CINEMA
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a.r.t.e.
DEJÁ VU

Clássicos de araque
Por Matheus G. Bitondi

A indigência, o marasmo e o kitsch dominam o mercado fonográfico de música erudita no Brasil

Pobre do crítico musical que se dedica aos lançamentos de CDs e DVDs eruditos no Brasil, pois seu trabalho consiste em uma tarefa das mais tediosas. A primeira etapa desta tarefa é sentar e esperar por um lançamento, evento raro em nosso mercado fonográfico. A espera é longa e, quando um lançamento se dá, nenhuma surpresa. Aquelas mesmas músicas, dos mesmos compositores, tocadas por aqueles mesmos intérpretes. Dejà vu! Inicia-se, então, a segunda etapa do processo: nosso pobre crítico aguça o ouvido e a caneta na vã tentativa de extrair alguma informação nova de temas há muito esgotados e sobre os quais já escreveu tantas vezes. Isso tudo se o lançamento em questão for digno de alguma linha na mídia. Senão, permanece-se na primeira etapa.

Porém, ao crítico que se cansou da longa e tediosa espera, resta escrever sobre uma vastidão de CDs e DVDs lançados mundo afora. Na Europa, nos Estados Unidos e até mesmo na Argentina. Ah, quantas músicas inauditas! Quantas interpretações diferentes! Quantas idéias interessantes suscitariam à mente carente de estímulos do pobre crítico brasileiro! Mas não vá pensar o autor de tais resenhas que seus leitores encontrarão os produtos sobre os quais escreve nas lojas brasileiras. E, se os encontrarem, que tenha certeza de que dificilmente comprarão, tendo em vista os preços.

E esta é a pouco emocionante rotina daqueles que aguardam novidades no mercado fonográfico erudito no Brasil. Devemos todos nos contentar em adquirir pela enésima vez as mesmas obras, os mesmos intérpretes e até as mesmas informações nos encartes que acompanham os CDs, tudo geralmente maquiado com projetos gráficos coloridos e estratégias de marketing baratas. Como exemplo típico deste marasmo podemos citar o box “Best Mozart 100”, lançado este ano por ocasião das comemorações dos 250 anos da morte do compositor austríaco.

Enquanto no mercado internacional pipocam gravações que trazem novas interpretações das obras de Mozart, revelam novos intérpretes e levam em conta as mais recentes descobertas da musicologia, no Brasil é divulgado como um dos principais lançamentos relacionados a esta data este box de seis CDs, que não trazem mais do que uma coletânea díspar de 100 velhas e batidas gravações de trechos não menos batidos de obras de Mozart. São árias desconectadas de suas óperas e reunidas sem muitos critérios, movimentos arrancados de sinfonias e concertos e o mesmo trecho de “Eine kleine Nachtmusik” que se pode adquirir em qualquer banca de revistas, como brinde de alguma revista.

Os títulos do selo Naxos disponíveis no mercado nacional também nos dão uma boa perspectiva da situação. Fora do país, a Naxos apresenta um imenso catálogo que inclui desde coletâneas de cantos gregorianos até gravações de obras completas de compositores ainda vivos. Porém, o selo que edita os CDs da Naxos no Brasil faz questão de nos privar de toda esta riqueza, e disponibiliza no mercado nacional, além dos conhecidos Bachs, Beethovens e Vivaldis de venda mais garantida, uma infinidade de coletâneas bizarras como “Organ Meditation”, “Wedding Music” ou “Lounge Love Songs”, também com trechos famosos usurpados do contexto e reunidos de acordo com critérios que nada têm de musical.

Outros exemplos de lançamentos nacionais não se distanciam destes. Tratam-se de compositores famosos, obras que já foram exploradas por filmes ou comerciais televisivos, intérpretes conhecidos do público brasileiro, isso quando não vêm acompanhados de constrangedores apelos comerciais próximos aos dos livros de auto-ajuda: “Chopin para sonhar”, “Bach para o bebê” etc.

Da parte daqueles que lançam estes produtos no mercado (ou, mais rotineiramente, nada lançam) a desculpa é sempre a mesma: no Brasil não há consumidores para músicas, intérpretes e compositores desconhecidos. Ora, estes grandes empreendedores do mercado fonográfico parecem não saber que públicos se formam e são formados. Temos realmente muita sorte de seus colegas do mercado automobilístico não pensarem da mesma forma, do contrário ainda nos locomoveríamos em velhos fuscas, modernamente maquiados com ar-condicionado e aparelho de DVD.

Este argumento dos selos nacionais, porém, não é de todo descabido. Ele revela algo sobre os consumidores de música erudita no Brasil e seus hábitos. Sabidamente, uma grande parcela destes é constituída de pessoas que freqüentam concertos apenas pelo evento social que eles encerram. Vestem-se com toda a pompa e aguardam ansiosamente pelo cafezinho do intervalo. Outra parte destes consumidores quer apenas ostentar uma imagem culta. São pessoas que adquirem CDs eruditos quaisquer para adornar as estantes da sala e impressionar as visitas. Freqüentemente nos deparamos, ainda, com um terceiro espécime de consumidor: aqueles que são fisgados pelas estratégias de marketing ao estilo “auto-ajuda”, aderem a uma postura “zen” e realmente acreditam que música erudita serve para relaxar. Estas pessoas devem manter a escuta em um nível extremamente superficial para realmente relaxarem ao som de uma sinfonia de Beethoven, permeada de conflitos e contrastes súbitos!

Em todos estes casos o conteúdo musical pouco importa. Como quem compra roupas de marca ou jóias, os consumidores destas músicas parecem apenas querer ostentar uma determinada imagem. A música deve apenas não incomodar: não conter muitas dissonâncias “desagradáveis”, não ser longa demais etc. E é este comportamento que parece nortear o mercado de música erudita no Brasil, dos lançamentos de CDs e DVDs até a programação das temporadas de concertos.

Isso explica não somente a razão de só existirem CDs nacionais dos mesmos compositores, mas também a razão pela qual as orquestras estrangeiras são obrigadas a inserir no repertório obras conhecidas do público brasileiro para se apresentarem por aqui, ou ainda por que não é possível passar uma só manhã sem que a Rádio Cultura toque um “hit” de Tchaikovski, para a decepção de uma minoria, que está sempre em busca de novas músicas, escritas por compositores diferentes e interpretada pelos mais diversos músicos. Estes já desistiram de dar uma olhadinha na prateleira de lançamentos nacionais e dirigem-se diretamente aos importados.

Em meio a esse deserto, porém, é justo que se aponte alguns poucos oásis. Lançamentos interessantes, embora esporádicos, ficam por conta de selos menores e, não raro, da iniciativa dos próprios músicos brasileiros, que bancam a gravação e o lançamento dos próprios CDs. Embora tenham crescido de maneira tímida nos últimos anos, estes lançamentos são geralmente caracterizados por tiragens reduzidas e por uma distribuição local, além de cobrirem apenas a produção musical brasileira. Mas, não fossem eles, nosso pobre crítico musical estaria desempregado...

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Matheus G. Bitondi
É compositor, mestrando em música pela Unesp.

 
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