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LITERATURA
Redescoberta de Truman Capote ![]() Philip Seymour Hoffman no filme "Capote"
Divulgaçao Filme sobre o autor de “A sangue frio” incentiva o lançamento de suas obras e de sua biografia no Brasil Quando Philip Seymour Hoffman ganhou o Oscar como protagonista do filme “Capote”, dirigido por Bennet Miller, um toque de humanidade e ambivalência recobriu a figura do escritor Truman Capote. “Capote” é um filme de movimentos pequenos, mas de grandes implicações. Miller constrói um perfil minucioso do escritor, com cortes precisos, silêncios e paisagens. O filme enfoca apenas um período na vida de Truman Capote -os seis anos que transcorrem desde sua primeira viagem ao Kansas para realizar pesquisas para o livro “A sangue frio”. O livro conta a história do assassinato de quatro membros da família Clutter no povoado de Holcomb, no Kansas, dia 15 de novembro de 1959. Trata também da reação da pequena comunidade ao crime, dos detetives que trabalharam no caso e principalmente dos assassinos -Dick Hickock e Perry Smith. “A sangue frio” (Companhia das Letras) foi publicado originalmente em 1965 e virou um best-seller instantâneo. Esses seis anos de trabalho renderam a Capote US$ 2 milhões, com a publicação do livro e a venda de direitos para o cinema, segundo o jornal “The New York Times”. Capote descreveu a obra como “romance de não-ficção” e reivindicou para si a criação de um novo gênero literário, baseado na aplicação de técnicas ficcionais ao jornalismo. Segundo ele, entre outros atributos, o autor de um romance de não-ficção deve escolher temas atemporais e ser hábil em contar a história com credibilidade, mas sem fazer parte dela. A revalorização da figura de Capote trouxe para as livrarias também “Música para camaleões”, publicado originalmente em 1980, e “Bonequinha de Luxo”, de 1958 (ambos lançados no Brasil pela Companhia das Letras), que inspirou o filme com Audrey Hepburn. “Música para camaleões” traz uma noveleta nos moldes de “A sangue frio”, alguns perfis de personalidades (o que inclui uma conversa com Marilyn Monroe) e contos de grande beleza. A edição brasileira lançada pela Companhia das Letras inclui também “Memória de Natal” (que pode ser ouvida no original na voz do próprio Truman Capote no site da Minnesota Public Radio). “Capote – uma biografia” (Ed. Globo), o livro que deu origem ao filme, é um trabalho magistral de Gerald Clarke. Descreve com minúcias o meio intelectual e editorial nova-iorquino e todas as idiossincrasias do biografado, o que inclui os altos e baixos de seus relacionamentos com a mãe, o padrasto e o companheiro de toda a vida, o escritor Jack Dunphy, além de todo tipo de brigas, fofocas e tiradas de efeito. Truman Capote nasceu em Nova Orleans em 1924 e foi criado por parentes no Alabama. Começou a publicar contos em revistas literárias e de moda em Nova York. Seu primeiro livro foi “Other voices, other rooms”, que trazia na contracapa a foto de um jovem Truman como um provocante garoto de franja e olhar petulante. Rapidamente Capote tornou-se uma celebridade. O controverso escritor criou reportagens, roteiros para cinema, peças de teatro e até um musical para a Broadway. Como jornalista, publicou em 1957, “O duque em seus domínios”, um indiscretíssimo perfil de Marlon Brando (“Vou matar aquele cara”, teria dito Brando quando tomou conhecimento do texto). Seu “Bonequinha de luxo” foi adaptado para o cinema com a atriz Audrey Hepburn. Depois do absoluto sucesso de “A sangue frio”, Capote organizou uma das maiores festas dos anos 1960, o baile do Hotel Plaza, em Nova York, reunindo as figuras mais expressivas da época. Como ator, Capote participou do engraçadíssimo “Assasssinato por morte”, de Neil Simon, dirigido por Robert Moore em 1976. Em 1973 publicou “Os cães ladram: pessoas públicas e lugares privados”. Dependente de álcool e drogas, Capote morreu de uma overdose em 1984, em Los Angeles. Indicado também ao Oscar de melhor filme, diretor, atriz coadjuvante (Catherine Keener) e roteiro adaptado, “Capote” é um trabalho conciso (98 minutos) e minucioso, em que a observação se dá de fora para dentro. Diretor e roteirista trabalharam em perfeita sintonia. O roteiro original (primeiro trabalho de Dan Futterman) levou anos para ser concluído e contou com a ajuda do biógrafo Gerald Clarke, que chegou a emprestar as fitas com as gravações das entrevistas com Capote e também as cartas inéditas que Perry Smith enviou ao escritor. O mesmo tema de “Capote” é tratado num outro filme, “Infamous”, do diretor Doug McGrath, e que deve estrear em outubro de 2006. Apesar de tratar de assuntos registrados em letras garrafais, Miller constrói um filme contido, que vibra em baixa freqüência. O espectador é guiado por uma força invisível que move o filme e todos os personagens. Há um crime, mas quase não há tiros, nem sangue, nem suspense. Pequenas cenas vão montando a história. Muitas vezes, uma curtíssima cena de ação deságua numa paisagem estática. Tudo se observa silenciosamente e a apenas uma rarefeita trilha incidental pontua a cena. O magnetismo de Capote é construído pela interpretação minuciosa de Philip Seymour Hoffman (segundo o diretor, o único ator que chegou a ser cogitado para o papel). Da inflexão exata da voz aos gestos meticulosos, Hoffmann reconstitui os maneirismos e trejeitos de Truman. À primeira vista, o espectador observa a ação a distância, mas volta e meia mergulha novamente dentro de Capote: um repuxar da boca, um vinco na testa, um brilho nos olhos, um tremor quase imperceptível das pálpebras. O rosto de Capote é esquadrinhado pela câmera, mas suas motivações interiores permanecem cegas. Capote detém uma força interior e moral extraordinária. Ora como um reverendo compassivo, ora como uma criança cândida, ora como um cínico, a força interior de Capote move o mundo e o filme. Sua compreensão dos eventos é literal. Suas falas também são literais. É impossível desvendar as intenções por trás dos gestos. Na primeira parte do filme, ao perscrutar as circunstâncias e desdobramentos dos crimes, o personagem vai caminhando por cima do mundo, sobrescrevendo a realidade. Força os próprios limites para uma região que não é conhecida. O personagem é afetado, ridicularizado, um duende com voz de criança e ternos bem cortados. Para essa figura, todas as portas acabam se abrindo. A figura do protagonista é tão luminosa que os outros personagens se esbatem na sua presença e passam a gravitar em torno dela, embora a rigor a ação esteja nas mãos dos investigadores e dos criminosos. Quando a narrativa se fixa em Perry Smith, Capote encontra um personagem à altura. De certa forma, um duplo. Smith também é movido por uma força maior que ele. A relação passa a se dar no corredor da morte. É uma relação um a um, homem a homem, entre sofrimento e sofrimento. Como a sentença pode ser igual ao crime? Como é cometido um crime a sangue frio? Ambos se movem por um sentido de necessidade, mas não compartilham o mesmo destino trágico. Smith deve morrer e Capote terminar seu livro. Tomada a decisão, Capote assume suas conseqüências, como um corolário. No entanto, esse embate com Perry Smith não é intencional, ele é formulado em curso. Há um diálogo entre ambos, relatado em entrevista por Capote: - Por que você está escrevendo esse livro? - perguntou Perry Smith. - Quero criar uma obra de arte. - Que ironia, que ironia. Isso é tudo que eu sempre quis na vida. Eu mato quatro pessoas e você produz uma obra de arte. “Capote”, de Bennett Miller, é um belo filme. . Heidi Strecker É crítica literária, autora de "Análise de Texto" (ed. Atual).
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