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CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE

O fenômeno total
Por Humberto Pereira da Silva

A história das guerras desde a Antiguidade é tema de livro organizado pelo geógrafo Demétrio Magnoli

As guerras acompanham a trajetória da civilização desde os primórdios. Apesar de esforços como a criação da ONU, no final da 2ª. Guerra, e de acordos internacionais em diversos níveis, a guerra é um fenômeno ainda presente e suas consequências são devastadoras. Hoje Israel e Hezbollah se enfrentam e espalham terror na população civil do Líbano, que foge desesperada num êxodo sem precedente na história recente do Oriente Médio. Compreender as intrincadas razões de qualquer guerra, por sua vez, é tarefa movediça, caso não olharmos para seus condicionantes políticos, econômicos, tecnológicos, ideológicos e culturais.

A partir desse entrelaçamento -que entende a guerra como fenômeno total-, o geógrafo Demétrio Magnoli organizou para a editora Contexto, a convite do historiador Jaime Pinsky, o recente “História das Guerras”, livro para o qual contribuíram importantes historiadores, sociólogos, geógrafos, militares e jornalistas. “História das guerras” foi concebido de modo a que o leitor tenha uma vista geral dos principais eventos bélicos, desde a Guerra do Peloponeso até as Guerras do Golfo.

Na entrevista a seguir, Magnoli –que é também diretor editorial do boletim “Mundo - Geografia e Política Internacional”, pesquisador do Nadd (Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Democratização e Desenvolvimento) e colunista da “Folha de S. Paulo”- fala de guerras da Antiguidade, do modo como elas produziram modelos para o pensamento geopolítico. Aborda a presença simbólica das Cruzadas nas tensões religiosas atuais; trata das recentes guerras do Golfo e da presença do Chavismo na política latino-americana; e examina, enfim, as tensões e os conflitos atuais.

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Qual foi o método adotado para narrar em seu livro a história das guerras?

Demétrio Magnoli: A opção de método que orientou a obra foi encarar a guerra como fenômeno total: político, econômico, tecnológico, ideológico e cultural. Dessa opção derivou a seleção de conflitos cujos ecos chegam até o presente. Isso significa dizer que o livro aborda as guerras que continuam entre nós, ou seja, que persistem na memória política pelo fato de terem produzido paradigmas duradouros. Hoje, quando se pensa a guerra, pode-se ignorar uma infinidade de conflitos, mas, de modo nenhum, é possível voltar as costas para a Guerra do Peloponeso, as Cruzadas, as conquistas de Gengis Khan ou a Guerra dos Trinta Anos, por exemplo.


Guerras como a do Peloponeso e as Púnicas, para lembrar Maquiavel, continuam exemplares ou nossa mentalidade sobre elas mudou?

Magnoli: O passado modifica-se o tempo todo, segundo as interpretações que recebe de cada geração. Mas há eventos que sempre estarão entre nós, ainda que sua releitura sofra mudanças. A Guerra do Peloponeso produziu um modelo para o pensamento geopolítico: o confronto entre a “Baleia” (Atenas, a potência marítima, comercial e extrovertida) e o “Urso” (Esparta, a potência continental, militarista e introvertida). Esse modelo foi aplicado em diferentes épocas, para descrever padrões de rivalidades. Na Guerra Fria, por exemplo, a figuração da “Baleia” foi aplicada aos EUA, enquanto a do “Urso” à URSS.

As Guerras Púnicas, além de refletirem o impulso expansionista inerente aos impérios (e Roma é a fonte da própria noção de império), geraram um modelo de manobra militar estudado e aplicado pelos generais nas guerras contemporâneas. A vitoriosa manobra em pinça usada pelos cartagineses na Batalha de Cannae inspirou a ofensiva inicial alemã na Primeira Guerra Mundial e a invasão terrestre do Iraque e do Kuait na Guerra do Golfo de 1991.


“História das guerras” trata das Cruzadas e da Guerra dos Trinta Anos, ambas marcadas por conflitos religiosos. Há episódios de intolerância religiosa que ameaçam a atual ordem européia?

Magnoli: As Cruzadas, como mito, estão mais presentes do que nunca. As conclamações ao “choque de civilizações”, que partem de intelectuais e estrategistas ocidentais e também da liderança da Jihad global, têm como referência as grandes “guerras da fé” da Idade Média. As tensões religiosas avolumam-se na Europa. Veja-se o episódio das charges de Maomé, a intolerância frente à imigração muçulmana e as repercussões populares dos discursos racistas de partidos de extrema direita. A candidatura da Turquia à União Européia põe um desafio difícil à Europa, que desde o Tratado de Roma reafirma a sua identidade de um clube cristão.


A Guerra do Paraguai, maior conflito entre países na América do Sul, merece um capítulo em “História das Guerras”. No contexto da segunda metade do século XIX -Guerra da Criméia, Guerra de Secessão, Guerra Franco-Prussiana-, qual a relevância desta guerra, no plano internacional?

Magnoli: O capítulo sobre a Guerra do Paraguai, do historiador Francisco Doratioto, está dedicado justamente a dissolver o mito de que esse conflito resultou essencialmente dos interesses britânicos na América do Sul. Sem dúvida, a Grã-Bretanha apoiou a Tríplice Aliança, mas a guerra decorreu do choque entre os interesses nacionais dos seus participantes. Ela é um evento secundário na política mundial do século XIX, mas um evento decisivo na configuração dos Estados nacionais brasileiro e argentino. A Guerra do Paraguai consolidou a unidade do Brasil e a unidade da Argentina. Ela fechou as portas à constituição de um grande Estado platino em torno do Paraguai e dos seus aliados uruguaios. Toda a geografia política da região platina foi desenhada nesse conflito.


A história das guerras segue um caminho, por assim dizer, determinista? A guerra da Bósnia, por exemplo, se explicaria no contexto de problemas não resolvidos nas grandes guerras do século XX?

Magnoli: Não há determinismo na história, pois ela é um processo aberto, uma teia que emerge da vontade política de inúmeros atores. Mas o resultado das guerras é a matéria-prima que, trabalhada pelo discurso político, origina novas linhas de tensão e novas guerras. A perda da Alsácia e da Lorena, na Guerra Franco-Prussiana, foi um elemento central no revanchismo francês e, portanto, na organização das coalizões rivais que se enfrentariam na Primeira Guerra Mundial. A Guerra da Bósnia (1992-95) tem suas origens no processo de formação da Iugoslávia, sob o comando da Sérvia, no final da Primeira Guerra Mundial. Contudo, nada é “inevitável”: a sangrenta fragmentação da Iugoslávia não é uma decorrência direta de questões não resolvidas nas grandes guerras do século XX, mas da derrocada dos regimes comunistas no Leste europeu em 1989.


Com o fim da Guerra Fria e a presença da Al-Qaeda, pode-se cogitar que o terrorismo atual guarda semelhanças com as investidas “bárbaras” no final do Império Romano?

Magnoli: Não há semelhança. O que existe são as metáforas: o Ocidente como “Nova Roma”, os jihadistas como “novos bárbaros”. As metáforas desempenham seus papéis, às vezes cruciais, no discurso político, mas não representam chaves de interpretação histórica.


Aproveito a deixa da questão anterior para trazer a tona as posições do Samuel Huntington, sobre o choque de civilizações, e do Edward Said, sobre a visão ocidental dos árabes: você entende que valores ocidentais são pouco porosos à mentalidade árabe?

Magnoli: A noção de que existe uma “mentalidade árabe” foi fabricada pelo orientalismo. Edward Said explica isso: a invenção de um “Oriente” pelo Ocidente, que nesse processo intelectual inventa-se a si mesmo. Samuel Huntington, com seu “choque de civilizações”, oferece uma atualização geopolítica das construções intelectuais do orientalismo.

Isso não significa, porém, que não exista uma singularidade ocidental. O Ocidente é fruto da Reforma e do Iluminismo, que separaram o indivíduo da coletividade e a política da religião. O terreno histórico do jihadismo é formado pela ausência dessa “revolução nas mentalidades”. Mas essa explicação do terrorismo jihadista serve apenas como ponto de partida e não deveria sustentar discursos simplistas que contrapõem o “Ocidente” ao “mundo árabe-muçulmano” em bases culturalistas.


O presidente o Irã, Mahmoud Ahmadinejad, tem assumido um discurso de negação do Holocausto. No cenário explosivo do Oriente Médio trata-se de retórica que visa a barganhar o quê?

Magnoli: Não é retórica. Ahmadinejad é um extremista e fala abertamente aquilo que é considerado verdade evidente em grande parte do mundo árabe e muçulmano. A negação do Holocausto está nos livros didáticos no Irã e na Arábia Saudita, por exemplo. O mito da “conspiração judaico-mundial” é um elemento corrente da vida política em diversos países árabes, ainda que não em todos.


Como você vê os desdobramentos do atual conflito entre Israel e Líbano, no que se refere à possibilidade de uma escalada que envolva outros países?

Magnoli: Israel anunciou, no início da ofensiva, que a meta era liquidar o Hezbollah como organização armada. Um mês depois, não conseguiu sequer a aprovação da resolução do Conselho de Segurança da ONU que permitiria a manutenção das forças israelenses no sul do Líbano até que a faixa estiver sob controle de uma força internacional. Israel não pode parar a guerra de um modo que seria interpretado como uma derrota. Aí é que está o perigo. Se ceder à tentação da escalada, avançando por terra ao norte do rio Litani, rumo a Beirute, Israel poderia provocar o envolvimento da Síria e o início de uma guerra regional.


Mesmo seguindo as regras do jogo democrático, os países da América Latina não têm conseguido diminuir o grande hiato social. Na Venezuela, Hugo Chaves desponta com razoável ingerência nos assuntos regionais. O chavismo é decorrência das grandes distorções sociais que marcam a América Latina?

Magnoli: O chavismo é, sem dúvida, um produto das desigualdades sociais na Venezuela. Mas, sobretudo, é fruto da falência política das elites dirigentes tradicionais da Venezuela. É, portanto, um fenômeno nacional, não latino-americano. Chávez imagina que pode exercer forte influência sobre a América Latina, com sua “revolução bolivariana”. A derrota de Ollanta Humala, no Peru e, em menor medida, de López Obrador, no México, revelam que Chávez exerce alguma influência na Bolívia, mas não nos demais países da América Latina.


No cenário de debates raciais no Brasil, posições multiculturalistas e de defesa de políticas compensatórias despontam frequentemente. Como você vê a defesa de posições multiculturais em orientações oficiais para ensino de história e de geografia e, igualmente, a defesa de políticas compensatórias para ingresso no ensino superior?

Magnoli: O multiculturalismo é uma corrente internacional, estimulada por fundações filantrópicas bilionárias, como a Fundação Ford, que ganhou o estatuto de política oficial da ONU desde a Conferência de Durban. É de se esperar que as idéias multiculturalistas exerçam certa atração no Brasil, mas o que chama a atenção é a resistência da opinião pública e da maioria da população brasileira às propostas de cotas raciais e de divisão oficial das pessoas segundo critérios raciais. Esse é o fenômeno político importante no Brasil.

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Humberto Pereira da Silva
É professor de filosofia e sociologia no ensino superior e crítico de cinema, autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).



 
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