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CINEMA
Zidane 24 quadros por segundo ![]() Cena de "Zidane - Um Retrato do Século 21", filme de Philippe Parreno e Douglas Gordon
Divulgação O jogador é a estrela de um filme experimental lançado na França pelos artistas plásticos Philippe Parreno e Douglas Gordon Zinedine Zidane já era o maior ídolo da torcida francesa, a grande esperança da França neste mundial e se tornou o carrasco da Seleção brasileira. A partir de agora, ele é também o atleta-cobaia de uma experiência audiovisual única, o documentário “Zidane - Um Retrato do Século 21”, da dupla de cineastas Philippe Parreno e Douglas Gordon, artistas plásticos e videastas que já expuseram nos maiores museus de arte contemporânea do mundo. O ensaio-documentário Zidane foi capa do mês de junho da prestigiada “Cahiers du Cinéma”, aposta mensal da revista contra sua concorrente “Positif” para ver quem dá destaque ao filme mais improvável ou cinefilicamente incorreto (a “Positif”, por sua vez, ilustrou a sua capa com a animação “Carros”). Os “Cahiers” chamaram “Zidane - Um Retrato do Século 21” de uma “quimera de retratistas, que agenciam cada camada da imagem como se fosse uma pincelada de uma obra de arte”. Segundo a revista, os diretores fizeram uma visita coletiva com a equipe do filme ao Museu do Prado para apreciarem telas de Goya e Velazquez antes de iniciarem as filmagens. O filme, que está em cartaz na França desde antes da Copa, é um exaustivo trabalho de montagem de um único jogo (Real Madrid x Villareal, no dia 23 de abril de 2005). Zidane é o único jogador para o qual converge a atenção dos diretores e dos espectadores. Só tem Zidane no filme, do início ao fim, na maior parte do tempo filmado em planos extremamente fechados. É justamente essa aposta estética que distingue o filme de qualquer outro retrato/portrait de um esportista feito pelo cinema: um efeito de “blow up”, emprestado da fotografia, deixa os demais jogadores (Ronaldo, Roberto Carlos, Beckhan…), a torcida e até mesmo a bola em segundo plano, quase sempre transformados numa massa desfocada, uniforme e sem personalidade. Os amantes de futebol não vão necessariamente apreciar o filme, já que a obra é a antítese absoluta da pasteurização formal em que se transformaram as transmissões televisivas dos jogos de futebol. Já os amantes de documentários ousados, que fogem unicamente às previsíveis entrevistas para traçar o perfil de uma personalidade ou artista, estes vão estar bem servidos. Seria impensável fazer um filme minimamente interessante de 1h30 somente com imagens de um único atleta se não fosse o trabalho de montagem, inclusive sonora, à qual o filme se consagra. As manipulações dos diversos sons, ruídos ou barulhos que povoam o universo de um estádio de futebol contribuem para dar variedade narrativa a cada minuto do filme. O montador Hervé Schneid, colaborador de Jean-Pierre Jeunet, que antes havia feito filmes de montagem frenética, como “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” ou “Alien 4”, realiza aqui um trabalho completamente distinto dos seus filmes anteriores. O ritmo do filme, lento para uma partida de futebol, acaba vindo mais da relação entre as imagens e os sons do que da ação interna de cada plano. Zidane pode correr de um lado para o outro, cabecear, chutar para o gol, correr, suar a camisa. Ainda assim, a impressão que fica na cabeça do espectador está mais próxima da magia lenta de uma partida de tênis ou de um jogo de golfe do que do frenesi de uma partida de futebol. Quando se tem um material bruto como as imagens de um jogo de futebol nas mãos, tarefa quase impossível é transformá-lo em algo que escape aos planos abertos e câmeras lentas dos detalhes de um ou outro lance imperdível ou de uma topada mais brutal entre os jogadores. É isso que faz o filme ser uma obra ainda mais convincente e menos atada a gêneros cinematográficos preestabelecidos. Ao escaparem do uso da câmera lenta, os diretores evitam transformar as evoluções do futebol-arte de Zizou em incomensuráveis barrigas narrativas. Zidane evoluiu no seu palco de maneira natural, e não de forma pseudonaturalista (que segundo a gramática do cinema-espetáculo contemporâneo recorreria à montagem para tapar os buracos dos tempos mortos ou sem conteúdo narrativo útil). Por mais de 15 vezes, vemos o jogador cuspindo, soltando alguns “hey, hey” aos companheiros de equipe, trocando um sorriso com Roberto Carlos, ajeitando as meias. Aí está todo o interesse do documentário: mostrar que pode haver beleza e poesia mesmo em momentos de aparente banalidade. . Pedro Maciel Guimarães
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