O compositor Maurice Ravel é o protagonista do novo romance do escritor francês Jean Echenoz
O escritor francês Jean Echenoz começou sua carreira em 1979, com “Le Méridien de Greenwich”. Em 1983, seu segundo romance, “Cherokee”, recebeu o prestigioso prêmio Médicis, que recompensa jovens autores de estilo inovador. Seguiram-se títulos importantes, que tiveram boa receptividade da crítica e do público francês, como “Nous Trois” (1992) e “Les Grandes Blondes” (1995). Em 1999, foi recompensado com o principal prêmio literário francês, o Goncourt, por “Je M’en Vais”. Considerado um dos principais escritores franceses da atualidade, Echenoz lançou neste ano o romance “Ravel”. O compositor, que viveu entre 1875 e 1937, é o protagonista do livro.
Apreciador da obra de Maurice Ravel desde jovem, Echenoz não pensou inicialmente em focar o livro na vida e na obra do compositor. Seu desejo era tratar dos anos 1930, que tanto o seduzem. Ravel seria um dos personagens, mas não o principal. Aos poucos, porém, conforme o escritor se aprofundava em suas leituras e na pesquisa de época, o músico começou a tomar conta da atenção do escritor.
O interesse despertado pelo personagem explica-se ainda por traços próprios à escrita de Echenoz, pouco afeito a psicologismos. Assim, ele logo se deu conta de que, apesar do prestígio, da fama e da vida bastante mundana de Ravel, no fundo, pouco se sabe sobre o compositor. “O que eu apreciei, e que começou a me interessar muito, é que há nele tão pouco de psicologia demonstrativa, tão pouco de histeria, que progressivamente eu tinha a impressão que havia algo de comum entre a percepção que eu tinha dele e, num romance totalmente fictício, a percepção um pouco antipsicológica que eu tenho dos personagens que invento”, disse Echenoz.
A narrativa deveria limitar-se, inicialmente, à longa e extenuante turnê do compositor pelos Estados Unidos, em 1928. Mas Echenoz acabou considerando o acontecimento insuficiente e decidiu cobrir os dez últimos anos da vida de Ravel, desde a viagem americana, representativa do período de sua maior glória e da internacionalização do seu nome e da sua obra, até a sua morte, em 1937. A viagem pelos Estados Unidos é, contudo, um momento maior, que o escritor decide sublinhar. Ela ocupa, efetivamente, metade do romance.
Os outros nove anos e meio que precedem a morte de Ravel ficam com a outra metade. E Echenoz insiste: não se trata de uma biografia, nem de um romance histórico, nem mesmo de um reflexo romanesco da biografia. Seu desafio é outro -trazer Ravel para dentro do seu universo literário, transformá-lo num de seus personagens, incluí-lo numa de suas tramas. O desafio é de monta, pois Ravel é o primeiro personagem “real” de Echenoz, e o seu gosto pela precisão obriga-o a respeitar os ditos e feitos do compositor, mantendo-se ao mesmo tempo próximo à “realidade” e fiel ao seu projeto romanesco.
As frases que Echenoz atribui a Ravel foram tiradas da correspondência pessoal do compositor, depois de um longo trabalho de documentação, e surgem no romance asseguradas pela extrema preocupação do autor com a precisão narrativa, uma de suas principais características. Não por acaso, um dos críticos chamou Echenoz de “relojoeiro-gramático”.
Pode-se dizer que o exercício literário desenvolvido por Echenoz ao longo de sua obra toca, aqui, num ponto paradigmático. Pois sua escrita, sistematicamente balizada pela descrição precisa, pormenorizada e verossímil dos espaços por onde passa a narrativa, faz reinar objetos, utensílios, trecos, acessórios, formas e medidas.
Eis como ele abre o segundo capítulo, quando Ravel embarca para sua turnê: "Quanto ao transatlântico France (…), é uma massa de aço cravado, coberta por quatro chaminés das quais uma decorativa, bloco de duzentos e vinte metros de comprimento e vinte e três de largura, que deixou já há vinte e cinco anos os ateliês navais de Saint-Nazaire-Penhoët. (…) Contando com seus vinte e dois mil e quinhentos tonéis, propulsionado a uma velocidade média de vinte e três nós por quatro grupos de turbinas Parsons, que alimentam trinta e duas caldeiras Prudhon-Capus, desenvolvendo quarenta mil cavalos-vapor, seis dias lhe bastarão para atravessar o Atlântico calmamente”.
Nesta quase obsessão pela descrição das coisas do mundo, Echenoz chegou a referir-se ao "prazer físico" que lhe traz o "trabalho da escrita sobre os objetos", tratados como matéria (literária) e como marcadores do tempo. Assim, a decisão de trazer Maurice Ravel para dentro de um registro puramente ficcional redobra os pressupostos de precisão e verossimilhança -deleites do escritor-, visando à intensificação do efeito poético tirado do tratamento seco, enxuto e matemático do material romanesco. “Ravel” é, desse ponto de vista, um produto radical da escrita echenoziana.
Trazer o mundo material ao centro da cena romanesca não é evidentemente um fim em si, mas o modo escolhido para traduzir um ambiente, uma época, um estado de espírito e para caracterizar os personagens. Quando Ravel atravessa o Atlântico rumo aos Estados Unidos, ele toma um dos vapores que na época ligavam com maior frequência e velocidade a Europa às Américas, transportando as elites viageiras em suas confortáveis e luxuosas primeiras classes.
Além da descrição técnica de aspectos do maquinário e dos aparatos elegantes do transatlântico, Echenoz narra o quotidiano da travessia, os menus servidos, os espaços freqüentados, as ocupações a bordo. Quanto a Ravel, somos introduzidos a seus hábitos alimentares, seu trajar, suas pequenas manias, sua intimidade corporal e às (raras) conversas das quais participa. Desenha-se assim, progressivamente, o retrato de um homem solitário, ranzinza e egocêntrico, entediado durante o dia, insone durante a noite, mas sempre extremamente (pre) ocupado com a própria apresentação física e impecavelmente bem vestido. A ambientação é construída, voluntariamente, sem relevos psicológicos. "Para dar conta da psicologia do personagem, prefiro mostrar materialmente sua relação ao mundo, às situações, às pessoas, acreditando na hipótese de que se pode deduzir alguma coisa de sua personalidade estritamente a partir do relato do seu comportamento", afirmou o escritor.
Essa ausência de olhar psicologizante concerne também o gênio criador do compositor. Pois Echenoz nos conduz, numa narrativa sempre sem relevos, pela vida corriqueira de Ravel, freqüentemente marcada pelo tédio, em sua casa, no convívio com as poucas pessoas próximas, entre homenagens e desavenças, concertos e viagens, até o momento em que conclui seu “Boléro” ("essa coisinha em ut major que, ele ignora, fará sua glória").
O processo de criação literária descortina ainda a existência de mais um ponto nodal nesse encontro entre o escritor e o compositor. Pois vemos o protagonista afirmar seu gosto particular por autômatos, máquinas, fábricas e paisagens industriais. E, mais precisamente, “em todo o caso, existe uma fábrica que atualmente Ravel gosta de olhar (…) ela lhe dá idéias. Pronto: ele está compondo algo que é do domínio do trabalho em cadeia".
A irregularidade, a indefinição, as sinuosidades estão ausentes da escritura de Echenoz. Se este não busca inspiração no trabalho em cadeia, não deixa de introduzir na narrativa, prazeirosamente, máquinas, engenhocas e mecanismos, cujas descrições vêm pontuadas de termos técnicos. O resultado é uma narrativa condensada, que tira sua força da materialidade mediadora do relato do mundo. Uma narrativa tão sistemática quanto a obra-prima do compositor que seu autor escolheu retratar.
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Mônica Raisa Schpun
É historiadora, pesquisadora e professora do Centre de Recherches sur le Brésil Contemporain, da Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris). É autora, entre outros, de "Beleza em Jogo: Cultura Física e Comportamento em São Paulo nos Anos Vinte" (Senac/Boitempo, 1999).