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Enquanto que nos países ocidentais ainda existem restos do Estado de Bem-estar Social, um número cada vez mais crescente de pessoas torna-se dependente da transferência de recursos públicos, que caminha a par com o crescente endividamento estatal. Quanto mais restritivas essas transferências são na administração da crise estatal, mais se ampliam as formas de trabalho precarizado, para além do trabalho remunerado industrial.

A maior parte dessas novas relações empregatícias não se referem mais à produção de bens, mas à esfera da circulação, ao puro processo de mercado de compra e venda ou a serviços individuais, às falsas atividades autônomas, ao trabalho compulsório comunitário dos beneficiários do seguro desemprego, aos empregos de 1 euro, aos serviços de assistência precários, à ajuda no trabalho doméstico, às brigadas de varredores de rua, às atividades em calls centers, à venda de serviços telefônicos, aos trabalhos temporários, à assim chamada sub-ocupação (algumas horas por semana no supermercado no caixa enchendo sacolas de compras ou arrumando prateleiras), aos empregos em bares, ao pequeno comércio de rua, ao tipo de “empreendimento da miséria” e até mesmo à simples mendicância.

Essa tendência já atingiu há muito a jovem geração dos acadêmicos da classe média, que, em grande parte, não encontra mais nenhuma ocupação regular e tem de se virar até o limiar dos 40 anos com “estágios” de pequena ou nenhuma remuneração, ou mesmo contratos de trabalho temporários. Na França já se fala de uma “génération precaire” (geração precária).

Nessas condições, os indivíduos não são apenas sociológica e psicologicamente, mas também economicamente atomizados. Eles não encontram mais uma instância comum de unificação das formas de organização de suas ocupações precarizadas. Sob a pressão do empobrecimento e da piora das condições de vida, eclodem novas lutas sociais, como os protestos de massa da juventude acadêmica na França. Mas esses movimentos sociais (e os também chamados movimentos antiglobalização e seus foros sociais) não podem mais ser unificados sob a etiqueta da “luta de classes” ou de uma “classe trabalhadora”, como procura inutilmente a esquerda anacrônica tradicional. Já nos anos 70 os “novos movimentos sociais” tinham se afastado do paradigma da velha “luta de classes”.

Disso resultou naturalmente um enfraquecimento do poder e da capacidade reais desses movimentos de fazerem prevalecer suas reivindicações. Frequentemente, trata-se de um puro “movimento de causa única” para questões específicas. Também os protestos sociais permanecem pontuais e sem sustentalidade organizada. Isso tem a ver com o fato de que a “classe trabalhadora” obsoleta e o fim da “luta de classes” entre os campos sociais díspares não apenas têm dificuldades na questão organizatória, mas também, como nos novos movimentos sociais, de modo semelhante à sociologia e nas práticas culturais, a perspectiva do conjunto social se perdeu.

Não há mais nenhum objetivo comum, o velho entendimento do “socialismo” foi liquidado, como a ontologia do “trabalho”. Precisamente em sua crise histórica, o capitalismo parece como uma pura condição de natureza social intransponível. Para unificar os movimentos sociais de homens e mulheres atomizados como uma nova força histórica seria preciso estabelecer também novos objetivos comuns além do capitalismo, uma crítica generalizada do “trabalho abstrato”, do moderno sistema de produção de mercadorias e de sua divisão entre gêneros.

Atualmente, muito pouco disto pode ser vislumbrado. No lugar disso, mostra-se uma disseminada e ampla nostalgia capitalista. Quanto mais o capital, através de sua própria dinâmica se “dessubstancializa” e mais obsoleto e precário torna-se o “trabalho” residual, maiores as saudades de um tempo passado de relações de trabalho estáveis e do “milagre econômico” de depois da Segunda Guerra.

Essa nostalgia é perigosa, porque o caráter ilusório dessas ilusões retrospectivas torna-se logo consciente como contradição e desemboca em vínculos ideológicos destrutivos. Os novos pobres, e precisamente os mais instruídos entre eles, não são melhores pessoas. É justamente o ressentimento desses que sai à caça dos culpados, em vez de questionar de maneira crítica suas condições de existência socialmente modificadas. O capitalismo da bolha financeira virtualizada, no qual, de preferência, se deseja participar como aventureiro, aparece simultaneamente como ameaça subjetiva, através de seus “gafanhotos” em Private Equity Fonds e outras sociedades de investimento com uma proximidade clara com o anti-semitismo (o clichê dos “judeus financeiros”).

Teorias conspiratórias estão na ordem do dia em best sellers, bem como uma “crítica” abreviada e vulgar do capitalismo na forma de um antiamericanismo tosco. Aquelas fronteiras claras do passado entre ideologias de “direita” e “esquerda” se diluem na crise dos pressupostos socialmente comuns. O futuro dependerá de os movimentos sociais se fazerem prevalecer, além da velha luta de classes e da tendência nostálgica, anti-semita e antiamericana. Ou se, em contrapartida, se realizar uma crítica radical às aparentes leis naturais das formas sociais do moderno.


Na peça sobre o esclarecimento prussiano, de Heiner Mueller, “Gundling”, sobre Lessing, a domesticação do corpo, pela camisa de força, é apresentada pelo professor aos seus alunos, no manicomômio, como um “instrumento da dialética” diante um paciente em estado de masturbação compulsiva. “Cada um torna-se sua própria Prússia”, afirma ironicamente. No entanto, o instrumento somente parece aumentar no paciente a intensidade do impulso masoquista em ir além. A quase que completa colonização do imaginário pela nova virtualidade dispensa a camisa de força real. O que sobrou do espaço da fantasia?

Kurz: É, sem dúvida, uma bela metáfora de Heiner Mueller. É preciso estabelecer uma ligação entre o esvaziamento da subjetivdade e a virtualização do capital, na medida em que os indivíduos se tornam cada vez mais reprimidos, quanto mais se distanciam da realidade nesse mergulho virtual.

O que se passa na bolha financeira transcorre também de maneira concreta no cotidiano das relações. Na psicologia, temos o conceito de instabilidade na personalidade “borderline”. Essa cena refere-se ao processo de tântalo da colonização interna da subjetividade. Na medida em que o capital, em função da intensidade tecnológica, recua da realidade e avança na intimidade, nos sentimentos e pensamentos, na economização dos sonhos, sem devolver a substância viva retirada, a auto-repressão aumenta, e os indivíduos comportam-se, em quase todos os domínios, como pequenos empresários, administrando essa substância esvaziada.

Ocorre então a economização total das relações, das mulheres das crianças e dos amigos. Tudo deve estar de acordo com uma “qualidade gerencial” e ser organizado como uma pequena firma, pois, justamente na medida em que cada vez menos firmas reais existem, tanto mais devemos estender esta estrutura contra nós mesmos. Essa forma sem conteúdo é também muito bárbara em sua crueza e desemboca, na vida prática, facilmente em agressão física, porque a idéia insuportável de uma irrealidade crescente no virtual procura inevitavelmente uma válvula de escape. Esse mundo nos torna capazes e preparados para tudo. Os indivíduos tornam-se cada vez mais imprevisíveis.

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Este artigo é publicado por Trópico como contribuição à documenta 12 magazines, um projeto editorial coletivo que reúne em todo mundo mais de 70 publicações impressas e on-line, bem como outras mídias.

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José Galisi Filho
É doutor em germanística pela Universidade de Hannover (Alemanha).

 
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