CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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E como se definiria nossa época em contraste com esse ciclo que se encerra e o atual estágio da acumulação capitalista?

Kurz: Se podemos descrever nosso tempo como crise do moderno, marcado por uma perda de substância, então esse problema tem um fundamento social elementar na economia do moderno sistema de produção de mercadorias. Segundo Marx, o trabalho abstrato constitui a transferência da energia humana com a finalidade de valorizar a substância do capital. Na terceira revolução industrial da microeletrônica, essa substância mesma torna-se cada vez mais supérflua.

Pela primeira vez na história do capitalismo, a racionalização da produção supera a expansão dos mercados. Na medida em que a força de trabalho humana, em pulsos sucessivos, é retirada do processo produtivo, o capital real fica para trás. Ele deixa de ser a instância de entrelaçamento do conjunto econômico e do social. A transferência da capacidade de produção para países de baixos salários, como a China ou a Índia, não é um jogo de soma zero, mas está ligado à exportação de alta tecnologia. Ela se limita nestes países apenas a uma minoria de “zonas preferenciais de exportação”.

Na globalização, não existe mais nenhum “desenvolvimento” econômico nacional, no qual a população, como um todo, possa ser integrada. Também nesse sentido a modernização acabou. O capitalismo tornou-se um capitalismo de minorias. Ele estabeleceu a conexão planetária da humanidade, mas apenas em sentido negativo, como processo de crise, que em toda parte dissolve as conexões elementares do social. A sociedade capitalista mundial constituída não pode mais integrar a maioria das pessoas.

Mas esse não é apenas um problema de miséria e desemprego em massa. A crescente fragmentação social libera, na mesma medida, nos níveis macro e micro, processos de desintegração “pós-políticos”. Em todas as partes no mundo desenvolvem-se, como continuação da concorrência por outros meios, novas relações de força. Podemos falar, por um lado, de um processo sorrateiro de desestatização. No lugar das guerras tradicionais aparecem, nessa anomia, guerras civis de um novo tipo, ligadas a uma violência particular contra mulheres e crianças. As zonas de insegurança crescem a cada dia.

Mas o capitalismo planetário sufoca não apenas em função de sua própria incerteza auto-produzida. Na mesma proporção em que a força de trabalho é desvalorizada, processa-se simultaneamente uma “dessubstancialização” do capital. O valor e sua forma de aparição como dinheiro resultam, em última instância, de uma energia humana transferida, e apenas por essa razão é que os produtos assumem sua forma de mercadoria, isto é, numa abstrata “coisicidade de valor” em oposição a sua qualidade sensível. Ao desvalorizar a força viva de trabalho, a terceira revolução industrial destrói o próprio valor e coloca todo o sistema de produção de mercadorias em xeque. A crise do “trabalho abstrato” torna-se a crise do capital ele mesmo, pois a “valorização do valor” atinge suas fronteiras históricas.


Como entender a produção cultural neste contexto? O sr. acredita que, no plano da arte, a modernidade é nossa Antigüidade?

Kurz: Acredito que, referidos à relação econômica como centro da sociedade oficial, mostra-se uma clara distinção entre moderno e pós-moderno. O moderno foi o contínuo da ascensão histórica e da consolidação do trabalho abstrato. A substância do capital tornou-se, no processo de acumulação, cada vez mais rarefeita. Ela compreende cada vez mais esferas da vida e se estende à produção cultural, que se organiza dentro da lógica capitalista da indústria cultural.

Literatura e arte refletem imanentemente esse movimento substancial, cujo nome é modernização, até os poros mais remotos e nichos do cotidiano, como mudanças das relações psíquicas, dos caracteres sociais, da sexualidade e da percepção do mundo. Nesse ponto, tanto a crítica tradicional de esquerda como aquela do antigo campo do socialismo real, bem como a conservadora em todos os seus matizes, não pouparam esforços. Mas essa crítica teve sempre a dinâmica da expansão do trabalho abstrato como seu presuposto silenciado.

Isso se mostra não apenas do ponto de vista cultural, mas também político e econômico. A “democratização” política foi idêntica com a integração das massas no capitalismo. O reconhecimento do trabalhador assalariado como sujeito de direito civil, bem como da cidadania (eleições universais, voto feminino apenas no século 20, direito à greve e à liberdade de reunião) constituem apenas reverso da medalha de sua submissão ao trabalho abstrato. E o socialismo real foi apenas um sistema alternativo, concebido a partir dos mesmos fundamento sociais e ontológicos. Como socialismo real na periferia do mercado global desde a Revolução de Outubro, ele se desenvolveu como um paradigma da modernização recuperadora, na qual o trabalho abstrato não foi superado, senão apenas tardiamente introduzido e aplicado.

Em contrapartida, o pós-moderno representa o processo de dissolução e declínio do trabalho abstrato. O fim do socialismo real pertence a esse contexto e marca o fim da modernização recuperadora. O sistema mundial unificado não pode mais atribuir uma unidade substancial, senão em pequenas zonas insulares de rentabilidade decrescente. Enquanto que a coerência nacional clássica do moderno se esfacela, a dessubstancialização do capital se irradia, agora, em direção inversa, a todos os domínios da existência como um sentimento de esvaziamento geral e crise.

A crise da substância econômica e, em consequência, a crise da política tornam-se a crise da moderna identidade masculina, que tinha seu ancoramento nessa substância, enquanto que as mulheres, em função de sua dupla socialização e fixação nos momentos apartados da reprodução real, sempre foram semi-integradas. Nessa crise, as conquistas do movimento feminista vão sendo sucessivamente -e até agora sem grande resistência- revogadas. No território desse refluxo, a identidade esvaziada masculina avança “desembestada”, exprimindo-se, em toda parte, numa violência sexista cada vez maior.

Com uma nova vestimenta, retornam os velhos demônios da modernização -racismo, anti-semitismo, etnonacionalismo-, seja nos homens ou nas mulheres. Eles representam apenas uma reação destrutiva à nova ameaça existencial para restabelecer, de maneira imaginária, o nexo social perdido sob delegação do “outro”.

O mesmo esvaziamento se observa na produção cultural. Por isso, a crise da cultura e da arte não decorre apenas de uma crise financeira e da precariazação de seus atores, mas também de seus conteúdos. O novo é apenas um remake de segunda do velho (retrô). Não apenas as séries televisivas são infinitamente repetidas. Modas e conteúdos esvaziados retornam à circulação em intervalos cada vez mais curtos. Culturalmente, a dinâmica do desenvolvimento transformou-se numa espécie de eterno retorno do mesmo.

Já que tudo se tornou indiferente, a arte não pode mais provocar. Nudez e banhos de sangue suíno nos palcos alemães provocam um grande bocejo. Sensacional mesmo, hoje, na Alemanha é quando os atores aparecem em cena vestidos. Não há mais nenhum conteúdo cultural a ser expresso na forma capitalista, justamente porque ela mesma perdeu o seu conteúdo. A fragmentação social e a desintegração como desconexão universal tornam-se uma falta de conteúdo universal ou uma desrrealização de todos os conteúdos críticos do passado, que opunham um sinal negativo a esse desenvolvimento.

O reducionismo tecnológico mostra-se também na comunicação. Quanto mais os indivíduos incrementam e são mobilizados pelo arsenal tecnológico multimídia, cada vez menos têm a dizer entre si.

As ciências sociais não estão excluídas dessas tendências. Ulrich Beck fala também de si mesmo, quando se refere a uma perda de significado e irrealidade da sociologia auto-infligidas. A irrealidade da sociologia é a mesma da arte e da cultura, e ela é justamente “culpada”, na medida mesma em que recalca essa perda de substância ao inventar conceitos vazios. Por esse motivo, a sociologia não pode mais oferecer nenhuma resposta aos problemas urgentes da crise. Ela descreve superficialmente alguns fenômenos, mas se recusa a reconhecer a correlação entre eles.

Para sairmos desta fila de espera do pós-moderno só há uma saída: se a teoria novamente referir-se “ao todo”, partindo da crise do “trabalho abstrato” e das modernas relações entre os gêneros, realizandoo uma crítica radical da ontologia capitalista, que para os críticos obsoletos do passado ainda era pressuposta de modo postivo. Talvez, com essa intenção crítica profunda, seja possível fazer da arte algo novamente provocador.


Pode-se falar ainda em luta de classes? O proletariado pode ser considerado ainda uma força de oposição ao capital?

Kurz: Desde a industrialização, o moderno foi marcado pelo antagonismo de classes entre “trabalho assalariado” e “capital”, entre “proletariado” e “burguesia”. Essa oposição parecia ser ontológica, porque o “trabalho abstrato” era entendedido como uma necessidade natural eterna e, apenas num sentido totalmente externo, como substância do capital. Na ideologia oficial burguesa, a forma capitalista era inseparável da necessidade do “trabalho” mesmo, e na ideologia socialista o “trabalho eterno” deveria supostamente libertar-se da forma capitalista.

Hoje, os pressupostos sociais comuns de ambas ideologias foram corroídos e percebeu-se, por assim dizer, que ambos os lados tinham, apenas em parte, metade da razão. A substância abstrata do trabalho é, de fato, parte inseparável da forma capitalista, mas apenas na medida em que essa forma é sucessivamente esvaziada de sua própria substância. A “ontologia do trabalho” revela-se historicamente limitada e caduca como as mercadorias universais e a forma monetária do capital.

Aqueles “exércitos do trabalho” invocados por Marx, em sua época, como base organizada da luta de classes desapareceram. Apenas aparentemente repete-se hoje a mobilização desses “exércitos” em zonas de exportação preferenciais da China e da Índia, nas quais, simultaneamente, no mercado interno e na produção agrícola, o “trabalho” é, em grande parte, desmobilizado. Do ponto de vista global, o volume absoluto do trabalho regular declina sem parar.

O capital reage a essa crise interna com a constituição de uma economia interligada como bolha financeira. Uma vez que investimentos reais e fábricas, máquinas e força de trabalho são cada vez menos rentáveis e em toda a parte revela-se uma “sobrecapacidade”, que cada vez mais têm de ser desmobilizada (com o fechamento de fábricas, por exemplo). O capital financeiro foge numa virtual (fictícia) acumulação nos mercados financeiros. Os ganhos não decorrem mais da produção ou da venda de mercadorias, mas quase que somente das elevações, sem substância, dos preços nos mercados de ações e imobiliários, da transação com títulos financeiros de conglomerados e suas partes (batalhas de aquisições hostis, por exemplo).

Assim como as ciências sociais em suas reflexões teóricas, o capital também procura, de um ponto de vista econômico prático, navegar ao sabor do vento. Também essas zonas preferenciais minoritárias de exportação na China e na Índia, geridas pelos conglomerados transnacionais, são, em realidade, dependentes da economia de bolha financeira, sobretudo do déficit externo dos Estados Unidos, e não representam nenhuma acumulação real produtiva.

O processo sociológico de individualização descrito por Ulrich Beck esteve, desde o início, ligado a essa virtualização econômica do capital. Nele, o proletariado clássico se dissolvia e a tradicional luta de classes perdia, com o “trabalho”, sua base ontológica. Quando, em 1986, Beck constatava a liberação das pessoas de seus antigos vínculos de classe, ele deixava totalmente de lado o caráter de crise desse mesmo processo econômico. Nesse entretempo, ele mesmo teve de desmentir seu otimismo inicial, mas ainda se recusa a admitir a relação interna entre individualização e caráter de crise da virtualização.

A oposição entre miséria e “riqueza abstrata” (Marx) radicalizou-se dramaticamente na forma monetária, mas ela não resulta mais da exploração da força viva de trabalho. As pessoas são justamente individualizadas e socialmente atomizadas, na medida em que o capital pode acumular cada vez menos. No interior dessa nova miséria de massa, desenvolvem-se campos de disparidade sociais, que não podem mais ser trazidos a um denominador comum de uma “classe” social uniforme.

 
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