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Ricardo Musse
Professor no Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP):

"Ilusionismo" talvez seja a percepção concreta, experimentada na própria carne, do logro inerente ao discurso liberal no capitalismo, seja em sua forma tradicional ou na versão neo. Extraída do contexto, dir-se-ia que se trata de um "ato falho", ou de uma troca de equivalentes, perpetrada por um leitor atento de Robert Kurz, autor que popularizou em artigos de jornal a crítica do fetichismo e da Aufklärung desenvolvida por Marx e desdobrada por Adorno e Horkheimer.


Vladimir Safatle
Professor do departamento de filosofia da USP, autor de "A Paixão do Negativo" e "Um Limite Tenso", entre outros:

O lapso entre "Iluminismo" e "ilusionismo" cometido pelo porta-voz do PCC não é exatamente uma novidade. Usar critérios normativos de validade para justificar interesses particulares é um procedimento tão velho quanto o próprio Iluminismo, o que nos faz pensar que talvez o problema esteja nos próprios critérios normativos. De qualquer forma, esta não é a primeira vez que vemos o discurso dos direitos humanos sair da boca de quem o nega. Na verdade, a lista é grande. Se quisermos procurar algum sistema de ilusões talvez ele esteja na nossa crença de que algo como o PCC poderia não ser uma fatalidade nacional. Como fomos capazes de acreditar que, com nossa fratura social e uma política de segurança local baseada exclusivamente em extermínio, encarceramento e ignorância, estávamos livres de algo como o PCC? Responder tal pergunta talvez seja a melhor maneira de encaminhar uma discussão sobre o "ilusionismo" em nossas praias.

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