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ENSINO

A ressurreição do latim
Por Thaís Fonseca

Em três universidades paulistas, o interesse pela língua de César, Cícero e Sêneca tem aumentado a cada ano

Há cerca de nove anos, uma lei promulgada pelo MEC desobrigou as universidade de ensinarem latim. Houve quem acreditasse que esta língua desapareceria por completo das escolas. No entanto, ocorreu o contrário: considerada uma “língua morta”, o latim vive uma verdadeira ressurreição -ao menos na USP (Universidade de São Paulo), na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e na Unesp (Universidade Estadual Paulista)..

A lei em questão, de 1997, substituiu os chamados “currículos mínimos federais” por “parâmetros curriculares”, ou seja, orientações gerais para a composição dos cursos. Foi então que o latim deixou de ser obrigatório no curso de Letras. Algumas faculdades tiraram a língua da grade curricular. Outras, como a USP, Unicamp e Unesp, mantiveram-na e, agora, se surpreendem com o aumento do número de alunos e o interesse das pessoas.

O número de alunos matriculados, fornecido pelas três universidades, mostra esse crescimento. Na Unicamp, por exemplo, as matrículas do primeiro semestre em Latim I, que em 2000 eram 123, em 2005 chegavam a 210. Na USP, na mesma disciplina e período, eram 340 e passaram a 804. Já na Unesp, no campus de Araraquara, o aumento pode ser verificado na disciplina optativa Introdução à Literatura Latina. No primeiro semestre de 2004, eram 22 alunos matriculados. Em 2006, o número subiu para 48. Em todos os casos, são principalmente universitários que têm se interessado pelos cursos.

O fenômeno foi tema de uma dissertação de mestrado de Charlene Miotti, na Unicamp, intitulada “O Ensino do Latim nas Universidades Públicas do Estado de São Paulo e o Método Inglês Reading Latin: Um Estudo de Caso”. Formada em Letras e mestre e doutoranda em línguas clássicas, Charlene considera que um dos principais atrativos é a mudança do método de ensino, há dez anos, que deixou de ser excessivamente concentrado na gramática e passou a priorizar a cultura e a literatura latinas. “Os alunos percebem que o mundo antigo é intrigante e sedutor”, afirma. Ela aponta também o aumento do interesse no curso de introdução à língua latina da Unicamp, aberto à população. A turma é hoje de 14 alunos, mas as inscrições feitas chegaram a 26, número considerado recorde. “O latim tem encontrado um momento bastante favorável”, diz.

A mudança do método de ensino pode não ser a única explicação. Nos últimos cinco anos, por exemplo, livros e filmes que tiveram destaque na mídia podem ter contribuído pela renovação do interesse. É o caso de “A Paixão de Cristo”, uma das maiores bilheterias de 2004, falado em latim e aramaico. Há também o livro “O Código da Vinci”, best seller que se transformou em filme, e colocou em evidência frases e expressões na língua latina.

Nas universidades, os professores divergem sobre as razões do interesse, enquanto se mostram entusiasmados com a maior procura pelas disciplinas relacionadas ao latim.

Para o professor Marcos Martinho dos Santos, da USP, a volta do latim é algo que ocorre dentro da universidade e não tem relação com os produtos culturais divulgados pela mídia. Ele, que está na área de língua e literatura há 16 anos, acredita que as razões para esse fato estejam relacionadas principalmente a questões técnicas. Martinho explica que a maior parte dos professores de línguas clássicas da geração passada eram somente docentes, mas hoje, além disso, são também bons pesquisadores e desenvolveram uma nova metodologia de pesquisa e ensino. “Os alunos percebem que estão lá para se tornarem profissionais, mas que, se também quiserem se tornar professores e desenvolver pesquisa, terão orientação adequada”, diz.

Em relação ao aumento de alunos de fora da universidade, Martinho diz que são pessoas interessadas em assuntos específicos, como a literatura. “Há a teoria do gênero, por exemplo, que é importante para quem estuda literatura, e tudo começa por Atenas, Roma ou Grécia.” Há ainda, entre os exemplos mencionados pelo professor, o interesse pelo gênero judicial, relacionado aos discursos das causas públicas que, por sua vez, estão ligados à literatura latina e à grega. Segundo ele, em alguns países da Europa, está ocorrendo o contrário do que se vê no Brasil. “Em Portugal, os professores de algumas universidades nos dizem que não há procura pela língua latina, e que às vezes até faltam professores. Quando contamos que aqui o número de alunos nessa disciplina tem aumentado, eles ficam admirados.”

Já o professor João Batista Toledo Prado, da Unesp, diz que não acredita que o interesse pelo latim ocorra apenas por aspectos inerentes à universidade. “Por um lado há o ‘milenarismo’, por outro há o movimento político e econômico chamado globalização. Ambos promovem resgate de coisas do passado”, diz. Nesse sentido, ele menciona “O Código da Vinci”: “É fruto dessa tentativa de rever o passado sob uma ótica nova”. Toledo Prado cita também filmes de temática clássica, como “Tróia” e “Alexandre”, e aponta ainda o aumento de publicações relacionadas ao mundo antigo. “O mercado para esse assunto se aqueceu, e as editoras constataram isso.”

O professor Paulo Sérgio de Vasconcelos, de língua e literatura latina da Unicamp, também se anima com o interesse de várias editoras na tradução de livros clássicos, inclusive em edições bilíngues. “O panorama, sob esse ponto de vista, é muito melhor que o de décadas atrás”, afirma. E, apesar de lembrar que também existem muitas traduções ruins sendo feitas, diz que há espaço para as traduções sérias do ponto de vista filológico. “Hoje não há desculpa para não publicar porque as boas traduções encontram seu editor.”

Ele considera difícil de explicar o aumento do número de alunos de latim, mas atribui o fenômeno à mudança do método de ensino. Diz que a geração anterior de professores ajudou a formar pesquisadores empenhados, apaixonados por seu objeto de estudo e que acompanham o que se produz no mundo todo nessa área. “Tudo isso tem efeito de estimular os alunos e acabar com estereótipos, como o de que a língua é sempre associada à Igreja Católica e de que o ensino é massacrante e ineficaz”, afirma.

Quanto ao filme “O Código da Vinci”, que Vasconcelos não tinha assistido, ele diz que ouviu seus alunos contarem sobre os diálogos em latim pronunciados à italiana, isto é, usando a pronúncia tradicional da Igreja. “Filmes como ‘O Código da Vinci’ e ‘A Paixão de Cristo’ atiçam a curiosidade das pessoas sobre a língua latina. Mas acabam reforçando no leigo a idéia de que o latim é coisa de padre, ao passo que se trata de uma língua qualquer, que teve, porém, a sorte de ser o veículo de comunicação de um império que está nos fundamentos da cultura ocidental e que produziu textos literários geniais.”

Vasconcelos se mostra otimista a respeito do ensino da língua latina. “Há uma espécie de efeito de multiplicação: os jovens que agora se entusiasmam pelo estudo do latim transmitirão esse sentimento aos que os cercam, e a curiosidade pela área só vai aumentar.” Para ele, não é à tôa que o fenômeno esteja ocorrendo nesta época de pragmatismo e competição feroz: “Os jovens têm descoberto que seu estudo pode ser fascinante, agradável e gratificante. Como acontece com os melhores frutos do espírito humano, esse interesse jamais morrerá.”

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Thaís Fonseca
É jornalista.

 
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