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entrevista
TEATRO
A arte de encenar a palavra ![]() O ator Luís Melo
Guga Melgar/Divulgação O ator Luís Melo defende a predominância do verbo sobre o gesto no teatro e diz que o Festival de Teatro de Curitiba deve ser repensado Esqueça cenografias exuberantes. Esqueça, também, o ritmo frenético do corpo do ator, que tenta expandir seus movimentos para além do palco. Na peça “Daqui a duzentos anos”, baseada em contos do escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904), a força-motriz é a palavra. “Achamos que a melhor maneira de comunicar esses contos seria através do resgate dos contadores de história”, afirma o ator Luis Melo. A peça foi adaptada dos contos “O amor”, “A brincadeira” e “O caso da champanhe”. Seu cenário é simples: somente quatro cadeiras estão dispostas no teatro de arena. Diferentemente do que acontece no seu cotidiano apressado, o público senta, escuta e imagina as histórias de amor dos protagonistas dos contos. Para Luis Melo, um dos melhores atores brasileiros, “a opção de limpar o palco, de deixá-lo só com a força da palavra, foi justamente uma maneira de fazer com que o público fizesse sua 'viagem' livremente”. Dirigida por Marcio Abreu, “Daqui a duzentos anos” é a segunda montagem do Ateliê de Criação Teatral, de Curitiba (a primeira foi “Cãocoisa e a Coisa Homem”, de 2002). É o resultado da pesquisa que o grupo fez da obra de Tchekhov, desde fevereiro de 2004, e que contou com a participação, além dos atores, de fotógrafos, artistas plásticos e jornalistas. A estréia do espetáculo foi durante o 14º Festival de Teatro de Curitiba. Na entrevista a seguir, feita ao final de uma das apresentações de “Daqui a duzentos anos”, no Sesc Bauru (SP), Melo fala da força da palavra no teatro e da importância de existirem grupos que possam desenvolver um trabalho de pesquisa teatral. Ele também sugere que o Festival de Curitiba seja repensado. “A curadoria e os grupos têm que tomar consciência de que o festival não é um terreno baldio”, diz. Além de Melo, André Coelho, Marisia Bruning e Edith de Camargo fazem parte do elenco de “Daqui a duzentos anos”. * “Daqui a duzentos Anos” é uma peça sustentada pela palavra, em detrimento de uma encenação mais corporal e de impacto visual. Por que foi feita essa escolha? Luis Melo: “Daqui a duzentos anos” é o resultado de uma pesquisa sobre a obra de Tchekhov que durou seis meses. Nosso objetivo era trabalhar com a palavra. E, dentro de todas as opções que levantamos da adaptação da obra, mesmo dentro das tradições, achamos que a melhor maneira de comunicar esses contos seria através do resgate dos contadores de história. Então, foi feita a opção de não transpor, de não adaptar, os contos no palco, e sim de eles serem ditos dentro da narrativa mesmo, da maneira que foram escritos.
Melo: Pelo contrário. Nós liberamos essas imagens para o público, do mesmo modo que acontece quando alguém lê um livro e tem a liberdade de fazer a sua própria imagem, a sua própria viagem. A opção de limpar o palco, de deixá-lo só com a força da palavra, foi justamente uma maneira de fazer com que o público, a partir de sua experiência pessoal, de suas referências, fizesse a sua “viagem” livremente. E o espectador começa a perceber o quanto é forte o poder da palavra, inclusive até para o próprio imaginário. Trata-se de um espetáculo que possibilita às pessoas criar as imagens mais variadas possíveis dentro de suas referências.
Melo: Devido à velocidade com que as informações chegam, as pessoas perderam o costume de ouvir, de escutar. Não existe mais uma ação do ser humano preparada para a escuta, para receber os estímulos que vêm de fora, para depois haver a resposta. Muitas vezes a informação entra, nem passa pelo organismo da pessoa, e ela já está colocando para fora essa informação, como uma informação verdadeira. Ou, muitas vezes, ela já tem uma opinião preconcebida e não permite que a informação chegue à sua totalidade.
Melo: Eu achei maravilhoso, pois a língua portuguesa é de uma riqueza muito grande. Além disso, ela é base para tantas outras artes, porque a própria palavra é arte: tem uma grafia, um desenho, uma forma, uma música, uma ocupação dentro do espaço, que é pura arte. Então, a palavra tem que estar dentro do museu, por mais estranho que isso possa aparecer. Eu acho, inclusive, incrível a possibilidade de você brincar com a palavra, desestruturá-la, colocá-la onde quer, tirar sons dessa palavra. Isso é bárbaro, pois é uma maneira de as pessoas prestarem mais atenção à sua própria língua.
Melo: É importante para o ator perceber até onde o gesto é realmente necessário para complementar as imagens, os desenhos de uma cena. Ele também tem que notar o quanto o corpo não está desconectado da palavra. O problema é não deixar que o movimento venha na frente e a palavra venha de arrastão. Trata-se de um trabalho de contenção, para que o gesto venha quando ele seja realmente necessário, e não como uma muleta, como um apoio.
Melo: Eles influenciaram por meio de uma visão diferenciada daquilo que o teatro estava nos apontando. Por serem pessoas que não tinham muita ligação com o teatro, e somente o desejo de estudar a obra do Tchekhov, a visão diferenciada deles foi enriquecedora para que pudéssemos desenvolver nosso trabalho. E é sempre bom você lidar com pessoas de outras áreas, porque existem caminhos que não consegue ver ou percorrer, dos quais você começa a tomar conhecimento assim que as pessoas levantam outras possibilidades.
Melo: A atualidade desses contos é uma coisa absurda, porque é de imediata identificação, visto que o ser humano não mudou. As dificuldades de lidar com os sentimentos, com os conflitos, com a compreensão da alma e do comportamento humano permanecem as mesmas. São tantos os sentimentos -solidão, incompatibilidade, o amor que justifica o perdão de outras ações- e você não sabe por que continua suportando isso, a dificuldade de falar sobre essa falta de habilidade para o convívio a dois...
Melo: É um encontro que possibilita aos grupos mostrarem seus trabalhos para que sejam observados, criticados e discutidos. É preciso levar ao público, à crítica e aos outros artistas a pesquisa teatral que um determinado grupo está desenvolvendo, e os festivais cumprem essa função. Além disso, servem, inclusive, como divulgadores desses trabalhos para que eles possam ser vistos, não só dentro dos festivais, mas em outras situações.
Melo: Eu concordo. O Festival de Curitiba tem que ser repensado. A curadoria do festival e os grupos têm que tomar consciência que o Festival de Curitiba não é um terreno baldio. O artista tem a capacidade de saber o que pode ser levado ao público, de que maneira um trabalho pode ser levado e até onde você pode chegar com esse produto. Então, alguns grupos devem esperar até que amadureçam um pouco mais a sua pesquisa teatral para que ela seja apresentada nos festivais. Acho que o festival deveria manter essa característica de vários grupos poderem se apresentar, essa coisa democrática, mas deve ser levado em conta o público. É uma faca de dois gumes. Deveria ter, pelo menos, um critério de avaliação. Existem dois tipos de companhias teatrais: aquelas que a curadoria do Festival de Curitiba já conhece por se apresentarem em outros festivais e aquelas que estão se aventurando. Com essas, deveria haver uma checagem da origem e do que vão apresentar.
Melo: Na realidade, as coisas que você faz não é para você. As pessoas me perguntam: “Qual é a função do teatro?”. Eu respondo: no momento em que você não tem a preocupação de desenvolver um trabalho a partir do que já conhece e passa a explorar o desconhecido, a propor coisas novas, você, de alguma forma, contribui com o trabalho das pessoas de hoje e das que virão depois da gente. Ao mesmo tempo, é pretensioso pensar nisso. Há de se pensar que é somente daqui a 10, 20 anos que a somatória de seu trabalho vai ter alguma importância. Não é um espetáculo ou outro, mas sim o conjunto de todo o seu trabalho, que vai contar. A questão é que somente depois é que vamos descobrir quem veio e ficou e quem era passageiro, se um trabalho se transformou em outra coisa ou se era o início de um trabalho maior. A obra de Tchekov não tem duzentos anos ainda, tem cem, mas continua viva e bastante atual. . Alan de Faria
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