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LITERATURA

Um passeio por Brás, Bexiga e Barra Funda
Por Haroldo Ceravolo Sereza

A São Paulo do século 21 ainda guarda sinais da cidade que serviu de tema a António Alcântara Machado em seu livro de 1927

Welington, de 11 anos, está com a mãe, Beatriz, que carrega um enorme sacolão e mais duas apenas sacolas. Tentam atravessar a barreira, com uma carteirinha especial, na estação Brás. Do lado dos trens. São barrados pela funcionária uniformizada do metrô.

– Está vencida.

– Eu sei.

Beatriz, pura resignação, pede ao filho, que tem um aparelho fixador na perna, mas caminha bem apesar dos trimiliques de vez em quando, para comprar os bilhetes.

– Foi carro. Tinha oito anos.

Beatriz cuida das sacolas que guardam as roupas que comprou no Largo da Concórdia, debaixo do calorzão que não respeita nem a sombra azul das barracas dos camelôs. Vai vendê-las em Itaquera, onde mora. Não pode deixar de fazer, justifica.

Foi em Itaquera, em frente à casa, que Wellington foi atropelado. Beatriz tem mais três filhos e marido desempregado.

Welington andou de metrô naquela quinta-feira, dia 3 de dezembro, mais de 30º C. Não de graça. Pagou meia, girando a catraca com a mãe.

* * *

Gaetaninho é o menino que dá nome ao primeiro conto de um dos clássicos modernistas de São Paulo -o livro “Brás, Bexiga e Barra Funda” (1927), de António de Alcântara Machado. Mora na rua Oriente e joga bola. Seu desejo é andar de carro. Antes, um bonde mata Gaetaninho -ou, por outra, Gaetaninho suja de sangue o bonde. Só então o menino sobe num carro, morto, rumo ao cemitério do Araçá. Beppino, seu colega, aproveita o cortejo para dar uma segunda volta.

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Nos anos 1920, São Paulo, nas ruas, falava várias línguas. As línguas de “Brás, Bexiga e Barra Funda” são o português das famílias tradicionais e o italiano, cada vez mais brasileiro, dos imigrantes -no último conto, os filhos de um casal de italianos não respondem nem à mãe quando ela usa sua língua de origem.

A admiração de Alcântara Machado pelos italianos, “novos mestiços nacionais e nacionalistas”, é expressa, e ele faz um registro que ele próprio considera mais jornalístico que literário: “Este livro não nasceu livro: nasceu jornal”, escreve, na apresentação da obra, intitulada “Artigo de fundo”. São contos, acontecimentos da crônica urbana, especialmente do cotidiano dos imigrantes que, muitos deles, enriqueciam e sonhavam com um palacete na avenida Paulista.

Esse aspecto é sempre lembrado quando se fala da obra de Alcântara Machado. E, nesse sentido, os três bairros, na época limites de um núcleo urbano que hoje chamamos de centro, se parecem muito pouco com o que foi então descrito. O italiano não é falado nas ruas, pelo menos não mais que o chinês, o coreano e o espanhol dos bolivianos, mas há uma infinidade de sotaques do português que podem ser ouvidos no interior do triângulo formado por eles.

Um outro aspecto, menos lembrado, é o da paixão pelo movimento. O livro de Alcântara Machado é, também, a narrativa de uma metrópole que anseia por ir e vir, que descobre que os bondes e os carros ampliam a liberdade para os que têm acesso a eles. Elétricos, Buicks, Lancias, linhas que levam do Patriarca à Lapa -esses são personagens quase tão importantes quanto os “intalianinhos” na cidade que acreditava no futurismo. Sobre o ano de 1922, da Semana de Arte Moderna (da qual Alcântara Machado não participou; ele aderiu ao movimento em 1925), Jorge Americano, outro cronista da cidade, escreveu, em “São Paulo nesse tempo”: “Se quiser avaliar a cidade, verá no mapa uma imensa aranha cujas pernas peludas são as linhas de bonde da Light (‘o polvo canadense’).”

* * *

“Brás, Bexiga e Barra Funda” é, também, um livro que olha confiante para o futuro. Como epígrafe, Alcântara Machado escolheu uma frase do conde Francisco Matarazzo, ao saudar Washington Luís, em 1926: “Essa é a pátria dos nossos descendentes”, portanto, dos filhos dos italianos e dos paulistas mais tradicionais.

E o livro de Alcântara Machado, como obra que quer mostrar o futuro, está cheio de crianças.

Uma delas é Lisetta.

Lisetta, menina que dá nome a um conto, também anda de bonde, e, num bonde, se encanta por um ursinho de uma menina mais rica. Sua insistência em, de alguma forma, pegar o brinquedo acaba lhe rendendo uma bela surra -e, depois, um ursinho de lata, que a deixa feliz.

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Na praça 14 Bis, debaixo de um viaduto em obras na Nove de Julho, no Bexiga, são os irmãos Vinicius e Lais Ulrikch que disputam um brinquedo. Simples o brinquedo: um galho de uma árvore da própria praça.

A mãe, Raffa, intervém. Pega, divide em dois e joga no lixo. Eles saem correndo.

– Melhor quebrar logo. Assim ninguém se machuca.

Na praça, outras crianças brincam. Jogam areia umas nas outras e transformam a gangorra em catapulta de terra. Adolescentes jogam vôlei, e homens mais velhos, dominó, truco e bocha (há um craque no esporte em cancha).

* * *

Transitar. O escritor Mário Donato, mais conhecido por Marcos Rey, italiano de São Paulo, talvez incomodado com certa caricatura nas “notícias” de Alcântara Machado, disse que ele conhecera São Paulo de baratinha.

Hoje, conhecer profundamente Brás, Bexiga e Barra Funda tomaria tanto ou mais tempo que as voltas de Alcântara Machado.

Mas alguns passeios rápidos, de carro, ônibus ou metrô -são 12 minutos de metrô da estação Barra Funda à do Brás, e cerca de 20 minutos para o mesmo percurso de táxi, numa tarde normal- revela enormes semelhanças entre eles, a mais clara delas uma certa decadência expressa em fachadas descuidadas e nos prédios mais novos e populares.

Os bairros, que não são hoje nem dos mais ricos nem dos mais pobres paulistanos, também guardam algumas ilhas de tranqüilidade, vizinhas de avenidas movimentadíssimas. No Bexiga, há incontáveis ruas assim, como a rua Maria José, em que as crianças brincam sem os pais na calçada e os carros, quando estão passando, freiam para que elas peguem as bolas que escapam. Também é possível encontrar crianças de dez, onze anos, andando sozinhas pela rua, sinal de que circular pela cidade é bem menos assustador do que assistir aos programas jornalísticos das tardes na TV.

Alguns personagens que circulam por esses bairros, como mostra essa leitura livre demais do livro, porém mais presa aos limites do jornalismo, realmente lembram os da obra. Mas são mais de carne e osso e século 21.

* * *

Carmela é, das italianas de Alcântara Machado, a que mais conhece a cidade. Acaba dando algumas voltas num Buick que, antes, passara e repassara pela rua do Arouche. A amiga Bianca, proibida de dar uma volta com o casal, dispara: “Por isso é que o Ângelo me disse que você está ficando mesmo uma vaca.” Vaca do século XX.

* * *

Luciana, sobrenome italiano, ascendência confusa (índios, espanhóis, sírios, etc.), liga para o pai.

– Perdi o ônibus.

Pai é pai:

– Como você conseguiu?

Lucimara está com um travesseiro no colo, deitada numa mesa de um café do terminal Barra Funda. Vai para os lados de Ourinhos, cinco horas de viagem, com sorte. Só às 13h, porque o táxi não chegou a tempo.

Trânsito. Lucimara morava com mais cem meninas num pensionato na região da Paulista. Acordou tarde, na terça-feira, dia 2, teve festa de despedida.

Ganhou uns presentes (as meninas, colegas de Lucimara, são cada uma de um jeito: uma tem alergia a níquel, mas é viciada em brincos; a outra, só pensa em roupa e academia e entrar em medicina; algumas passam a noite fora nos finais de semana).

– É tudo brincadeira, o milk shake, o peito de borracha. E a água mineral, que eu sou meio nojenta com a água. A água daqui tem um gosto esquisito, amarrrrguinho.

* * *

Este passeio confuso nasceu Internet. Portanto, sem artigo de fundo.


(Publicado em 3/4/2006)

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Haroldo Ceravolo Sereza
É jornalista e editor da homepage do UOL.

 
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