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a.r.t.e.
BANNERS

Estética da invisibilidade
Por Priscila Arantes

Projeto “Calhau” reúne 25 artistas em uma antiexposição em espaços publicitários de sites

Desde o dia 15 de abril, usuários dos sites Canal Contemporâneo, Erika Palomino, Glamurama, Mix Brasil, Rraul.com e Trópico têm se deparado com banners no mínimo inusitados, desenvolvidos pelos integrantes do projeto “Calhau”.

Concebido por Facundo Guerra e Giselle Beiguelman, a proposta do projeto, que tem direção executiva de Roberta Alvarenga, consistiu em criar uma infiltração ocupando buracos da programação de anúncios publicitários on line e de painéis eletrônicos situados na paisagem urbana, com banners (faixas publicitárias utilizadas na internet) desenvolvidos por 25 criadores que atuam na interface entre arte, mídia e tecnologia (no Trópico, veja os banners no alto desta página, acima do logotipo da revista).


Arte, publicidade e mídia

Como explica o site do projeto, “Calhau é o lado B da mídia: o resto, o refugo, a sobra”. No jargão jornalístico, designa matérias engavetadas e não utilizadas. Na mídia eletrônica, significa o espaço não comprado por anunciantes e geralmente preenchidos com propagandas do próprio provedor. Enfim, na web, calhau é o espaço da comercialização que responde à lógica do mercado capitalista informacional e ao universo do e-biz.

Invadir a grade publicitária da web e da rede eletromídia com trabalhos experimentais, isto é, chamar criadores para ocupar estes espaços-mercadorias é, antes de tudo, criar um gap, uma descontinuidade, como assinalaria Foucault, que aqui funciona como uma subversão na lógica da publicidade on-line.

Roberto Moreno, um dos criadores convidados, comenta: “O ‘Calhau’ é quase anárquico: invade espaços comerciais, ainda que autorizados. MST sem causa: pronto, invadi, tornei útil de acordo com meu ponto de vista, reútil”.

Outro convidado, o artista e professor da ECA - USP, Gilbertto Prado, que atua no projeto em parceria com Fabio Oliveira Nunes, arremata: “O projeto ‘Calhau’ tem um aspecto subversivo muito atraente: perverter a função original da publicidade eletrônica, criando ruído e alcançando leitores destituídos de qualquer expectativa artística”.

Inúmeros artistas já subverteram os códigos triviais da publicidade. Andy Warhol, nos anos 1960, chamou atenção para os ícones da sociedade de consumo. Antoni Muntadas, nos anos 1980, desenvolveu “This is not an advertisement” (Isso não é um anúncio) -uma intervenção realizada em um telão publicitário na Times Square, em Nova York, como parte de um programa de arte pública em que participaram inúmeros artistas.

Impossível de deixar de citar aqui Jenny Holzer em “Protect me from what I want” (Proteja-me daquilo que eu quero), um de seus truísmo que colocava em cena, em um painel luminoso, o consumo excessivo de uma sociedade marcada pela criação de desejos estéreis que só servem para alimentar a lógica do capitalismo.

Em todos estes trabalhos o que se percebe é a utilização criativa e subversiva de espaços geralmente destinados a mensagens publicitárias. Colocam em debate não somente o sórdido funcionamento do discurso do marketing corporativo, mas também sua lógica consumista, em que produtos sempre novos são dispostos nas prateleiras dos supermercados on e off line.

Mais recentemente, e no espaço da internet, podemos citar projetos tais como “BannerArt” e “Neretopia” que, de certa forma, nos remetem ao projeto “Calhau”. “BannerArt reúne banners realizados por artistas e que funciona como uma plataforma de distribuição de banners”, comenta Andrei Tomaz, participante do “Calhau”. Ele acrescenta: “O aspecto infiltração da proposta do “Calhau” é algo que o singulariza”.

“Calhau” se coloca em um espaço paradoxal e talvez este seja o grande trunfo do projeto. Por um lado revela a lógica de funcionamento do e-biz, já que os espaços para a colocação dos banners foram cedidos para o projeto em uma espécie de “infiltração consentida”, como frisa a jornalista Gaia Passarelli, do Rraul.com. Por outro lado, utiliza-se desta lógica de dentro, incorporando as ferramentas do e-biz para subvertê-la.

O “Calhau” atua em feedback: cria um jogo de espelhos que se remetem uns aos outros. Ele não muda a lógica do mundo e-biz. Mas, com certeza, estabelece uma série de pontos de vista permitindo que uma mesma situação revele suas múltiplas facetas, em uma espécie de ready made midiático. “’Calhau’ tem uma relação interessante de tática no sentido de que ele corrompe um espaço de publicidade, e corrompe este espaço aderindo em gênero, número e grau a todas as regras deste espaço”, assinala Beiguelman.


O calhau como interface

Esta tática de corromper o espaço aderindo à sua lógica é, de certa forma, uma das estratégias utilizadas pelo artista Fred Forest, um dos pioneiros da artemídia, no início dos anos 70. Em suas “experiências de imprensa” ele criava “espaços em branco” na mídia impressa para serem preenchidos pelo público assinante com imagens e/ou textos.

As semelhanças com o “Calhau” são evidentes. Contudo, seria interessante destacar as especificidades do “Calhau”, no que diz respeito à lógica de funcionamento da internet. Se na mídia impressa os “espaços em branco” de Forest eram dispostos em lugares específicos e separados do resto da “programação visual” normal do jornal, o “Calhau” propõe, ao contrário, “uma interface total”: desterritorializa segmentos, misturando, em um mesmo espaço, o trabalho experimental com a publicidade. Por este motivo desconfigura a interface do portal e a expectativa habitual dos usuários dos sites.

O “Calhau”, por outro lado, não tem hora marcada para aparecer: sua inserção depende da lógica de programação do banco de dados de cada site. E mais ainda: da conexão de cada usuário. Este é um dos pontos mais interessantes do “Calhau”: a lógica da “invisibilidade” e a “aleatoriedade” que percorrem todo o projeto.

Nesse sentido, o projeto extravasa o campo específico da própria arte e põe em questão as estratégias de consumo e publicidade do universo da web. Para além de uma discussão centrada somente nas questões de linguagem, o que parece estar em jogo são os interesses de mercado e de agendas ideológicas associadas aos grandes meios de comunicação digital e seus usos simultâneos por canais tão diferentes com a arte, a informação e a publicidade.


Estética da invisibilidade

Walter Benjamin, em “A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica”, assinala a desintegração da aura e a metamorfose nas formas de produção e fruição artísticas. Contrariamente ao valor de culto, inerente às produções artísticas auráticas, a produção artística na modernidade é marcada pela lógica da exposição, pela reprodutibilidade em massa.

Já Guy Debord afirma que a sociedade do espetáculo é o ápice da cultura de massa, mas com um ingrediente a mais: o excesso de visibilidade; uma visibilidade falaciosa, em que se busca parecer aquilo que não se é.

Na era da cultura digital, da espetacularização da vida cotidiana, dos blogs, fotologs, orkuts e sites pessoais, a visibilidade alcança seu ápice tornando-se o seu contrário. A lógica do tudo ou nada é a que impera na rede: já que “tudo” está on line, é absolutamente impossível acompanhar o montante de informações disponíveis.

Não por acaso o contrato entre os anunciantes e os sites se dá geralmente pela contagem do número de cliques recebidos na peça publicitária. Não é suficiente colocar o anúncio em um site; é também necessário certificar-se de que ele será “visto”, isto é, acessado.

No caso da lógica da rede, o que se percebe, portanto, é o risco da invisibilidade, risco que o projeto “Calhau” tão bem assimila em seu funcionamento. “Uma das coisas mais fortes desse projeto é justamente desafiar a lógica contemplativa e as expectativas do público. Em tempos em que a interatividade parece ser rótulo imprescindível, me satisfaz participar de um projeto em que o público não tem escolha. Esse jogo com o acaso e a ausência de controle é bastante saudável, ensina as pessoas a lidarem com uma ansiedade comum hoje em dia, um desejo impossível de ser satisfeito, de controlar as informações que circulam em crescimento exponencial pelas redes digitais”, comenta o artista e professor da PUC -SP Marcus Bastos, que também participa do “Calhau”.


Circuito da arte

Um outro aspecto de “Calhau” merece ser discutido, por se tratar de questão crucial nos debates do circuito da arte na contemporaneidade: os novos formatos de exposição de obras que atuam na interface entre arte, ciência e tecnologia. A ruptura com os ambientes tradicionais expositivos, tais como museus e galerias de arte, não é recente. As intervenções urbanas, os grafites, bem como as produções de arte em rede que explodiram nos anos 80, através das produções de fax arte, videotexto e slow scan TV, já colocavam essa discussão.

No que diz respeito às exposições de net arte, geralmente vemos portais desenhados especificamente para este fim: apesar de romperem com a fisicalidade das exposições off line, ainda fazem apelo a uma espacialidade dependente de uma localização específica no ciberespaço.

Do lado contrário situa-se o “Calhau”. Como uma espécie de antiexposição, que se realiza em banners espalhados em diversos sites comerciais, oferece um formato que acompanha a lógica da invisibilidade e da “desterritorialização” característicos da internet.


link-se

Projeto Calhau - http://netart.incubadora.fapesp.br/portal/calhau

Bannerart - http://www.bannerart.org

Canal Contemporâneo - http://www.canalcontemporaneo.art.br

Erika Palomino - http://www.erikapalomino.com.br

Glamurama - http://www.glamurama.com.brX

Mix Brasil - http://mixbrasil.uol.com.br

Neterotopia - http://www.neterotopia.net

Rraul.com - http://www.rraurl.com

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Priscila Arantes
É pesquisadora e crítica de arte e novas mídias, curadora independente, coordenadora do curso de mídias interativas do Centro Universitário Senac e professora da PUC-SP. É autora, entre outros, de "@rte e Mídia: Perspectivas da Estética Digital" e "Arte e mídia no Brasil: por uma estética em tempo digital".

 



 
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