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O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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em obras
trópico/documenta

A substância supérflua
Por José Galisi Filho

“Ao desvalorizar a força viva de trabalho, a terceira revolução industrial destrói o próprio valor e coloca todo o sistema de produção de mercadorias em xeque”, diz, em entrevista, o ensaísta Robert Kurz

Uma das características mais notáveis do ensaísmo de Robert Kurz, 63, partilhada por seus leitores marxistas ou não, é a capacidade de dramatizar, com ironia, no movimento do texto, o tecido complexo da trama contemporânea, agregando, à observação do detalhe, a fantasia de imaginar um mundo diferente com categorias experimentais.

Essa qualidade é, por assim dizer, literária, uma antiprosa, cujo saldo decorre daquilo que o dramaturgo Heiner Mueller chamou certa vez de a “pressão da experiência autêntica” no movimento do material. Nesse sentido, a reflexão de Kurz sobre a constelação pós-Guerra Fria precisa ser pensada, em seus devidos termos, dentro da particuliaridade da experiência alemã nos últimos 16 anos desde a Reunificação, nos quais seu país, relativamente civilizado e pacificado pela social-democracia depois da barbárie, transformou-se novamente num laboratório social e num pesadelo darwinista.

Ninguém menos que o poeta e editor Hans Magnus Enzensberger reconheceu prematuramente nessa imaginação sobre a fatalidade histórica da Reunificação e seu curso de desastre o convite para entrar em um território desconhecido. No outono de 1991, “O Colapso da Modernização”, de Kurz, era lançado na Andere Bibliotheke, editada por Enzensberger, dois anos antes da publicação de “Visões sobre a Guerra Civil”, livro deste poeta e ensaísta.

A sombra do argumento de Kurz projeta-se literariamente no argumento de Enzensberger sobre o excesso e o autismo de uma violência libertada das antigas amarras ideológicas nos Balcãs como metástase de uma crise que se irradia da periferia para o centro do sistema. Uma das características mais marcantes do ensaio é a homologia subjacente entre o “êxtase” dessa “subjetividade balcanizada” e o pathos niilista da crítica cultural pós-moderna.

Ao despedir-se das armadilhas morais do universalismo esclarecido, impotente pelo bombardeio de informações, Enzensberger convidava o leitor a uma ética da responsabilidade civil, além da política partidária. Se, para Kurz, o colapso do socialismo de caserna significava menos uma vitória do capitalismo sobre a antiga ditadura do SED (sigla em alemão do Partido Socialista Unificado da Alemanha, que se converteu depois no Partido Social-Democrata da Alemanha - SPD), do que o signo de uma crise da própria concepção de “trabalho abstrato” arraigada na ética protestante tanto no Leste como no Ocidente, Enzensberger sinalizava nesse processo o termo histórico da modernização.

A questão da pós-modernidade era objeto da antologia de Kurz de 1999, “O Mundo como Vontade e Design, Estilos de Vida de Esquerda e Estetização da Crise”, uma cartografia do novo yuppismo intelectual nas figuras dos críticos Nobert Bolz e Diedrich Diederichsen e do desinteresse “individualizado” de uma geração, os ex-plebeus 68 que “chegaram lá”, a política como pose de charutos e ternos Armani, no auge da bolha financeira da “new economy”. Amor virtual, internet, Love Parade, analfabetismo funcional, legiões de mães solteiras empobrecidas, colapso da masculinidade, Kurz traçava um inventário da miséria individualizada da geração “single”.

Em 2000, “O Livro Negro do Capitalismo” dava forma enciclopédica ao programa categorial da antiga revista “Krisis”. Pela primeira vez, uma obra de Kurz ganhava ressonância nacional, chegando a ser considerada pelo “Die Zeit” como o mais importante lançamento nos últimos dez anos.

Ao contrário do sociólogo Ulrich Beck, que se tornou conselheiro da ala modernizadora do SPD durante os anos da coalizão vermelho-verde, Kurz sempre manteve uma distância crítica da política partidária. Mas sua reflexão, em sentido concreto, é antes de tudo um ajuste com a “chispa desembestada” (na expressão de Roberto Schwarz) da esquerda tradicional alemã que, entre outras aberrações, se transformou em terrorismo anti-semita no início dos anos 70 e se aglutina hoje em torno da “LinkBuendnis” capitaneada por Oskar Lafontaine, na forma de uma crítica vulgar do capitalismo financeiro, emparedada pela dessolidarização do rápido desmonte da máquina social.

Na entrevista a seguir, Kurz fala sobre a atual situação da Alemanha e do capitalismo e responde à pergunta da Documenta: “A modernidade é nossa Antigüidade?”.

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Quando se fala no fim da modernização, à qual paradigma estamos ainda nos referindo?

Robert Kurz: O conceito de moderno é bastante mutável e apreendido de maneiras inteiramente distintas, dependendo do contexto no qual se argumenta. Entre os históriadores, por exemplo, existe o conceito de “pré-moderno”, datado entre os séculos 16 e 17, e o moderno compreenderia todo o processo histórico a partir dessa época. Já na filosofia, o início do moderno é frequentemente assimilado ao Esclarecimento (ou Iluminismo) do século 18, ao qual todas as teorias e ideologias posteriores até hoje se referem direta ou indiretamente. Para a maioria dos economistas e sociólogos, por sua vez, o moderno começaria com a industrialização no início do século 19, da qual se origina uma história das diversas revoluções industriais, que culminaria hoje na terceira revolução industrial da microletrônica.

No campo da arte e da cultura, o conceito de moderno se estabelece de maneira marcante na reflexão apenas no século 20, antes da Primeira Guerra Mundial, não se estendendo como “clássico moderno” além das décadas de 50 e 60, quando parece se esgotar e desembocar no assim chamado pós-moderno.

Do campo da arte e do aparelho cultural, o tema do fim do moderno e do início de um pós-moderno estendeu-se, neste entretempo, para a filosofia, as teorias da história, a sociologia e até para a economia. A “nova economia” do capitalismo-cassino-internet foi descrita como um paradigma socioeconômico pós-moderno, como uma nova era de acumulação de capital e prosperidade, cuja bolha, de maneira patética, já estourou há alguns anos.

A desorientação parece tão completa, que Juergen Habermas já proclamava, no início dos anos 80, uma “nova intransparência”. O problema consiste no fato de que, no desenvolvimento do moderno, a perspectiva da totalidade social e da história se torna cada vez mais fugidia. As ciências sociais se “diferenciaram”, as teorias referem-se cada vez mais apenas a “partes do sistema”. O conjunto se perdeu, e desse refluxo e vazio o pós-moderno fez precisamente soar sua hora no culto desta desconexão.

Na pós-história, a história mesma foi atomizada; na sociologia, os “processos de individualização” (Ulrich Beck) reabilitados; e na economia os pontos de vista “microeconômicos” realçados e o conjunto capitalista dissolvido na particularidade dos “sujeitos econômicos”.

A mesma atomização processou-se na arte, na indústria cultural e nos estilos de vida alternativos. Cada um por si e Deus contra todos. Essa tendência à atomização não é apenas pura ideologia, mas apresenta também pressupostos sociais bem objetivos, que, não obstante, não foram até agora refletidos. A sociedade parece se dissolver numa ausência de conexão real, e esse processo é pensado de maneira igualmente sem conexão com a base social real, isto é, ele é reduplicado idealmente. Nesse sentido, o pós-moderno é, por assim dizer, a realização de sua própria profecia.

Mas uma outra perspectiva se oferece quando consideramos o conjunto da sociedade e da história. O moderno constituiu um contínuo e uma conexão categorial, uma certa formação histórica da sociedade, diferenciada de suas formas agrário-religiosas tradicionais. Essencial nesse processo é a constituição do capitalismo, por um lado, isto é, do moderno sistema de produção de mercadorias, e, por outro, das relações modernas entre os gêneros, no qual o patriarcado, bem como a reprodução social, foram “objetivados”.

O “trabalho abstrato”, a forma da mercadoria, a mediação do mercado mundial e a concorrência universal tornam-se determinações centrais. Essas formas aparentemente neutras são também “estruturalmente masculinas”, isto é, espelham a supremacia masculina na política e na economia, em certo sentido, também no aparelho cultural. As mulheres estão representadas neste setor, mas são também, como afirma a socióloga Regina Becker Schmidt, “duplamente socializadas”, pois aqueles momentos não originários da reprodução social (atividades domésticas, educação dos filho, empatia, trabalho amoroso), no “trabalho abstrato”, na política e no aparelho cultural foram apartados pelo capitalismo ascendente da sociabilidade oficial e historicamente delegados às mulheres. O capitalismo, o objetivo do moderno sistema de produção de mercadorias como da “valorização do capital” e de sua esfera política, constitui, dessa forma, igualmente, um sistema de “separação de gêneros” (Roswitha Scholz).

Mas o assim entendido “moderno” não constitui nenhum contínuo estático, porém dinâmico. Por essa razão, o conceito de “moderno” vai a par com o de modernização. A modernização foi inicialmente um processo de colonização externa e interna, ou seja, um processo de consolidação das modernas categorias sociais através do colonialismo europeu, externamente, e de subversão das velhas relações agrário-religiosas e dos vínculos pessoais, internamente. Esse processo foi desigual e completou-se nas diversas partes do mundo fora da Europa e da América do Norte em ondas intermitentes sucessivas, que se estenderam pelo século 20 adentro. Por esse motivo, fala-se também em “não-simultaneidade histórica”.

Mas, em segundo lugar, o conceito de modernização designa o desenvolvimento das modernas relações a partir de “seus próprios fundamentos” (Marx), a história da Revolução Industrial, as metamorfoses emergentes da esfera política (democratização) e as novas formas de expressão e da separação entre os gêneros.

Seria, portanto, o pós-moderno uma época essencialmente distinta do moderno. Por outro lado, o discurso do pós-moderno pressupõe que a modernização teria atingido seus limites históricos. O capitalismo e sua divisão de gêneros tornaram-se, na globalização, um sistema planetário e, nessa simultaneidade, esse desenvolvimento interno pareceria ter se esgotado. Há, de fato, novas formas de individualização, a internet, a economia transnacional, mas as modernas categorias sociais tornaram-se vazias e ocas. As mudanças econômicas, sociais e técnicas não correspondem mais aos novos conteúdos e perspectivas. Isso se mostra particularmente claro na esfera sensível da arte e da cultura. Mas essa dinâmica é apenas exterior. Com Paul Virilio, poderíamos falar de uma “rasante inércia”.

Tudo isso vem a par com um “crise econômica radicalizada”, que se estende da periferia até os centros capitalistas, na imagem do desemprego e da miséria em massa, nas infra-estruturas desarticuladas, no declínio da classe média, com as pessoas cada vez mais lançadas na precariedade social, entre elas muitas existências intelectuais e artísticas. Também a crescente migração global é parte da síndrome. No conjunto, estamos diante de uma crise global de nova qualidade. O pós-moderno não é uma época além do moderno, mas sim uma época da crise fundamental do moderno, uma época de transformação crítica rumo ao desconhecido, já que não se pode ser “mais moderno”, isto é, a modernização não encontra mais espaço para avançar.

A teoria e a ciência majoritariamente não compreenderam essa nova situação e procuram ainda navegar ao sabor do vento, pois não querem reconhecer o pós-moderno como crise do moderno em suas fronteiras históricas. Em parte, o pós-moderno é apresentado como uma suposta e completa nova época de virtualidade auto-confiante e de contigências “abertas”, enquanto que a realidade social se esfacela na dureza dos pressupostos reais do capitalismo, que já não podem mais nem sequer serem preenchidos.

É dessa maneira que Ulrich Beck e Anthony Giddens falam de uma “modernização reflexiva” e de uma “nova descoberta do político”. O moderno deve tornar-se “auto-reflexivo” em relação aos seus próprios potenciais engendrados e ameaças crescentes, sobretudo em relação ao equilíbrio ecológico. Mas aqui não há nenhum modo de trabalho compatível com o moderno. A destruição capitalista dos recursos vitais prossegue irrefreada e politicamente não há nada de novo a ser descoberto, pois a política, como instrumento corretivo de regulamentação do Estado nacional, não surte mais qualquer efeito na crise globalizada.

E também no cotidiano das relações essa crise fundamental se mostra evidente. Os indivíduos atomizados não se suportam mais entre si, as relações se precarizam no amor, a divisão de gêneros se decompõe e o cotidiano e o trato pessoal são, por assim dizer, “barbarizados”. O pós-moderno como uma nova época, ou como continuação da modernização, é simplesmente um embrulho enganador.

 
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