CINEMA
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audiovisual
CURTAS

As aventuras da Casa de Cinema
Por Fernando Masini


João Acaibe em cena do curta "O Dia em que Dorival Encarou a Guarda" (1986), de Jorge Furtado e José Pedro Goulart
Divulgação

A produtora gaúcha lança em DVD os filmes que fez desde 1984, entre eles "Ilha das Flores"

Depois de testes malogrados, dois atores em começo de carreira brindam com taças de champanhe a decisão de fazer um filme. Os olhares extasiados e a celebração: “Viva o cinema gaúcho!”. O diálogo faz parte do curta-metragem “A Importância do Currículo na Carreira Artística”, dirigido por Ana Luiza Azevedo. É um dos episódios da série “Contos de Inverno”, da emissora RBS. Junto a outros filmes de curta duração, o episódio faz parte de um conjunto de DVDs lançados pela Casa de Cinema de Porto Alegre, com quatro discos. Os filmes testemunham o nascimento de um grupo de diretores que traria um sopro de novidade ao cinema brasileiro.

Três dos DVDs mostram o trabalho inicial dos diretores Jorge Furtado, Carlos Gerbase e Ana Luiza Azevedo. O quarto traz uma compilação de curtas realizados na produtora, como “Um Homem Sério”, que tem o ator Ari França protagonizando a história do comediante Hilário Pestana, e “Continuidade”, premiado no Festival de Brasília, co-dirigido por Rodrigo Portela, Márcio Schoenardie e Daniel Merel.

O grande destaque do pacote é o vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, “Ilha das Flores” (1989), de Jorge Furtado, filme que fez escola e pode ser apontado como um divisor de águas na produção gaúcha. Vários trabalhos subseqüentes do diretor, mesmo em seus longas-metragens, como “O Homem que Copiava”, consolidaram o estilo próprio marcado pelas colagens e pelas combinações de linguagens.

Quase uma década antes de dirigir o curta, Furtado liderou o projeto de criar uma produtora no Rio Grande do Sul. Conquistou a adesão de jovens estudantes, entre eles a diretora Ana Luiza Azevedo, que à época havia sido convidada pelo canal gaúcho TVE para orientar programas infantis. A experiência de produzir documentários para televisão serviu como bagagem para o grupo consumar a idéia e fundar a companhia cinematográfica Luz Produções.

Dessa parceria nasceu o primeiro curta-metragem da trupe gaúcha, “Temporal” (1984), extraído da obra de Luis Fernando Verissimo. Trata-se de uma história de nove minutos sobre a realização de dois eventos na casa de Francisco, numa mesma noite: uma festa de máscaras organizada por uma de suas filhas e uma reunião comandada pelo pai com membros de uma seita cristã.

A chegada de um temporal deixa a casa às escuras, e a cerimônia sagrada é interrompida. No cômodo contíguo, jovens tentam invadir o local onde os adesionistas celebram a seita. A casa é tomada pela lascívia dos adolescentes. O roteiro do curta foi assinado pelos quatro sócios da produtora: Jorge Furtado, Ana Luiza Azevedo, José Pedro Goulart e Marcelo Lopes. A idéia combinada era revezar os diretores nos próximos projetos. “Temporal” está no DVD dedicado à obra de Jorge Furtado.

O passo seguinte foi a criação da Casa de Cinema de Porto Alegre, em dezembro de 1987, que funcionava como uma cooperativa de 11 realizadores. De início, foi um espaço comum para trabalhar a distribuição de filmes. Fizeram parte dessa primeira fase, entre outros, o diretor de cinema José Pedro Goulart e o ator Werner Shünemann. Este último protagonizou os curtas “O Zeppelin Passou por Aqui”, de Sérgio Silva, e “Deus Ex-machina”, de Carlos Gerbase. Ambos estão no box lançado.

Em 1991, a Casa de Cinema tornou-se produtora independente e passou a priorizar o incentivo à realização de curtas-metragens. Boa parte do conteúdo dos quatro discos é dessa fase seguinte. São recorrentes a partir daí os nomes do montador e roteirista Giba Assis Brasil, das produtoras Nora Goulart e Luciana Tomasi e dos diretores Carlos Gerbase, Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo.

O que se vê na tela de singular são locações espalhadas pela capital gaúcha, os diálogos cantados dos atores e o caráter experimental de certos curtas, principalmente em relação à forma narrativa.

No curta “Veja Bem”, de 1994, Jorge Furtado mescla animações, letreiros, encartes de jornais e diversos signos em repetição alucinada para traçar um paralelo entre a fragmentação da vida pós-moderna e o anonimato das pessoas. A imagem de um operário perfurando o solo funciona como uma engrenagem viciada de um grande processo de montagem. Muitas associações entre imagens, sons e vozes parecem comandadas involuntariamente pelo diretor, apesar de sugerir mensagens a todo momento.

Essa estética do decalque pode ser explicada pela afeição de Furtado pelas histórias em quadrinhos. “Se eu soubesse desenhar muito bem, acho que eu preferia fazer histórias em quadrinhos. O quadrinho quase não precisa de intermediações. Você senta na cadeira e já está pronto. Já o cinema precisa de muitas intermediações, é um trabalho árduo de equipe”, disse ele.

Na medida do possível, Furtado tenta fundir essas duas formas de arte e comunicação numa única plataforma. Em “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”, de 1986, dirigido em parceria com José Pedro Goulart, o cabo que tenta solucionar a reivindicação do preso Dorival está sentado numa cadeira lendo história em quadrinhos. O enredo é sobre um pistoleiro que salva uma garota amordaçada no estábulo. Tudo é ilustrado com imagens em movimento -até a cena ser cortada para o rosto do cabo com o gibi em mãos.

O curta intercala também cenas de outros filmes, como o clássico “King Kong”, quando o preso mostra sua fúria ao sentinela esmurrando o portão do cárcere. A intertextualidade e a brincadeira com gêneros do cinema estão presentes em outras obras. Em “O Bochecha” (2002), a diretora Ana Luiza Azevedo mostra a obsessão de uma violinista em levar um tapa e depois um beijo do marido, assim como acontece nos grandes melodramas do cinema.

Ela tenta a todo custo provocar uma situação de discórdia a fim de realizar seu sonho. Cenas de “... E o Vento Levou” e “A um Passo da Eternidade” ilustram o desejo da esposa. Questionar a própria arte e denunciar seus meios de produção são temas recorrentes e bastante utilizados pelos realizadores, como forma de surpreender o espectador por meio da metalinguagem.

Jorge Furtado extrapola essa técnica em “O Sanduíche”, premiado como melhor curta em 2002 no Festival Brasileiro de Miami. Primeiro acompanhamos a aparente separação de um casal. Ela, sentada na cadeira, toma chá, e ele ronda em volta, justificando sua despedida. Uma palavra na hora errada e vem a primeira revelação. Na verdade, trata-se de dois atores em ensaio, decorando suas falas.

Eles avaliam como foi a encenação e repetem a cena com algumas mudanças. Ambos contam sobre casos passados. Ela revela que terminou seu antigo relacionamento porque o namorado não gostava de seus sanduíches com tempero de páprica. Ele também fala do fim de seu namoro, cujo ponto culminante foi quando a mulher chegou em casa vestindo uma calça de couro. O espectador assiste sem saber ao certo se eles continuam ensaiando as falas ou deixaram de atuar.

Os atores então se beijam e surge a voz do diretor dizendo “corta”. Um plano geral do estúdio onde os atores começaram a cena é apresentado ao público, revelando o operador de câmera, os eletricistas e todos os equipamentos de filmagem. Mais uma surpresa. Tudo não passa de encenação. Os atores discutem com o diretor sobre a possibilidade de fazer novo ensaio.

Quando o diretor finalmente ordena o recuo da grua, o plano fica ainda mais aberto e mostra que a cena anterior também fazia parte de uma encenação dos atores. Do lado de fora do estúdio, a platéia acompanha a filmagem do curta na praça pública da cidade. Daí, sim, o “diretor real” aparece. Jorge Furtado apresenta os atores que participaram do filme e colhe opiniões do público que assistiu às filmagens. Por fim, ele ainda manipula as próprias falas dos entrevistados como quem está passando ordens a atores.

Carlos Gerbase adota a mesma linha em “Comprador de Fazendas” (2001), episódio da série “Brava Gente”, da TV Globo. Um diretor de cinema procura locações para adaptar o conto homônimo do escritor Monteiro Lobato. O roteiro do curta de Gerbase é a própria história que Trancoso, o diretor no filme, quer contar: uma família disfarça sua fazenda decadente para tapear o comprador. No caso, o comprador é o diretor interpretado pelo ator Bruno Garcia.

A adoração de Gerbase por Monteiro Lobato vem desde a infância. Antes de fazer filmes, o diretor leu muito e escreveu contos. Escolheu as fábulas do escritor como livro de cabeceira e várias vezes repetiu as histórias de Monteiro Lobato para os colegas na sala de aula. “Naquela época eu me tornei um especialista mirim das obras de Monteiro Lobato”, conta o diretor, em entrevista incluída nos extras do DVD.

Nos seus curtas, o universo é menos infantil e mais viril. Injeta doses de sangue, sedução, mistério e sexo. O personagem interpretado pelo ator Marcos Breda em “O Amante Amador”, dirigido por Gerbase em 2001, dá a atmosfera do ambiente: “Tu vai adentrar no mundo maravilhoso e excitante da sacanagem e do adultério”. Em “Deus Ex Machina” e “Faustina”, a intriga gira em torno de mulheres sequiosas de olhares fatais que tendem a provar o profano sem culpa.

No primeiro curta-metragem, premiado no Festival de Gramado de 1995, uma mulher paralítica testa o comportamento do marido ao contratar uma garota para seduzi-lo e um detetive para investigar sua reação. A desordem temporal, os diálogos entrecortados e as falas invadindo seqüências ajudam a criar certo caos narrativo ao tomar quatro pontos de vista distintos.

Gerbase busca esgotar todos os limites do cinema e utilizar todo o seu repertório possível. “O cinema para mim é uma grande terapia. Mistura muitas coisas que eu gosto: é imagem, é som, é música, é texto, é palavra”, afirma.


Os DVDs

“Curtas da Casa”, caixa com quatro DVDs (R$ 140), podem ser adquiridos no site da Casa de Cinema - http://www.casacinepoa.com.br/port/filmes/caixadvd.htm

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Fernando Masini
É jornalista.

 
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