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audiovisual
ALTA MODERNIDADE

O cinema como ato de dissidência
Por Carlos Adriano


Os diretores Danièle Huillet e Jean-Marie Straub em seu apartamento em Paris
Foto de Bernardo Vorobow

Um encontro com Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, em Paris, após a pré-estréia do filme “Estes Encontros com Eles”

“Estes Encontros com Eles” é o nome do novo filme de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. A pré-estréia, apenas para convidados, aconteceu em Paris, no começo de abril. Três dias depois, o produtor e curador de cinema Bernardo Vorobow e eu fazíamos uma visita ao apartamento parisiense do casal -nosso encontro com eles é o mote deste artigo.

Movimentos opostos configuram imersões no mundo de Huillet e Straub (mundo de sua arte e mundo de seu convívio): para assistir ao filme, descemos vários degraus até a sala catacúmbica de um cineclube perto do Arco do Triunfo; para encontrar os diretores, subimos quatro lances de uma vertiginosa escada espiral de um prédio nos arredores de Montmartre.

Straub nos diria que, quando fazem um filme, “uma das tarefas é achar imagens que não bloqueiem a imaginação do espectador”. Eles são diretores que praticam uma reflexão lúcida e exigente sobre a essência do cinema. O que é uma palavra falada? E um som? O que é um corte? E um movimento de câmera? O que é um plano? O cineasta argumenta que “um filme não deve significar nada porque, se significa qualquer coisa, só pode confirmar e confortar as pessoas em seus clichês”.

Militando por um cinema radical e sem concessões há quase 40 anos, Straub e Huillet são autores de filmes tão desconcertantes quanto intransigentes, que configuram um capítulo incontornável, singular e à margem na história oficial da arte e da indústria do filme. Artistas ao extremo, constituem um dos raros casos aos quais pode ser aplicado realmente a qualidade definidora de “revolucionários”.

Danièle Huillet e Jean-Marie Straub não fazem apenas cinema (como se não bastasse ser um dos mais belos do mundo, para além dos já gastos epítetos de “puro e duro”, “asceta e único” etc.), mas também realizam um acontecimento estético (filosofia da arte) e ético (filosofia da política). Provocam uma intervenção. Um cinema que não mostra fatos, mas um processo. Poética de cinema. Dialética do esclarecimento.

Não seria despropósito evocar, pela menção dos títulos de seus filmes, o espírito geral de uma obra fílmica que se faz de citações (grandes obras da literatura e da pintura são a base de seus filmes). Os títulos (e subtítulos) destes filmes definem um manifesto de cinema e uma posição de vida: “Da Nuvem à Resistência”, “Relações de Classes”, “Lições de História”, “Toda Revolução É um Lance de Dados”, “Os Olhos Não Querem Sempre se Fechar”, “De Hoje para Amanhã”, “Não Reconciliados”.


Encontro/confronto

Jean-Marie Straub nasceu em Metz, em janeiro de 1933. Acompanhou as filmagens de “La Tour de Nesle”, de Abel Gance, “French Cancan” e “Elena e os Homens”, de Jean Renoir, “Le Coup du Berger”, de Jacques Rivette, “Um Condenado à Morte Escapou”, de Robert Bresson, e “Une Vie”, de Alexandre Astruc. Em 1958, saiu da França e foi para a Alemanha, condenado por se recusar a servir na Argélia. Pensava ser professor de gramática, mas tinha uma obsessão, que não era fazer cinema, mas um filme específico: “Crônica de Anna Magdalena Bach” (1967).

Danièle Huillet nasceu em Paris, em maio de 1936 (“programaticamente”, num Primeiro de Maio). Criou-se no campo e depois retornou à capital. Foi reprovada no exame do IDHEC, a então prestigiosa escola de cinema da França. Projetaram “Manèges”, de Yves Allégret, para ser analisado, e ela devolveu a folha em branco, apenas com três linhas em que dizia ser um escândalo mostrar um filme tão ruim e pedirem uma análise (hoje ela até acha o filme divertido, com a atuação de Simone Signoret).

Jean-Marie e Danièle se conheceram em Paris em novembro de 1954 e estão juntos, inseparáveis, desde então. Desde 1969, vivem na Itália, mantendo um apartamento em Paris. Seus filmes de alta modernidade procedem pela instauração de um encontro/confronto: dos cineastas com a obra de outros artistas (livros, pinturas, músicas), do enquadramento com o som, dos atores com o texto, dos espectadores com os filmes. Encontro com o filme, encontro com eles; encontros acumulados de outros encontros, cartas, telefonemas, leituras. “O cinema consiste em surpreender uma coisa que não mais se repetirá”, nos revelou Straub. E o que é o cinema, se não uma terra da descoberta?

“Os filmes que pretendem facilitar o trabalho dos espectadores não servem para nada, eles continuam tão desarmados diante da vida quanto antes”, assim reza um dos ideais do casal. Com rara coerência, seu trabalho faz tabula rasa de todo o dispositivo gramático e ideológico do cinema. Por uma forma metódica e ritual, seus filmes são tão materialistas quanto transcendentes (ou de uma imanência espiritualizada). Não oferecem prazeres fáceis. Mas se a exigência tem um preço, ela também tem uma recompensa.

“Estes Encontros com Eles”, o novo filme, é baseado nos cinco últimos “Diálogos com Leucò” (1947), de Cesare Pavese. Não é a primeira vez que os diretores recorrem a Pavese. “Da Nuvem à Resistência” (1978) também foi baseado em “Dialoghi con Leucò” (e em “La Luna i Falo”, do mesmo autor). Mas este novo encontro talvez seja um dos filmes mais radicais e sem concessões de Huillet e Straub, quase uma súmula concentrada de sua obra.


A voz e a mosca

O filme compõe-se de cinco seqüências, com dois personagens em diálogo, declamando falas em italiano. Numa decupagem de parcos cortes e relevantes variações de ângulos, os atores ficam imóveis, quase nem mexem a cabeça e os braços. Mas parece haver ali mais movimento do que no mais agitado filme de ação. Todo o quadro parece cantar. Além de densos silêncios, ouvem-se no filme a voz cristalina e a respiração dos personagens, os ruídos do vento nas folhas das árvores e das moscas zumbindo.

As cinco seqüências totalizam 66 planos (só consegui fazer esse cálculo graças a um presente que Danièle nos deu, ao fim da visita, e que será revelado depois). Filme de montagem rarefeita mas com cortes precisos a cada plano, com pontos de incisão determinantes. As seqüências dividem-se pela enunciação dos diálogos e os nomes dos atores -o filme foi antes uma peça de teatro, produzida em colaboração com o Teatro Comunale di Buti.

O primeiro diálogo traz Angela Nugara e Vittorio Vigneri. De costas para a câmera quase o tempo todo, olham um vale, com um longínquo monte ao fundo. O “dar as costas” pode indicar uma certa alegoria da relação do cinema com o público, com o mercado. Os dois imortais falam sobre o retorno dos deuses entre os homens, “depois que tanto se lutou para dar o mundo em suas mãos”, com referência a Caos e Cronos.

São imortais perplexos (“Não sei, algo não é mais como antes”; “Não queres compreender que o mundo, mesmo se não é mais divino, propriamente por isso, é sempre novo?”) e certeiros: “Conhece-se a besta, conhece-se o deus, mas ninguém, nem mesmo nós, conhecemos o fundo destes corações. Há até quem, entre eles, ouse se dispor contra o destino. Somente vivendo com eles e para eles é que se prova o sabor do mundo”. Esta seqüência tem oito planos.

O segundo diálogo traz Grazia Orsi e Romano Guelfi. Encostados a uma árvore, Deo e Iacos mofam dos homens: “Nós sabemos as coisas e eles as fazem”; “Eles não seriam homens se não fossem tristes”. E ponderam sobre o caráter sagrado de sua mortalidade: “Visto que de todo modo são mortais, eles dão um sentido à vida se matando”, diz ele; “Se para eles a morte é o fim e o começo, eles deviam nos matar para nos ver renascer”, diz ela.

Ela esboça um horizonte de aproximação: “Mas morrer tem um sentido. Eles morrerão para renascer também, e não terão mais necessidade de nós”. Falam ainda da dependência dos mortais aos deuses, tendo como limite a ficção. Ela diz: “Virá o dia em que eles pensarão sozinhos. E eles o farão sem nós, com uma narração”. Ao que ele reitera: “E será sempre uma narração”. Ele pergunta: “Que quer fazer?”. E ela: “Ensiná-los que podem nos igualar, além da dor e da morte”. Esta seqüência tem 23 planos.

O terceiro diálogo traz Angela Durantini e Enrico Achilli. Numa gruta subterrânea, o par de deuses discute como os mortais vêem a natureza e violam a vida (“Quando souberem que estão condenados, tanto quanto estão, passarão a festejar”). Para ele, “sabem fabular, os mortais”, que “ousarão matar os deuses para vê-los ressuscitar”. Ela não sabe qual vida os deuses podem dar a eles: “Não sabemos nem mesmo morrer. Tudo que sabemos é olhar. Olhar e saber”.

Para ele, os deuses são “em suma a vida para os mortais. Suas estações se reduzem às festas, e nós somos as festas. Eles buscarão a vida conosco até o fim”. Mas ela se interroga: “Por que não aprendem a viver como um instante eterno, em sua miséria? Por que não compreendem que sua fraqueza justamente os torna preciosos?”. Ao que ele diz: “Não se pode ter tudo. Nós que sabemos, não temos preferências. E eles, que vivem instantes imprevistos, únicos, não sabem o valor. Eles queriam nossa eternidade”. Esta seqüência tem 13 planos.


Ignorância mortal e sabedoria divina

O quarto diálogo traz Giovanna Daddi e Dario Marconcini. Melete e o pastor Hesíodo falam no monte Hélicon sobre a descontente ignorância mortal e a suprema sabedoria divina. “Tu vistes as coisas no começo”, ele declara. “Por um instante, o tempo pára e a coisa banal é sentida no coração, como se o antes e o depois não existissem”, ela explica. “Tocar as coisas imortais é difícil”, ele reclama. “É necessário viver por elas”, ela ensina.

Ela indaga se o homem imagina como seria a vida dos imortais, e informa: “Cada gesto que fazes repete um modelo divino”. “Mas há a fadiga interminável, o esforço para manter-se vivo, a notícia do mal dos outros, o mal mesquinho”, ele lamenta. E o diálogo assim termina: “Tu falas, Melete, e a ti não posso resistir. Seria suficiente ao menos venerar-te”. E a réplica: “Há outra maneira, meu caro.” Indagando “Qual?”, ele tem a resposta: “Tente dizer aos mortais as coisas que sabes”. Esta seqüência tem 13 planos.

O quinto diálogo traz Andrea Bacci e Andrea Balducci. Dois caçadores num monte falam da natureza e o nome das coisas (“Creio que uma árvore e uma rocha lançada ao céu foram deuses no começo”). É um choque: “Aquela gente não tinha nem o tempo nem o gosto de se perder nos sonhos. Viviam coisas inacreditáveis e nem mesmo se espantavam”, diz um. “Não é fácil viver como se aquilo que chega em outros tempos fosse verdadeiro”, diz o outro.

Um deles crê: “Pense apenas nas intempéries ou nos tremores da terra. E se esse mal-estar foi verdadeiro, também o foram a coragem, a esperança, a descoberta feliz de poderes de promessas de encontros”. E continua: “Creio no que todo homem espera e sofre. Se houve um tempo em que subiram a essas alturas rochosas, foi porque encontrariam algo que não sabemos. Não é o pão nem o prazer nem a santidade. E nós, que vivemos longe, ao longo do mar ou nos campos, foi outra coisa que perdemos”. O outro cobra: “Diz então, qual coisa”. “Tu já sabes. O encontro com eles.” Esta seqüência tem oito planos, e é seguida pelo plano final do filme, o da panorâmica vertical, do córrego ao céu.

O som é um ponto de corte para a imagem: um zumbido de mosca ou um rufar de folhas imantando as sílabas de uma palavra determinam o fim da cena. Um pássaro imprevisto que corta o quadro também é ponte de corte: faz o plano e o filme terminarem. A experiência sonora do ar é arrebatadora, com o som direto captado em dolby digital, mas usado como mono (!). Há uma depuração que aponta o falado como plano audível, só mesmo possível após a escuta do silêncio. Obra e graça de uma precisão elementar.

Exclusiva avant-première, a projeção do deslumbrante “Quei Loro Incontri” (ou “Ces Rencontres avec Eux”) foi uma sessão fechada, para amigos e admiradores do casal, profissionais do setor especializado (críticos, exibidores). O acontecimento de um novo filme de Straub-Huillet se fazia sentir na espera antes da projeção, e a sala de cerca de 80 lugares, apropriadamente uma caverna subterrânea, com largas poltronas estofadas, ficou lotada.


Com toda nossa amizade

O leitor pode se perguntar como dois brasileiros foram convidados para a exibição, únicos espectadores não-europeus de uma privilegiada platéia. Em janeiro, como fazemos sempre desde o primeiro contato, enviamos votos de Ano Novo para Danièle e Jean-Marie e de aniversário para ele. A resposta, “avec toutes nos amitiés”, veio na fotocópia de um impresso de computador, que servia de convite para a primeira projeção do novo filme, com um interrogativo: “si par hasard ... ?!?” (se por acaso?), assim autografado.

 
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