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Sim, há uma certa aspiração a tudo abarcar, ou pelo menos abarcar muita coisa, não só em relação aos temas, mas também em relação à linguagem. Ao contrário do meu livro anterior, “Deixe o quarto como está” -onde o registro lingüístico é uniforme e constante do início ao fim do livro para dar conta de uma temática também constante do início ao fim-, em “Os lados do círculo” procurei utilizar vários registros diferentes, sirvo-me de recursos de outros tipos de escritura, como o roteiro de cinema, a entrevista, o tratado de economia, a linguagem dos verbetes de dicionário etc. A unidade do livro é dada também por sua variação constante.


As “soluções” dos contos tendem à solução violenta ou ao desespero, ou ao fecho tragicômico. Essa é a visão de mundo do Amílcar escritor?

Bettega - São soluções que estes contos, em particular, pedem, soluções que estão a serviço do conto, da história, é o texto que fala por si e não pelo escritor. Nem violenta, nem desesperada, nem tragicômica, minha visão de mundo é, digamos, a de um pessimista que no fundo não é tão pessimista assim porque, apesar de tudo, ainda estou aí na luta e tampouco penso em dar um tiro na cabeça.


A dialética entre universal e local me parece muito bem resolvida em seu livro. Gostaria que você falasse de Porto Alegre, ou do Sul do Brasil, como personagem do livro, além de paisagem e cenário dos contos.

Bettega - Quando comecei a pensar o livro, eu queria justamente que Porto Alegre aparecesse como o personagem principal do livro, era também um dos eixos que daria união ao conjunto. No meu caso, o cenário é sempre muito importante para criar a história. Ele pode até não assumir um papel importante na história depois de escrita, pode até (como em “Deixe o quarto como está”) tender a se apagar, resultar totalmente impreciso, mas para o meu trabalho, para escrever determinada história, preciso ter em mente o ambiente em que ela se passa, mesmo que seja um ambiente sem nenhuma referência geográfica. Os personagens que ali estão só poderão se mover naquele determinado ambiente. Não sei, pode até ser uma muleta, mas é assim que funciona.

Em todos os textos de “Os lados do círculo” é Porto Alegre que está lá, com os nomes de suas ruas, morros, parques etc. Porém, coisa curiosa, vários porto-alegrenses que leram o livro me disseram ter dificuldade para reconhecer no texto a cidade em que vivem, que a reconheciam, sim, mas que esse reconhecimento não era muito fácil. Acho que isso se deve ao fato de que o que ali está é uma Porto Alegre muito pessoal, muito subjetiva, a minha maneira de sentir essa cidade.

Em relação à paisagem física de Porto Alegre, uma das marcas mais evidentes e mais lindas, para mim, é a sua luminosidade. Sobretudo no outono (e isso eu pus textualmente no livro) a luz de Porto Alegre e do Sul do Brasil em geral é uma coisa comovente, e a sensação de verticalidade que se tem… Como é alto o céu de Porto Alegre numa manhã sem nuvens de outono! Acho que tudo isso ajuda a cidade a respirar, apesar do inferno típico de todas as metrópoles brasileiras.

Porém, apesar dessas evidências e mesmo predileções, a Porto Alegre que predomina no livro é uma Porto Alegre noturna. A luz é a da iluminação pública, das janelas dos apartamentos, dos outdoors luminosos. Foi uma Porto Alegre mais sombria que me saiu.


Quais são seus projetos para o futuro? Pretende experimentar algum outro gênero além do conto?

Bettega - Estou escrevendo uns textos muitos curtos, uma ou duas páginas no máximo, que com um pouco de sorte e muito trabalho pode ser o meu próximo livro. São textos que partem quase sempre de uma imagem, tentando cristalizá-la a partir de uma linguagem, digamos, mais poética.

Pela primeira vez o conto não é o objetivo principal. Mas deixo sempre um pé na ficção, na história, portanto, no conto. Mas, mesmo que ele não venha, o que me interessa nesses textos é guardar certa tensão poética, fazer com que uma espécie de "bolha de ficção" se desgarre da realidade cotidiana e se eleve, que paire, pelo menos por um instante, na imaginação do leitor. Uma espécie de flerte com a poesia, talvez. Só não sei ainda se ela corresponde. Mas é um projeto que está apenas no começo, nem sei se vai vingar. Tenho uns 30 textos escritos e para fazer um livro teria que ter uns 120, para poder descartar uns 40.


O que lhe desperta interesse na literatura brasileira atual?

Bettega - O que eu gostaria de salientar na literatura brasileira atual não está nem tanto no conteúdo da sua produção, pois, confesso, vivendo longe do país, fica para mim difícil acompanhar tudo. Mas acho interessante a dinâmica que de uns anos para cá tomou conta do cenário literário brasileiro. Em grande parte devido às facilidades de publicação, que por sua vez estão ligadas à razões econômicas -ou seja, estamos evidentemente no campo do extra-literário-, há uma enorme quantidade de autores que até bem pouco não existiam como escritores e que passaram a ter seus livros publicados.

Esses livros bem ou mal circulam, vão parar nas livrarias, encontram, uns mais outros menos, algum espaço em jornais ou revistas literárias, imagina-se que são lidos etc. Isto é, de uns tempos para cá tem ficado mais fácil e mais coerente falar de um sistema literário no Brasil. Claro que ainda não temos uma rede de bibliotecas públicas digna desse nome, que faltam livrarias, que faltam leitores etc., mas acho que a grande quantidade de novos nomes e novos títulos, que aparentemente pode não significar muita coisa, é reflexo não só de uma situação econômica propícia, mas também sinal de que se caminha para a consolidação de um efetivo sistema literário. E é a partir daí que dá para esperar algo mais, é a partir daí que começam a aparecer as condições para que a nossa literatura reflita, finalmente, a nossa cara, ou seja, uma cara difícil de precisar, diversa, criada a partir da mistura de tanta coisa, contraditória por vezes.

Normalmente a quantidade não quer dizer muita coisa, mas nesse caso acho que é um caminho para encontrar a nossa diversidade. Uma literatura não se faz com um, dois, quatro, cinco nomes, aos quais todo mundo rende graças, acende velas e de quem seguem o modelito. É importante haver uma espécie de substrato que permita a emergência da diversidade, onde cada um pode encontrar a via com a qual mais se afina.

É evidente -mas evidentíssimo- que uma maior facilidade para publicar permite que muita coisa de má qualidade ganhe uma capa bonita, num papel agradável ao tato, embrulhado num trabalho gráfico competente e, pimba, vira livro e até faz algum barulho. Mas isso não é meu problema, nem do autor, nem de ninguém. A partir daí o “livro” é livro e a vida dele vai depender do que ele traz impresso nas suas páginas. As coisas se fazem naturalmente. E a natureza é sábia.


A grosso modo, poderíamos identificar duas tendências majoritárias na literatura brasileira contemporânea, quais sejam: uma continuação algo difusa de um naturalismo urbano, muitas vezes inspirado por Rubem Fonseca, de uma estética da violência (que pode, em alguns casos, ter algum grau de crítica social), e uma espécie de movimento de “neodesbunde”, os tais livros “transgressivos”, com as referências culturais esperadas (os beats, o surrealismo, Bataille e Bukowski etc.). Não se pode classificar seu livro em nenhuma dessas duas linhas...

Bettega - Entendo as classificações, as identificações, separações, denominações, rótulos etc.; elas são o resultado de um esforço de compreensão, demonstram que existe um interesse, que não se é indiferente a algo, e isto é positivo. O problema é saber até onde se pode levar as generalizações e as simplificações, o ponto em que elas deixam de ser úteis à compreensão desse algo e passam a ser meras repetições de um blablablá pseudocrítico, que serve apenas para cristalizar os clichês que mais tarde vão parar nos manuais de historiografia literária.

Para afinar um pouco mais, eu arriscaria identificar uma tendência de representação (nem sempre naturalista) do urbano na literatura brasileira contemporânea, em que a violência pode (ou não) aparecer como um dos elementos dessa realidade. Mas, tirando alguns autores que tematizam a violência -e que não acho que sejam a maioria-, não dá para dizer que uma das características da literatura brasileira contemporânea seja a estética da violência. Isso a gente vai deixar para os manuais. Mas acrescento que não tenho como ler tudo, como acompanhar tudo o que sai (quem tem, verdadeiramente?); pode ser, claro, que eu esteja enganado.

Quanto ao “neodesbunde”, acho que é resultado do lado negativo daquela nova dinâmica do nosso mercado editorial, de que falei antes. Ficou fácil publicar, junta-se meio rapidamente o que vem à cabeça e isso vira livro facilmente. Ficou fácil “virar escritor”, o problema é que escrever continua sendo muito difícil.

Quanto a mim, o que eu procuro é não me repetir. Escrevi três livros. Não é muito mas já dá para formar uma idéia de conjunto. Pois todos os três são bem diferentes entre si. Não tenho a pretensão de ser absolutamente original o tempo todo, de descobrir a pólvora a cada linha, mas faço questão de não me repetir. O que dá graça à coisa é experimentar o que ainda não se fez. Portanto, tudo o que a gente falar a respeito de “Os lados do círculo” pode ser contradito no próximo trabalho, ou, pelo menos, não servir para o resto do que escrevo.


Numa passagem de seu livro, as personagens comentam que “manter a memória é uma forma de resistência”. Escrever é uma forma de resistência?

Bettega - Para mim ela funciona como resistência. Mas não uma resistência militante, engajada contra os males do mundo, blablablá. Resistência individual, como parte de minha história pessoal, resistência à minha inaptidão à vida prática, à minha dificuldade de inserção em grupo, à minha timidez, ao meu pessimismo, à minha incompetência para fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, à minha lentidão saturnina, à minha falta de concentração, à minha dificuldade de comunicação, ao meu raciocínio moroso, à minha preguiça, à minha dificuldade de expressão oral e até, contraditoriamente, ao meu individualismo.

Para outros escritores a literatura pode ter um outro significado, inclusive militante, e continuar sendo válida como literatura. São coisas diferentes, fora do âmbito pessoal do escritor, o julgamento, no fim das contas, vai ser sempre estético. Mas, individualmente, cada um dá o sentido que quiser dar à literatura, a dele e a dos outros.

Como já disse lá em cima, escrever é uma maneira de tentar me entender, uma maneira de me organizar, de organizar a cabeça, de me dar um sentido, de preencher o meu vazio. Tenho poucos centros de interesse, quase tudo me enfastia, a literatura, às vezes, não.

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Carlos Eduardo Ortolan Miranda
É tradutor e crítico, mestrando em filosofia na USP.

 
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