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a.r.t.e.
TEATRO
Sade em cena O grupo teatral Satyros faz uma corajosa e perturbadora montagem de “Os 120 Dias de Sodoma” Encenar Sade é, no mínimo, um desafio. Como criar uma cena teatral que, de alguma forma, corresponda ao escandaloso e alucinante imaginário do autor de “Justine”? Se essa correspondência parece impossível, isso se deve antes de mais nada ao fato de que a cena sadiana sempre transcorre em um lugar outro, de localização incógnita e, sobretudo, sem a menor garantia de realidade. Tome-se, por exemplo, uma das paixões assassinas descritas em “Os 120 Dias de Sodoma”: “Um grande devasso adora dar bailes, mas sob um teto preparado que desaba quando o salão está cheio, provocando a morte de quase todos os presentes. Se vivesse sempre na mesma cidade, seria descoberto, mas muda com freqüência, de forma que só costuma ser descoberto depois do qüinquagésimo baile”. Cenas como essa são, não só constantes em Sade, mas também características da sua ficção. Tome-se ainda, para não ficarmos num só exemplo, outra modalidade de paixão que o mesmo romance apresenta de forma tão direta quanto sucinta, para perturbar a boa consciência do leitor: “Um incestuoso, grande apreciador da sodomia, para reunir esse crime ao de incesto, de assassinato, de estupro, de sacrilégio e de adultério, se faz enrabar por seu filho com uma hóstia no cu, estupra a filha casada e mata a sobrinha”. Com certeza, bastam apenas duas das 600 paixões examinadas no livro para se perceber que a dimensão fantasmática dessas passagens é de tal natureza que qualquer tentativa de representação fica condenada ao malogro. Como já observou Roland Barthes, “Sade não é de modo algum figurável” pois sua fantasia, a rigor, só pode ser escrita, e não descrita. Por isso mesmo, o imaginário sadiano parece estar sempre entregue à literatura, sem dúvida a arte que mais se presta a presentificar fantasmas, já que os remete invariavelmente a uma cena mental. Sendo um tecido de palavras, o texto literário pode desrealizar qualquer experiência. Ou, como prefere Georges Bataille: “A literatura é inorgânica. Pode dizer tudo”. Ora, é justamente o desafio de transpor para o palco o “tudo dizer” do terrível marquês que Rodolfo García Vazquez e sua corajosa trupe enfrentam ao adaptar “Os 120 Dias de Sodoma”, peça que acaba de estrear em uma das salas paulistanas dos Satyros. Desafio que o diretor vem enfrentado há muito tempo, pelo menos desde sua primeira adaptação de “A Filosofia na Alcova”, no início dos anos 1990, que foi objeto de sucessivas montagens do grupo de lá para cá. Trata-se, portanto, de um encenador que tem intimidade com o texto de Sade, o que por certo representa um bom ponto de partida nessa ousada empreitada. Com efeito, quem vem acompanhando as montagens sadianas dos Satyros ao longo desses 15 anos percebe claramente mudanças fundamentais nos espetáculos, as quais devem ser creditadas não só ao processo de maturação do grupo, mas também à freqüentação assídua dessa obra. Assim, a cada nova peça, o que se divisa na relação da trupe satiriana com o libertino é uma aproximação cada vez mais cautelosa, cujo resultado é uma encenação cada vez mais sofisticada. Vale lembrar, nesse sentido, que as montagens de “A Filosofia na Alcova” tendiam a um certo naturalismo, que foi abandonado nos “120 Dias” para ganho do espetáculo. Havia, nas primeiras, uma intenção de “fidelidade” ao texto sadiano que, embora corajosa, acabava por lhe dotar de excessiva realidade. É bem verdade que o romance de 1795, estruturado em forma de diálogo teatral, possibilitava uma leitura mais realista, permitindo tal desembocadura. A passagem à cena era, por assim dizer, mais “natural” nesse livro, uma vez que seus personagens efetivamente buscavam representar os discursos filosóficos, propondo uma espécie de demonstração física do ateísmo no interior da lasciva alcova. Já nos “120 Dias”, de 1785, essa relação parece se inverter: conforme a narrativa progride, a encenação levada a termo no castelo de Silling vai se tornando cada vez menos real, até o ponto de se transformar em pura irrealidade. Cosa mentale, poderíamos dizer, não fosse a insistente evocação do corpo que singulariza a filosofia libertina do marquês. Seja como for, esse teatro de paixões sexuais que inaugura a obra sadiana só pode ser compreendido como uma alegoria fantasmática, que recusa por princípio qualquer interpretação realista. Algumas das soluções criadas por Rodolfo García Vazquez contemplam perfeitamente essa perspectiva, a começar pela notável caracterização dos quatro libertinos, reforçada pelo talento dos atores escolhidos. Entre essas soluções, vale lembrar uma terrível cena de tortura que fica oculta para metade dos espectadores, obrigando-os a imaginá-la a partir dos gritos da vítima. Ou os momentos em que, devido a uma certa disposição cênica, a platéia é levada a aplaudir os cruéis devassos, como que compartilhando de seus feitos criminosos. Ou ainda o fato de que as vítimas quase nunca têm direito à palavra, em perfeita sintonia com o lugar que ocupam no universo libertino, o que contribui para aumentar o desconforto dos espectadores. Aliás, é precisamente quando incomoda a platéia que a montagem dos “120 Dias” revela a maior fidelidade a Sade. Talvez por isso, justamente quando parece atingir o limite do suportável, a peça venha oferecer aos presentes um momento de alívio: ao horror libertino se contrapõem então os belos ensinamentos de La Boétie sobre a servidão voluntária. Assim, depois de testemunhar passo a passo a insuportável progressão das paixões devassas, por vezes identificando-se secretamente com elas, o espectador pode enfim relaxar e reencontrar para si um espelho bem menos sombrio do que aquele que lhe oferece o marquês. Foco de identificação da platéia, o discurso humanitário de La Boétie tem o poder de consolar o espectador, fazendo-o reencontrar uma imagem mais idealizada do ser humano. Por certo, não é por outra razão que essa mensagem de esperança aparece nas vozes de jovens despojados e belos, cuja singeleza contrasta com o excesso satânico dos velhotes libertinos, marcados por uma insaciabilidade que nada parece cessar. Difícil não remeter tal polarização ao conhecido embate do bem contra o mal. Por isso mesmo, é possível que alguns vejam aí um intento de pacificação de Sade. Pode ser, mas essa conclusão não deixa de ser apressada pois, terminado o espetáculo, tem-se a forte impressão de que as sensatas palavras de La Boétie não conseguem neutralizar a violência poética de Sade. Ao voltar para a casa, o espectador ainda carrega o incômodo de ter aplaudido as façanhas dos libertinos e, no silêncio do lar, só lhe restam duas alternativas: elaborar seus próprios fantasmas ou denegar o que viu em nome de valores exemplares. Neste último caso, o melhor a fazer é desistir dos Satyros e assistir outra peça que acaba de estrear na cidade: “Acorda Brasil”, escrita pelo empresário Antônio Ermírio de Moraes, que propõe uma confraternização com os favelados de Heliópolis. Essa sim, contempla o espectador com inequívoca mensagem edificante. . O espetáculo: . Eliane Robert Moraes
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