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a.r.t.e.
MÚSICA

João Donato sai da toca
Por Luís Perez


O músico João Donato
Divulgação

Um dos pioneiros da bossa nova prepara disco a ser lançado na França e uma série de shows na Inglaterra

João Donato é um desses clássicos que, de tão conhecidos, poucos se dão conta de sua presença. Ele andava meio sumido, mas está de novo no centro do palco. Aliás, a dificuldade que foi encontrar um tempinho para conversar com esse pioneiro da bossa nova, cantor, arranjador e instrumentista é uma demonstração clara do “momento joãogilbertiano” que ele vive.

Sua música aparece nas vozes de Adriana Calcanhoto ("Naquela estação"), Gilberto Gil ("A paz"), Gal Costa ("Nua idéia"), entre tantos outros, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Luís Melodia, João Bosco e Djavan.

Donato saiu da toca recentemente com cinco apresentações em São Paulo -duas no Sesc Pompéia e três no Auditório Ibirapuera, num show que teve a participação de músicos como Johnny Alf, Chico Pinheiro, Moreno Veloso, Davi Moraes, Max de Castro e Junio Barreto.

Seu "suingue relax", como alguns críticos chamam, começou a ser moldado ainda na infância em Rio Branco (AC), onde o menino João Donato de Oliveira Neto, nascido em 17 de agosto de 1934, brincava com flautinhas de bambu e panelas. Aos 11 anos mudou-se para o Rio de Janeiro com a família, onde conheceu o grupo Namorados da Lua e fez amizade com Lúcio Alves, Nanai e Chicão. Poucos anos mais tarde, já exibia seu talento em "jam sessions" no Sinatra-Farney Fan Club e na casa de Dick Farney.

Marca o início de sua carreira o grupo Altamiro Carrilho e Seu Regional. Em 1949 gravou um disco (78 rotações) com as canções "Brejeiro" (Ernesto Nazareth) e "Feliz aniversário" (Altamiro Carrilho e Ari Duarte). Quatro anos mais tarde, forma o Donato e Seu Conjunto. Integra então o grupo Os Namorados, gravando, entre outras músicas, "Palpite infeliz" (Noel Rosa).

Em 1956 lança o disco "Chá dançante", produzido por Tom Jobim. A partir de 1958, passa a tocar apenas piano e compõe, com João Gilberto, "Minha saudade", seu primeiro sucesso, nos primórdios da bossa nova.

Hoje suas apresentações incorporam alguns desses sucessos de sempre e outros, como "Nasci para bailar", "O sapo", "A rã", "Bananeira", "Amazonas", "Quem diz que sabe", "Emoriô" e até alguns mais recentes, como "Suco de maracujá", parceria com Martinho da Vila, com direito a falar em personal trainer e outras conseqüências da vida moderna.

Por falar em modernidades, o tom "high tech" do show fica por conta dos efeitos que seu filho Donatinho extrai do teclado (aliás, de dois teclados, o de um piano e o de um laptop), dupla batizada pelo pai de "Donatinho e seu teclado sideral". A seguir, a conversa com Donato, que em maio embarca para Londres, com Marcos Valle e Wanda Sá, para uma série de shows.

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Como você encara o fato de ter sido considerado por alguém como Tom Jobim um gênio da música?

João Donato: Primeiro, não levo a sério. Vejo mais como um adjetivo, uma brincadeira, um apelido, uma reverência, um modo de dizer das pessoas. O real significado da palavra gênio é outra história. O resultado desse tipo de tratamento é natural. Você procura o lado espiritual da coisa, que nada mais é do que um modo de perceber a música. O objetivo da música é tornar você mais tranqüilo, mais alegre, mais feliz. Quando a gente pretende apenas ganhar dinheiro com a música e fazer tudo pelo lado comercial, acaba perdendo esse lado real da música. Tem músicas que vendem muito, mas fazem você se sentir mal. São músicas de qualidade duvidosa, feita só para render dinheiro.


Seu filho Donatinho leva ao palco, além de um teclado, um laptop, com o qual produz os mais inusitados efeitos. Como você vê essa mistura?

Donato: É um prosseguimento natural do tempo. Agora chegaram essas máquinas e esses efeitos eletrônicos. Ele, como é um menino novo, trouxe isso para o grupo, o que é muito importante, é uma troca de informações. Mas na minha opinião ele vai acabar, com o tempo, vendo que o que permanece de modo geral é a música acústica. É a coisa que existe de mais natural: a madeira, o tambor, a voz. Essas coisas modernas vão surgindo, mas o efeito que os acordes causam nas pessoas é sempre o que fica. Ah, sobre o que eu falei antes, a música não existe só para trazer tranqüilidade. Há também o caráter lúdico, a animação.


Que tipo de música você coloca em casa para ficar relax?

Donato: Para relaxar, a música ideal é o jazz.


Qual é sua rotina atualmente? Foi difícil encontrá-lo, porque parece que você estava em estúdio até de madrugada, trocando a noite pelo dia...

Donato: Gosto muito de aproveitar a noite para as gravações. Atualmente estou trabalhando em um projeto com o Jacques Morelenbaum. É um disco para a França, principalmente. Isso faz com que eu fique em estúdio até depois da meia-noite... Tem vezes em que vai até mais longe, mas, quando temos trabalho ou algum compromisso para o dia seguinte, é preciso ter mais disciplina.


Muita gente, sobretudo jovens, ouve e aprecia muitas músicas suas, mas nem se dá conta. Você acha que o compositor fica em um segundo plano e que o Brasil é um país sem memória?

Donato: Para falar a verdade, nem observo mais isso. As pessoas que cantam é que são anunciadas, normalmente. A fama fica mais para o intérprete do que para o autor. Isso é natural. Mas é uma estratégia de divulgação.


Na sua opinião, já surgiu depois, ou vai acontecer algum dia, um movimento com a força da bossa nova?

Donato: Nos anos 50, João Gilberto e eu fomos fazer uns shows no interior de Minas, naquelas cidades do circuito das águas. Tínhamos várias apresentações, mas não passamos da primeira. Ninguém, mas ninguém, gostou do que fizemos. Todos acharam aquele som muito amador, cantar com pouca voz, tocar com outros acordes. A pessoa que nos contratou chegou e disse: "Por favor, não toquem mais nada, o dinheiro está todo aqui". É engraçado, pois aquele era o som que mais tarde viria a ser chamado de bossa nova. A bossa nova iniciou um ciclo de coisas rumo ao infinito que não tem mais volta. Todos os países acabaram adotando essa música com menos ruído e mais melodia e harmonia, o que fez com que as coisas do Brasil fossem admiradas pelo mundo inteiro. É algo universal, que não tem mais fim. Não é algo que termine com a origem de um ramo, de um rio, que não acaba mais. Por enquanto a bossa nova teve várias ramificações, misturas com ritmos afro-cubanos, hip hop com jazz, com samba. Deu uma confusão total. Virou uma música universal.

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Luís Perez
É jornalista.

 
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