ELITIZAÇÃO
Novos ricos da música, por Henry Burnett
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ensaio
MÚSICA

Um artista contra a sua época
Por Matheus G. Bitondi

Estudo sobre Mozart feito por Norbert Elias é o melhor antídoto aos estereótipos sobre o compositor propagados pela mídia

Neste ano em que se comemoram os 250 anos do compositor erudito mais explorado pela cultura pop, apresenta-se a nós, músicos e apreciadores, uma difícil tarefa: como distinguir as informações realmente relevantes para a compreensão da obra de Mozart da imensidão de mitos e exageros romantizados que sombreiam a sua imagem? Um ótimo ponto de partida para elucidar essa questão pode ser a leitura de “Mozart - Sociologia de um Gênio” (Jorge Zahar Editor, 150 págs., R$ 25), de Norbert Elias (1897-1990).

Um dos grandes nomes da sociologia do século XX, o alemão Norbert Elias foi também um grande apreciador e entendedor de música. Nesse livro, constituído a partir da compilação de uma série de escritos do sociólogo por seu aluno Michael Schröter, o autor parte da idéia de que a arte de qualquer grande criador só pode ser compreendida se analisado o contexto social em que ele se inseria. Como argumento para sua tese, Elias propõe uma análise da situação social em que Wolfgang Amadeus Mozart viveu e atuou, levando em consideração desde a organização da sociedade do século XVIII até aspectos relativos à vida familiar e à formação do compositor.

Para o sociólogo, a vida de Mozart teria sido marcada por um violento conflito entre seu gênio criativo e uma sociedade que não dava o menor valor para a criatividade. Ao longo dos 35 anos nos quais Mozart viveu, a Europa vivia um momento de transição, marcado pela ascensão da burguesia e pelo declínio do poder da nobreza. Mas, se na França essa transição seria feita de maneira radical, culminando na Revolução de 1789, na Áustria de Mozart ela seria muito mais lenta e gradual.

A situação era ainda mais atrasada na pequena e provinciana Salzburgo, onde o jovem Mozart herdava de seu pai Leopold um modesto emprego na corte do príncipe-bispo da cidade. Ao longo de sua infância, o pai tinha-lhe provido com todos os requisitos para ser um bom músico de corte, o que na época significava ocupar na hierarquia o mesmo posto de um criado ou cozinheiro. Assim, como qualquer artista da época, Mozart deveria compor de acordo com o gosto de seu empregador, além de bajulá-lo como era a obrigação de qualquer criado.

Amparado pelo grande acervo de cartas escritas por Mozart que a história preservou, Elias mostra como essa situação entrava diretamente em choque com o gênio do compositor. Na infância, ele tinha obtido um sucesso excepcional em toda a Europa, como pianista e compositor precoce. Em suas viagens, quase sempre acompanhado de seu pai-professor-empresário, teve contato com compositores e com a cultura musical de vários países, o que lhe tinha garantido uma formação diferenciada.

Quando adulto, todas estas experiências lhe davam a plena convicção de que ele sabia perfeitamente quais caminhos musicais seguir, muito melhor do que o bispo de Salzburgo ou do que qualquer nobre que o pudesse empregar. Assim, tornava-se cada vez mais difícil para Mozart compor uma música de caráter puramente artesanal, engessada em fórmulas triviais, só para agradar pessoas que ele julgava musicalmente ignorantes.

Com o exemplo de Mozart, o sociólogo ilustra a diferença existente entre a arte de artesão, elaborada a partir de modelos impostos ao criador e marcada por uma padronização do estilo, e a arte de artista, composta de acordo com a imaginação livre do próprio criador e caracterizada por um estilo individualizado. Para Elias, a causa da maioria das desgraças que levaram Mozart ao túmulo aos 35 anos e em situação miserável, seria o fato de ele viver em uma sociedade que prezava apenas o artesão, mas na qual ele se portava como um artista -do tipo que só seria valorizado pelo romantismo do século XIX. De fato, ainda hoje damos preferência às últimas obras de Mozart, como as “Sinfonias nº. 40 e 41”, as óperas “Don Giovanni” e “A Flauta Mágica”, o “Concerto para Clarinete em Lá maior” e o “Réquiem”, muitas delas compostas sem que fossem encomendadas por ninguém.

Elias aponta ainda como esta ruptura com o mundo que circundava o compositor se manifestava em sua cada vez mais conturbada relação com o pai. Como todo músico de corte daquele tempo, Leopold era o tipo do criado que, embora não concordasse, se curvava ao patrão e o bajulava. Havia criado o jovem Wolfgang para que se portasse da mesma maneira e arranjasse um emprego semelhante, porém em uma corte mais rica, já que reconhecia seu talento superior. Depositara no filho todas as suas esperanças de ascender socialmente, e via esses sonhos irem por água abaixo conforme o menino crescia e se recusava a seguir seus conselhos e ensinamentos.

Tocando nestes e em outros pontos, Norbert Elias pinta um quadro bem detalhado de Mozart e sua época, quadro este que nos serve de parâmetro para julgar a enxurrada de informações que nos é veiculada pela mídia, interessada mais na imagem estereotipada de um gênio incompreendido, que vende bombons e outros produtos, do que propriamente em sua música genial. Aliás, por meio das análises de Elias, entendemos por que a genialidade de Mozart só pode ser sutilmente percebida em sua música.

Grande parte desta genialidade só pode ser compreendida se levarmos em consideração fatores extramusicais, como a idade em que algumas obras foram compostas, o curto espaço de tempo em que foram concluídas e aspectos da prática comum entre seus contemporâneos. Estruturalmente, suas contribuições para a evolução da música, por assim dizer, não são gritantes como as de um Beethoven ou um Stravinski, principalmente aos ouvidos do século XXI, acostumados a toda sorte de rupturas, inovações e experimentações.

Elas se encontram dissolvidas em sua obra e se manifestam, por exemplo, na inclusão inusual de uma fuga no último movimento de sua “Sinfonia nº 41”, na maneira pessoal como ele ilustra musicalmente as falas e ações em suas óperas e em algumas liberdades na composição de melodias. Ademais, deve-se acrescentar ainda, o fato de Mozart ter contribuído, como nenhum outro compositor, com inúmeras obras-primas para todos os gêneros musicais da época, desde sinfonias e concertos, passando pela música de câmara e para piano solo, até óperas e obras sacras.

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Matheus G. Bitondi
É compositor, mestrando em música pela Unesp.

 
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