2

Como exemplo privilegiado aqui, o filósofo italiano nos fala de uma atriz pornô, Chloé de Lysses, famosa por seus livros de “porn art”, nos quais ela se deixa fotografar nas cenas mais tórridas com um rosto de leve enfado e indiferença impessoal. Essa seria uma forma de desativar o dispositivo fascinante da pornografia através de uma ação que mimetiza as formas próprias à linguagem pornográfica, mas de uma maneira tal que um certo “distanciamento irônico”, uma certa auto-derrisão é encenada, provocando com isto o estranhamento lá onde esperávamos apenas a repetição fantasmática. Ela age como se estivesse totalmente presa aos códigos da pornografia, mas seu rosto apático nos lembra que ela não está absorta no que faz. Daí a noção de profanação como agir paródico, agir daqueles que fazem aquilo que, no fundo, procuram destruir.

Que, de fato, tal estrutura da ação tenha uma força política explosiva, como quer Agamben, eis algo que, infelizmente, não é totalmente certo. De qualquer forma, há alguém que tentou algo simetricamente semelhante: Judith Butler com sua idéia de que a ação política por excelência estaria no embaralhamento das diferenças sexuais naturalizadas, isto através da performance de gêneros que aparecem como crítica paródica da reificação dos gêneros (Butler pensa especialmente em drag-queens). Ou seja, há uma tendência contemporânea em transformar a paródia como força política.

Mas há um ponto que merece um destaque especial aqui. É fundamental notar que tais perspectivas só podem se colocar como dotadas de forte potencial político por pressuporem uma Lei normativa que procura naturalizar seus modos de aplicação reificando aquilo que ela enuncia, Lei que esconde seu modo de separação entre a coisa e seu regime de aparição na sociedade submetida à lógica da mercadoria, Lei que, por sua vez, teria como correlato a posição de falsas consciências marcadas pelo desconhecimento ideológico. Como se estivéssemos ainda às voltas como figuras da ideologia dependentes das temáticas da reificação, da falsa consciência e da alienação na dimensão da aparência.

No entanto, nada disto é certo atualmente. É bem provável que a contemporaneidade esteja diante de uma situação histórica na qual a própria Lei normativa tenda a funcionar de maneira paródica e auto-derrisória. Este fato está vinculado a uma modificação maior nos modos de operação da ideologia já diagnosticado desde Adorno: a ironização absoluta dos modos de vida e condutas. Ironização que nos coloca diante daquilo que Peter Sloterdijk um dia chamou de ideologia reflexiva, posição ideológica que porta em si mesma a negação dos conteúdos que ela apresenta. Maneira astuta de perpetuá-los mesmo em situações históricas nas quais eles não podem mais esperar enraizamento substancial algum.

Se este for realmente o caso, o que dizer então de práticas políticas que procuram tirar sua força subversiva da paródia em contextos socioculturais nos quais o poder já ri das suas próprias injunções? Não seria o próprio Agamben quem melhor nos mostrou esta auto-derrisão do poder através da compreensão da centralidade da lógica da exceção enquanto suspensão legal da Lei, como se a Lei já trouxesse em si mesma o embaralhamento de seus modos de aplicação? Ele mesmo parece compreender o caráter arriscado de sua aposta, ao reconhecer que “os dispositivos de poder sempre são duplos: eles resultam, de um lado, de um comportamento individual de subjetivação, de outro, da captura deste comportamento no interior de uma esfera separada”. No entanto, o que fazer quando os dispositivos de poder parecem mimetizar nossas próprias ações profanadoras?

.

Vladimir Safatle
É professor do departamento de filosofia da USP e encarregado de cursos no Colégio Internacional de Filosofia – Paris.

 
2