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LANÇAMENTO
Lições de Sade ![]() Leia um trecho do livro sobre o escritor francês publicado pela editora Iluminuras O ponto de partida do ateísmo de Sade é o desamparo humano. Ninguém nasce livre; o homem, lançado ao mundo como qualquer outro animal, está “acorrentado à natureza”, sujeitando-se como um “escravo” às suas leis; “hoje homem, amanhã verme, depois de amanhã mosca” -tal é a condenação que paira sobre a “infeliz humanidade”. Ciente de que as religiões nascem desse sofrimento, o devasso sadiano prefere admiti-lo sem escapatórias para elaborar seu sistema. “Não bastará dar uma olhada em nossa miserável espécie humana, para melhor nos convencer de que nada nela anuncia a imortalidade?”, conclui ele no opúsculo “Do Inferno”. Contudo, como se antecipasse a célebre fórmula gramsciana -“pessimismo da razão, otimismo da ação”-, o libertino procura superar esse desamparo primordial explorando os prazeres do corpo até suas derradeiras potencialidades. A volúpia, ensina o devasso do “Diálogo” ao padre, é “o único modo que a natureza oferece para dobrar ou prolongar tua existência”. Apenas ela pode substituir a consolação que a promessa de vida eterna encerra para atenuar o sofrimento humano, assegurando ao ateu uma outra forma de permanência no mundo. “Tens a loucura da imortalidade?”, pergunta Madame de Saint-Ange a Eugénie em “La Philosophie dans le Boudoir”, lembrando que só o desregramento dos sentidos pode perpetuar o homem no universo. Sem a ilusão de encontrar outro mundo depois de morto, o moribundo do “Diálogo” transforma seu leito de morte em palco do prazer, onde a sensação de imortalidade deixa de ser uma quimera para alcançar o status de experiência. Fantasia derradeira que se produz no corpo do devasso, essa experiência cumpre o que a religião mantém apenas como promessa, realizando a sua loucura. Ao padre, uma vez convertido à libertinagem, resta a tarefa de dar continuidade -de corpo e alma- à subversão das leis humanas e divinas. Eis o que Sade chamará mais tarde, ao escrever “Justine”, de “o triunfo da filosofia”. . Eliane Robert Moraes
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