|
busca
nos arquivos
|
1
audiovisual
CINEMA
A sombra de Dostoiévski ![]() Jonathan Rhys-Meyers e Scarlett Johansson em cena de "Match Point", de Woody Allen
Foto: Divulgação Filmes de Woody Allen, Haneke e De La Iglesia reproduzem a idéia explosiva de “Crime e Castigo” “O homem extraordinário tem o direito (...) de permitir à sua consciência passar por cima de diferentes obstáculos, e unicamente no caso em que a execução de sua idéia (às vezes salvadora, talvez, para toda a humanidade) o exija.” Como é praxe na história do pensamento, o conteúdo da fala de Raskólnikov, o protagonista de “Crime e Castigo”, romance de Fiódor Dostoiévski, diluiu-se ao longo dos anos entre as citações conhecidas da cultura de massas. Mesmo assim, sua matriz ainda é capaz de causar muito estrago. Exemplo disso é a forma como vários cineastas trataram do tema recentemente. Apenas entre os que estrearam filmes no Brasil no primeiro semestre, foram quatro: Woody Allen, com “Match Point” (que está sendo lançado em DVD); Michael Haneke, com “Caché”; Julian Fellowes, com “Mentiras Sinceras”; e Alex de la Iglesia, com “Crime Ferpeito”. O primeiro conta a história de um americano pobre e inteligente que, para manter o casamento com uma inglesa rica, precisa eliminar um antigo caso amoroso. No segundo, um bem-sucedido apresentador de televisão é beneficiado por uma morte violenta, que o livra do confronto com um passado obscuro. No terceiro, um marido ajuda a mulher a ocultar um crime no qual, de modo enviesado, ela foi cúmplice do amante. O último é uma comédia sobre um vendedor promovido depois de matar acidentalmente um colega de trabalho. Em comum, pelo menos em algum ponto de suas tramas, todos eles põem em cena um protagonista dividido entre sentimentos opostos: a culpa por um crime ou omissão, de um lado, e a percepção imediata das vantagens daí nascidas. Dostoiévski tratou o tema com uma abordagem filosófica, aproveitando exemplos históricos que Raskolnikóv cita em sua tentativa de justificar o assassinato de uma velha para quem devia uma quantia impagável. Se grandes vultos como Napoleão eliminaram exércitos inteiros em nome do seu objetivo, diz o protagonista, é natural que também ele, outro “homem extraordinário”, precisasse sacrificar uma vida desprezível. Os filmes de Allen, Haneke, Fellowes e De la Iglesia não chegam a tais alturas, mas reproduzem a essência dessa idéia explosiva. Tanto no caso de “Match Point” quanto no de “Mentiras Sinceras”, a transposição é bem identificável. Os dois são thrillers psicológicos de linha hitchcockiana, para a qual o mote de “Crime e Castigo” está longe de ser novidade. A racionalização do crime é uma conseqüência do acaso: uma gravidez imprevista, no filme de Allen, e um acidente de carro, no de Fellowes, desencadeiam os impulsos de sobrevivência do criminoso. Para quem lembra da cena em que Raskolnikóv mata a velha usurária, o roteiro é praticamente o mesmo. O que vem depois, guardadas pequenas diferenças, também: se Dostoiévski se empenha em mostrar como, de fato, o mundo não perdeu nada com o desaparecimento da vítima de seu protagonista, “Match Point” e “Mentiras Sinceras” fazem o espectador acompanhar cada passo dos criminosos -e, claro, torcer pelo sucesso de suas estratégias de fuga e despiste. Nessa identificação, como se sabe, reside um velho paradoxo moral do cinema. Em sua versão mais inocente, que vem dando o tom dos westerns clássicos ao moderno filme policial, é o que faz com que tacitamente aprovemos a conduta do infrator. Talvez não haja grande pecado aí: ninguém está ratificando o crime na vida real ou algo do gênero, apenas fazendo um jogo vicário nos estritos limites da trama, dentro dos quais desejamos que o culpado não seja apanhado. Só que há um modo mais radical de chegar ao mesmo resultado: em “Match Point” e “Mentiras Sinceras”, a torcida não se dá apenas por um mecanismo imediato de solidariedade com um personagem que acompanhamos, o que é natural em qualquer narrativa. Não é apenas uma questão de charme do bandido, o que também é esperado. Nos dois filmes, como em Dostoiévski, trata-se menos de aceitar do que de ansiar pelo mal. Quando a ex-amante grávida procura o protagonista de “Match Point”, colocando-o numa situação sem saída, ou quando a mulher conta ao marido sobre o acidente em “Mentiras Sinceras”, o crime e seu acobertamento aparecem não como uma inevitabilidade, e sim como um imperativo. Torcer pelo status quo, em tais histórias, é fazer uma opção ativa diante de um dilema. Para que tudo acabe como parece melhor -as famílias unidas, a inteligência recompensada, os personagens abomináveis mortos-, é preciso que releguemos conscientemente a um segundo plano um fato, ato ou omissão monstruosa. Em “Caché”, por exemplo, a ordem na vida do protagonista -um intelectual bem-sucedido e bem-casado- só pode ser reestabelecida com a eliminação de uma vida incômoda -no caso, a de um imigrante argelino com uma velha dívida de infância a cobrar. Embora o filme tenha sido visto pela crítica como obra política, por tratar da vingança de um “excluído” contra a França branca e integrada, parece ser nos ecos de Dostoiévski que reside boa parte de sua força. Da mesma forma, “Crime Ferpeito” esconde por baixo de uma típica comédia espanhola -colorida, passional e kitsch- a ambigüidade sombria do escritor russo: o vendedor jovem, charmoso e divertido só poderá ser feliz se eliminar um concorrente careca e sem graça, primeiro, e uma mulher feia e dominadora, depois. Pouco importa se por acaso ou deliberação, o fato é que esse é também o desejo agudo do espectador, muito além da passividade exigida numa cena rápida em que o caubói vilão mata o xerife. O que admitimos com todas as letras, a exemplo de Raskolnikóv, é que uma vida pode, sim, em determinadas circunstâncias, ter mais valor que outra. É uma conclusão imoral? Depende do ponto de vista. Quando Dostoiévski pôs o conceito do “homem extraordinário” na fala de Raskolnikóv -semelhante, como já se disse muitas vezes, ao do “super-homem” nietzscheano-, é provável que estivesse plantando uma semente maligna: seria esse individualismo radical que, paradoxalmente, ao transferir a idéia de superioridade para toda uma raça, seria distorcido e radicalizado no coletivismo nazista. A intenção de “Crime e Castigo”, no entanto, parece ser bem outra. O livro é narrado numa chave crítica -tanto que, ao final, seu protagonista é punido e redimido por sentimentos nobres. Da mesma maneira, os filmes de Allen, Haneke, Fellowes e De la Iglesia não pregam ou endossam nenhuma conduta abjeta, apenas nos mostram algo desconfortável: o quanto também somos capazes de desejar o mal. Que lições tirar daí? Talvez as melhores possíveis. A primeira é uma obviedade que não escapa a Raskolnikóv: o caráter civilizador da justiça dos homens, capaz de punir seus excessos pelo que são como atos, independentemente de suas justificativas. Somos capazes de simpatizar com o personagem de “Match Point”? Até pode ser. Somos capazes de mentir diante da polícia para proteger um ente querido, como em “Mentiras Sinceras”? Na maioria dos casos, provavelmente. Mas isso não significa que possamos abdicar de um sistema que limite esses impulsos para preservar um convívio social mínimo. “Não se deve concluir que Newton teria o direito de matar qualquer pessoa que lhe desse na telha”, diz o anti-herói de “Crime e Castigo”. Se Newton precisar matar para descobrir a lei da gravidade, ficamos com os benefícios da descoberta e deixamos a justiça decidir sobre os motivos de seu autor. A segunda lição, embora também seja uma obviedade, é mais difícil de ser admitida. Se até em casos extremos somos capazes de valorar diferentemente a vida de duas pessoas pelos motivos mais fúteis -melhor que morra o sujeito careca do que seu rival charmoso-, é evidente que em esferas menos dramáticas isso também acontece. E com bem mais intensidade. Nos pequenos julgamentos íntimos que fazemos a respeito dos outros -automática e incessantemente, no trabalho e na vida privada-, cada indivíduo corresponde, sim, a uma escala única. Qualquer tentativa de igualar essas diferenças vai contra a própria natureza humana. É certo que se pode e deve atenuá-las com convenções sociais -a etiqueta, a moral pública, a lei-, mas sua essência última não muda. Num tempo em que é de bom-tom negar tal essência com os argumentos totalizantes do politicamente correto, não deixa de ser um ponto de chegada bastante subversivo. Os quatro filmes aqui citados têm muitos defeitos, que vão do pouco apuro formal de “Match Point” -no qual um suposto campeão de tênis bate bola como um amador- a um certo oportunismo de Caché -que força um pouco a barra ao incluir em sua trama o problema dos imigrantes. Pelo menos no campo das idéias, contudo, é certo que todos cumprem uma tarefa inerente à grande arte: a de revelar ou reafirmar aspectos obscuros sobre nós mesmos. O que fazer com o insight é problema do espectador. A admissão das diferenças tanto pode gerar a guerra quanto, se houver um pouco de inteligência no caminho, um grau bastante mais razoável de tolerância. . Michel Laub
1
|