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FENÔMENO

Companheironomias
Por Giselle Beiguelman

Web 2.0, a bola da vez na internet, indica os paradoxos da autogestão do conhecimento na rede mundial de computadores

A internet é um campo fértil de neologismos e a bola da vez é o termo Web 2.0. Esse “2.0” não remete à emergência de um novo protocolo de internet, mas a novos padrões de organização dos dados que nos permitem utilizar a web de forma mais personalizada, ágil e coletiva.

Bons exemplos desse fenômeno são os sites de socialização de favoritos (bookmarks), como del.icio.us e All Consuming, de compartilhamento de informações sobre livros, discos, restaurantes e gostos em geral.

O termo anunciaria uma nova direção da cibercultura, que seria, desse 2.0 em diante, marcada pela ruptura com a dinâmica dos conteúdo empacotado pelos portais, rumo à democracia de uma rede em que os usuários têm voz.

A origem da nomenclatura tão hypada é bem conhecida. Foi cunhado por Dale Dougherty, em 2004, para intitular uma série de conferências organizadas pela O'Reilly and Associates (editora de livros de informática) e MediaLive International (produtora de eventos).

Paradoxal e intrigante é saber que esse nome -Web 2.0, que tem gerado controvérsias sobre se é ou não marco de uma nova onda de democratização da Web e do conhecimento- já virou também batalha judicial anunciada, pois a MediaLive alega possuir direitos e patentes exclusivas sobre o termo e quer proibir sua utilização em eventos e conferências.

A discussão, entretanto, tem se concentrado, em listas de discussão, blogs e revistas especializadas, sobre o caráter de marco divisor de águas da cibercultura que as funcionalidades da Web 2.0 conteriam ou não.

Tecnicamente, a Web 2.0 significa uma nova arquitetura de linkagem que transforma a internet por viabilizar outro uso. Ao invés de ser apenas um gigantesco arquivo de páginas, ou seja de conteúdo disponível para consumo, ela passa a funcionar como plataforma para desenvolvimento de aplicativos e conteúdos.

Nesse sentido, sites como Google e Flickr, que disponibilizam seus códigos para que se desenvolvam aplicações externas baseadas em suas tecnologias, são sinônimos de Web 2.0. Um dos mais importantes analistas da internet, o jornalista da ZDNet Russell Shaw, não aceita essa idéia e recusa qualquer fundamento conceitual que alguém queira agregar ao nome Web 2.0. Trata-se, diz Swan, de um slogan e, como qualquer outro slogan, serve a propósitos de marketing.

Nesse caso específico, o propósito seria indicar uma idéia de transição, pois é padrão já do mercado de produtos digitais pontuar o início de um processo pela versão 1.0, acrescentar algum decimal depois, para assinalar modificações, e consagrar as mudanças com o mítico 2.0, criando expectativas para um suposto 3.0.

O professor Trebor Scholz, da Universidade de Nova York em Buffalo, um dos mais celebrados críticos de mídia do momento, ironiza o assunto. Diz que a Web 2.0 é tão real quanto o “American dream”. Segundo Scholz, quem se fia nisso, na revolução do 2.0, deve acreditar também que, cada vez que o McDonald’s troca a ordem dos ingredientes de seus sanduíches está realmente lançando um novo produto. Mas Scholz admite que não dá para ser “contra” a Web 2.0 ou negar que um fenômeno de mídia e cultura está acontecendo, atrelado a essa emergente tecnologia.


De páginas a dados

A Web 2.0 despeja uma série de novos acrônimos, que supostamente estariam demarcando a emergência de novos padrões de conhecimentos, como a era do DIY (“Do It Yourself”, faça você mesmo) e a época do CGC (“Consumer Generated Content”, conteúdo gerado pelo consumidor). É só lembrar da Wikipedia que esse termos se auto-esclarecem.

Há muito marketing nisso tudo, mas é inegável que a arquitetura de linkagem da Web 2.0 pode indicar que a internet, enfim, sofrerá a passagem da cultura da página à cultura dos dados, ou de um ambiente baseado na taxonomia para um baseado em “companheironomias”.

Dois buscadores de música Pandora e Last.fm evidenciam essas diferenças. Pandora, que pende para o sistema taxonômico, apresenta-se como o “projeto genoma da música”, e Last.fm, baseado em tags e na “companheironomia”, como uma rede social.

O Pandora classifica os arquivos musicais por sua estrutura “bioquímica” (melodia, instrumentos utilizados, matrizes culturais etc.). A busca por uma determinada música ou autor gera uma playlist e constrói uma estação musical. Basta clicar sobre a capa do disco que está tocando para obter informações sobre o porquê da inserção de uma faixa, criar uma nova estação, remover a faixa da lista e/ou comprá-la.

Organizado por uma equipe que analisa os arquivos e os classifica, opera um exercício de inteligência coletiva em que assinantes, editores e bancos de dados apontam relações que cada um desses ingredientes sozinho jamais conseguiria alcançar.

O Last.fm aposta na capacidade de autogestão das comunidades virtuais. A classificação é baseada no sistema de tags e é feita pelos assinantes do serviço (que é grátis). Para escutar música não é preciso estar cadastrado, mas para etiquetar as faixas, sim. O índice de músicas apresenta as tags mais consultadas em ordem alfabética, porém hierárquica. Palavras escritas com letras menores indicam pouco acesso, as maiores são as mais populares. São as “nuvens de informação” (“clouds”), outro termo que é uma das marcas registradas da Web 2.0.

A lista de músicas de cada assinante e suas tags compõem a base de seu perfil e indicam as afinidades que ele tem com outros clientes do sistema. Prevalece aqui o conceito de inteligência distribuída que revigora o poder das “nanoaudiências”.

Se a descentralização da organização do conhecimento parece ser irreversível nesse processo, não deixa de chamar atenção o quanto esse modelo atomiza a informação, redundando não só em impossibilidade de visão do contexto, mas também em buscas menos arriscadas, haja vista que a tendência é operar a partir dos filtros de uma rede pessoal previamente conhecida.

Fica a dúvida também se indica a consolidação uma espécie de “darwinismo digital” em que vence sempre o mais forte (o mais acessado), ou a possibilidade uma gestão do conhecimento regulada por formas inéditas de agenciamentos temporários.

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link-se

del.icio.us - http://del.icio.us/

All Consuming - http://allconsuming.net/

O'Reilly - What Is Web 2.0 - http://www.oreillynet.com/pub/a/oreilly/tim/news/2005/09/30/what-is-web-20.html

Russell Shaw - "Web 2.0? It does not exist" - http://blogs.zdnet.com/ip-telephony/?p=805

Trebor Scholz - “Against Web 2.0” - http://mailman.thing.net/pipermail/idc/2006-May/000399.html

Google SOAP Search API - http://www.google.com/apis/

Flickr Services - http://www.flickr.com/services/api/

Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1gina_principal

Pandora - http://www.pandora.com

Last.fm - http://www.last.fm

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Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Criadora dos premiados "O Livro depois do Livro" e "egoscópio" e de projetos artísticos que envolvem o acesso público a painéis eletrônicos via Internet, SMS e MMS. É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico. Site: www.desvirtual.com

 
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