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entrevista
HISTÓRIA
Um outro olhar sobre a escravidão Em “Caetana diz não”, a historiadora americana Sandra Lauderdale Graham relativiza verdades do Brasil escravocrata Nem só chicote, terras e homens brancos deram as cartas no Brasil escravocrata. Até mesmo nesse mundo, milimetricamente erigido pela exploração e pela desigualdade, algumas coisas estiveram fora da ordem. Uma escrava negou-se a casar-se com o marido que lhe havia sido imposto por seu senhor. E o fez mudar de idéia e lutar para anular a união. No extremo oposto da pirâmide social, uma aristocrata do café, à beira da morte, tomou as rédeas de seus negócios: em testamento, deixou a principal parte de seus não poucos bens a uma família de escravos. São essas exceções de engrenagens secularmente azeitadas o que atrai a historiadora norte-americana Sandra Lauderdale Graham. Desde os anos 70, a pesquisadora está imersa nos diversos entrecruzamentos de experiências e variáveis que podem determinar casos como esses, à primeira vista inesperados -e que estão agora destrinchados nas livrarias brasileiras sob o título de “Caetana diz não” (Companhia das Letras, R$ 48, 312 págs.). Doutora em história pela Universidade do Texas, Graham investiga as relações de escravidão e gênero que emergem das histórias de vida da escrava Caetana e da aristocrata Inácia. Extrai desses personagens singulares indicadores que permitem relativizar noções amplamente aceitas sobre trabalho escravo e sociedade no Brasil cafeicultor. Graham demonstra, por exemplo, que um fazendeiro, não obstante fosse “dono” de seus trabalhadores, não possuía irrestrita liberdade para dispor de seus escravos como lhe aprouvesse. Sutis códigos de conduta e observância de procedimentos e valores regiam a vida no interior de uma fazenda, e os escravos, longe de passivos quanto a seu poder de barganha junto aos senhores, tinham consciência da vulnerabilidade a que estes estavam sujeitos e se utilizavam de mecanismos de compadrio, proteção e lealdade que atravessavam casa-grande e senzala para amealhar benefícios. A história de Caetana é a de uma escrava de 17 anos que se recusa a se deitar com um homem, tendo mesmo “repugnância ao estado do matrimônio”. Pressionada inclusive pela própria família, igualmente escrava, ela ilumina essa brecha por onde escravos e senhores se tornavam alvo da ação de um intermediário, fosse um fazendeiro vizinho, um tribunal ou a Coroa portuguesa. O segundo caso é o de Inácia Delfina Werneck. Sua trajetória, apesar de por longo tempo obedecer aos pressupostos da época em que se dão os fatos -tem os bens administrados durante toda a vida pelo cunhado e depois pelo sobrinho- mostra conteúdo excepcional não apenas quando a aristocrata sai do papel de inativa proprietária e decide repartir o patrimônio entre escravos, mas também após sua morte, aos 86 anos. Depois de enterrada, os escravos efetivamente recebem sua “benfeitoria” (alguns também são alforriados pelo testamento), mas depois, justamente pela liberdade alcançada, são deixados à própria sorte e à beira da ruína pela imperícia da caridosa senhora, que não avaliara corretamente o volume dos bens e o amontoado das dívidas. Apesar dos resultados funestos, os fatos atestam que os termos de uma mulher solteira, sem herdeiros, conhecimentos contábeis ou de leitura e escrita foram efetivamente respeitados e cumpridos. Escreve Graham: “É um erro considerar as mulheres brasileiras do século XIX silenciosas e sem voz legal” (pág. 230). E emenda: “Alguém disse certa vez: ´A arte nos devolve para o complexo. É isso o que ela faz`. É também o que a boa história faz, e o faz especialmente por intermédio de pequenos contos que lançam luz sobre as grandes questões. Espero que estas histórias façam isso”. Sobre os meandros dessa complexidade e os pequenos grandes achados que vem garimpando com personagens tão iluminadores quanto obscuros, conversou com Trópico a historiadora Sandra Lauderdale Graham, que também tem publicado no Brasil o livro “Proteção e obediência: Criadas e seus patrões no Rio de Janeiro (1860-1910)”. * No prólogo de “Caetana diz não”, a sra. afirma que esse estudo se configura como “algo mais próximo da arqueologia do que da biografia completa”. E o historiador João José Reis acrescenta que seu livro “abre um novo e importante horizonte” para a historiografia brasileira. A sra. crê que estudos a um só tempo referentes à mulher e à escravidão no Brasil ainda requerem muita investigação no país? Sandra Lauderdale Graham: Quando disse que esse estudo é mais próximo da arqueologia do que da biografia total tinha em mente que há muitas coisas que não sabemos sobre essas duas mulheres, Caetana e Inácia, e sobre os homens que fizeram parte de suas vidas. Não conhecemos especialmente suas motivações, as razões pelas quais agiram como agiram. É como ter um monte de pedras com que em algum momento foi erguida uma construção antiga. Dispomos dessas pedras, mas muitas estão faltando e então temos que tentar preencher essas lacunas. Não é qualquer pedra, porém, que será suficiente. Ao escrever história, não se pode simplesmente inventar as partes que faltam. História não é ficção, e é necessário admitir que às vezes não sabemos nada sobre essas partes, nem nunca saberemos. Freud certa vez comentou, sobre a biografia que fez de Michelangelo, que quanto mais ele sabia sobre o artista, mais Michelangelo se afastava dele. Sinto o mesmo a respeito de Caetana, Inácia, Tolosa e Werneck. Sempre quis saber mais sobre eles e tive que respeitar os limites das fontes e por vezes dizer: “Não sei”. Mas assim mesmo é importante escrever biografias de pessoas comuns porque essas vidas revelam aspectos inesperados do passado. Mas sua questão tem uma segunda parte. Sim, na minha opinião, temas que contemplem mulheres e escravidão precisam de mais estudos. E o maravilhoso disso tudo é que hoje em dia historiadores sociais e culturais em todas as partes do Brasil estão fazendo as pesquisas e escrevendo os livros que produzem novas interpretações.
Graham: A história é cheia de surpresas. Penso que descobrimos que os brasileiros do passado possuíam mais opções disponíveis em mãos do que imaginamos a princípio. Ou que eles tentaram criar outras possibilidades para suas vidas. Através de suas histórias, é possível descobrir um passado mais variado e mais complexo -um passado que não se encaixa perfeitamente em nenhum de nossos esquemas predeterminados. Temos que repensar noções anteriores. Não é que Caetana fosse “típica” entre as jovens mulheres escravas. Ela não era a jovem escrava comum. Tampouco Tolosa era o proprietário de escravos típico do Vale do Paraíba. Nem Werneck. Nem Inácia. Mas suas particularidades -suas ações, escolhas e situações- jogam luz sobre o passado, e através deles entendemos o passado de maneira diferente. Quando vemos Tolosa consultar um amigo tarde da noite sobre como reagir aos pedidos desesperados de sua escrava e o conselho que ele recebe a respeito, vislumbramos os mecanismos da propriedade de escravos de um novo modo. Vemos a autoridade do proprietário de escravos como sendo limitada, de algum modo.
Graham: Bem, primeiro eu gostaria de dizer que vejo “Caetana” como um livro significantemente distinto da obra que você menciona. O estudo apresentado em “Proteção” estava situado em uma grande cidade onde muitas escravas domésticas, paradoxalmente, tinham considerável liberdade, já que se moviam pela cidade fazendo seu trabalho: carregando água das fontes, lavando roupa, fazendo compras no mercado. E, embora eu tenha tentado identificar e escrever sobre elas individualmente, minha atenção estava concentrada em um grupo maior de mulheres serventes, tanto escravas como livres, brasileiras e imigrantes. “Caetana”, ao contrário, está situado em um meio rural, em duas fazendas de cultivo de café, e trabalho com eventos das vidas de uma pequena porção de pessoas particulares. Aqui era crucial desenvolver totalmente -ou tão totalmente quanto possível- as relações entre Caetana, Inácia e os homens que costumavam exercer controle sobre elas, algo que não pude fazer em detalhes no primeiro livro. As obras são parecidas, no entanto, ao nos recordar do quanto eram próximas as vidas diárias de escravos e seus senhores, de quão mescladas suas existências estavam. E, sim, sou apaixonadamente curiosa sobre as vidas das mulheres, mas não posso descobrir essas existências sem ser igualmente curiosa sobre os homens. Em algumas situações, o que emerge é que são as mulheres que têm o poder ou que dos homens é esperado que assumam enormes responsabilidades. Como historiadores, temos de levar tudo isso em conta. Mas eu concordo com você –sou especialmente interessada nas maneiras pelas quais pessoas, tanto mulheres como homens, que parecem ter pouca ou nenhuma força, encontram meios de atuar, de traçar seus caminhos no mundo, de insistir na satisfação de suas necessidades.
Graham: Ambas as obras, estou feliz de dizer, tiveram boa vendagem e continuam a ser vendidas e lidas. Os dois livros são usados em cursos universitários, e me dá prazer pensar que essas mulheres, que foram escravas ou pobres em seu tempo, ou livres, mas analfabetas -como Inácia--, estão sendo ouvidas e discutidas 150 anos depois. No momento, estou terminando um pequeno estudo sobre as muitas maneiras que escravos e ex-escravos, que eram analfabetos ou parcamente alfabetizados, usavam da escrita para exigir o que achavam ser de direito deles -petições, casos de tribunal, cartas pessoais. Alguns estavam profundamente envolvidos na cultura escrita. E freqüentemente, é claro, confiavam em intermediários, escribas profissionais, advogados ou simplesmente em um amigo ou patrão. É fascinante que, apesar de estarem excluídos das escolas e afastados dos livros, tantos aprenderam a operar no mundo da escrita. E também estou trabalhando num projeto maior, sobre os significados do “divórcio” no Brasil do século 19. Trata-se de casos de “separação pela Igreja”, levados a uma corte eclesiástica, que permitia aos casais viverem separados e separar seu patrimônio. Intitulo esse livro “When family failed” (Quando a família fracassava) e novamente quero mostrar que os homens não eram invariavelmente dominantes e que as mulheres nem sempre eram submissas. Esses reversos do que esperamos são um modo de ver o passado com olhos frescos. Os privilégios masculinos estavam às vezes restringidos ou percebidos como uma carga, e as restrições femininas às vezes eram deixadas de lado, e as mulheres se tornavam desafiadoras. Mulheres e homens por vezes se reiventavam em situações que desobedeciam à ordem costumeira das coisas.
Graham: Bem, penso que, se olharmos cuidadosamente, vamos descobrir que as pessoas desafiavam, sim, as regras, e que a sociedade era mais flexível do que imaginávamos. |