inimagináveis, a escravidão (negra ou índia) e as mazelas dela decorrentes assumiam proporções e contornos nunca antes vistos, enfim, aqui, acreditavam estes europeus descrentes das virtudes americanas, também o mal explorava o “tudo é possível” e, do mesmo modo que as plantas, as árvores, as frutas, os animais e até mesmo o céu, assumia formas “totalmente desconhecidas na Europa”. Há quem pense que tudo isso são águas passadas, que o mundo sofreu enormes transformações políticas, econômicas e culturais e que, ao longo dos últimos dois séculos, o “ser da América” foi totalmente reconstruído no pensamento europeu, um pensamento que deixou para trás, ainda que com pesar e a contragosto, a idéia de uma América berço esplêndido de todas as bizarrices. É provável. Todavia, é provável também que tamanha mudança seja mais perceptível em relação ao norte do continente, àquela parte mais exitosa da invenção européia e, em alguma medida -não muita, como costuma crer a gente do Sul- mais próxima do Velho Mundo, mais próxima do que este entende por “sociedade civilizada”. Em relação àquela parcela do continente de colonização espanhola e portuguesa, parcela nada desprezível, mas menos exitosa e, sobretudo, menos próxima dos padrões da civilidade ocidental, o europeu médio -bem o demonstra a mídia internacional- não se distanciou muito dos seus antepassados. Nessa porção ainda “rústica” do Novo Mundo o habitante do Velho Mundo ainda espera encontrar de tudo: de criaturas “sexualmente encantadas” a bárbaros praticantes de uma violência quase antropofágica, passando pelos tradicionais seres “moralmente monstruosos” e, é claro, pelos simpáticos “bons selvagens”. Publicado em 14/10/2006 . Jean Marcel Carvalho França
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