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dossiê
LITERATURA BRASILEIRA

Matemática do conto
Por Carlos Eduardo Ortolan Miranda

Uma entrevista com o escritor gaúcho Amilcar Bettega, ganhador do prêmio Portugal Telecom com o livro "Os lados do círculo"

“O que mais me atrai no gênero conto é essa característica de estrutura que se fecha nela mesma, que se basta, seu caráter de unicidade, algo que aponta para um certo rigor, digamos, matemático”, afirma o escritor gaúcho Amilcar Bettega Barbosa, vencedor do prêmio Portugal Telecom 2005, o mais vultoso do país (R$ 100 mil), com seu livro de contos “Os lados do círculo” (Companhia das Letras).

Nascido em 1964, em São Gabriel (RS), formado em engenharia civil e mestre em literatura. Sua carreira literária já lhe granjeou alguns prêmios relevantes, como o Açorianos, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, graças a seus livros anteriores, “O vôo do Trapezista” (seu primeiro livro, de 1994) e “Deixe o quarto como está” (2002). Esta obra também recebeu menção especial no prêmio Casa de Las Américas, de Cuba. O autor reside atualmente em Paris, onde leciona português.

A obra de Bettega reúne preocupação estilística, reflexão social e uma visão crítica, muitas vezes amarga ou desencantada, da condição humana. Ou seja, as questões fundamentais que advém do atrito da consciência do artista com seu tempo e sua história pessoal, que são tratadas com rigor e complexidade, qualidade estética e acuidade psicológica, mostrando a maturidade desse escritor vigoroso e perturbador. “Eu queria fazer uma ponte entre a estrutura circular como modelo formal do conto e a tematização de uma realidade urbana contemporânea que pode também assumir algo de ‘circular’ e limitado”, diz ele na entrevista a seguir.

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Como se deu a passagem do engenheiro de formação para o estudioso de literatura e o escritor profissional?

Amilcar Bettega - Não sou um estudioso de literatura. Fiz um mestrado em literatura, que só levei até o fim porque algumas cabeças arejadas na universidade sustentaram meu projeto de apresentar uma ficção como conteúdo principal da minha dissertação (não algo “sobre”, mas o próprio algo). Portanto estou longe de ser um estudioso de literatura, um acadêmico.

Se tivesse que fazer uma dissertação puramente teórica teria caído fora. Também não dá para dizer que sou um escritor profissional, porque não consigo ganhar a minha vida escrevendo, muito menos escrevendo literatura. Gostaria, mas não dá. Pode ser que um dia eu chegue lá, mas por enquanto o “profissional” não cabe. E despindo um pouco mais a palavra: nunca serei um escritor “profissional”, no sentido de que esse termo pressupõe uma formação ou preparação ou aptidão para exercer determinada atividade. Se escrevo, é justamente porque não estou preparado, porque o chão me escapa, porque não estou seguro. O dia em que me sentir preparado, acabou-se o escritor.

Agora, para ser mais objetivo: comecei a escrever relativamente tarde, por volta dos 26 anos. Sempre gostei de literatura e sempre li bastante, mas até lá nunca tinha pensado em escrever, muito menos em publicar. Foi num momento de crise existencial (mais do que profissional) muito grande. Eu tinha me formado, trabalhava como engenheiro, mas aquilo não tinha nada a ver comigo e com o que queria fazer. O problema é que eu não sabia o que queria fazer. Além disso me sentia meio incompetente pra tudo.

Havia um grande vazio, e eu me disse "não posso continuar levando adiante essa farsa até o fim da vida". Mais ou menos nessa época, eu me "flagrei" escrevendo uma história. Foi isso mesmo. Sem premeditação, sem me dizer "vou escrever algo", quando me dei conta eu tinha já umas 30 paginas de uma história escrita. Eu nunca tivera, nem na família, nem em professores no colégio, nem em colegas -seja no colégio ou, depois, na faculdade-, pessoas que sentissem pela literatura a atração que eu sentia. E como sou, por temperamento, muito fechado, tive que descobrir a minha “vocação” (com todas as aspas que se tem direito) sozinho.

Acho que por aí se explica esse começo tardio. Mas, a partir dos meus primeiros textos, que são dessa época, comecei a ver que estava ali uma coisa que eu podia fazer, que eu era capaz de escrever e que escrever era uma maneira de me encarar de frente, de ser mais honesto comigo mesmo. Escrever foi, e é, uma maneira de tentar me entender. Foi também uma maneira de encontrar, de certa forma, minha competência, minha serventia. Como vê, é uma viagem puramente pessoal.


“Os Lados do Círculo”, apesar de ser um livro de contos, contém um admirável grau de organicidade, de fechamento (ou abertura) em si mesmo. A imagem do círculo perpassa os contos tanto do ponto de vista histórico-temporal (uma história que não se “realiza”, como a brasileira) quanto da sua realização formal (o personagem que busca uma mulher morta que é sua mulher e ele também está morto e ad infinitum; a personagem Amilcar do “Crônica de uma paixão”, que remete ao autor da obra, e também ao conto inicial do volume). Como surgiu a idéia de “circularidade” nos contos e a organicidade da obra? Há algo de Borges, de Vico, de Nietzsche e do “eterno retorno”, ou do conceito de uma “má infinitude” na origem da concepção do livro?

Bettega - Breve explicação à guisa de preâmbulo: apesar de praticar (até aqui) exclusivamente o conto -publiquei (até aqui) três livros de contos e nunca escrevi outra coisa que não fosse o texto curto-, apesar de fazer meus livros a partir de textos que são independentes entre si, nunca abro mão de uma unidade, de uma liga interna que dê ao conjunto justamente a idéia de conjunto. Portanto, apesar de meus livros serem coletâneas de contos, não os quero como um saco onde cabe tudo.

Penso um livro sempre dentro de uma unidade, e essa unidade normalmente passa pela forma. Ela poderá ser de vários tipos, estilística e -mesmo saindo um pouco da forma- temática, como no meu livro anterior (“Deixe o quarto como está”) ou, como por exemplo em “Os lados do círculo”, ela vai ser buscada na exploração de uma idéia, de um conceito, no caso, essa idéia de circularidade. Fim do preâmbulo.

Não posso precisar exatamente como surgiu a idéia de “circularidade”, porque essas coisas vão acontecendo a partir do momento em que se começa a pensar o livro. Ele vai se construindo, e no final já não se sabe exatamente como se construiu. No conto “Círculo vicioso”, que você cita, é onde a repetição, e o peso dessa repetição, é mais forte e evidente, e sim, pode ter qualquer coisa da concepção cíclica da história ou do eterno retorno nietzscheano, ainda mais que faz alusão ao fato histórico e às suas conseqüências. Mas não foram esses conceitos que nortearam a concepção do livro, pelo menos não conscientemente.

Tentando uma visada retrospectiva: uma das coisas que mais me atrai no gênero conto é essa característica de estrutura que se fecha nela mesma, que se basta, seu caráter de unicidade, algo que aponta para um certo rigor, digamos, matemático. Eu queria explorar isso em termos de recurso -e ao mesmo tempo, limite- formal. Porque é a onipresente noção de limite (número de personagens, elementos do cenário, tempos narrativo e de leitura, incidentes da trama etc.) que dá ao conto o rigor formal e a economia precisa que o caracteriza. Limite, ou a idéia de limite, que, transpondo para a vidinha nossa de cada dia, a gente encontra todo o tempo e por todo o lado -para o bem e para o mal.

Então, eu queria fazer uma ponte entre a estrutura circular como modelo formal do conto e a tematização de uma realidade urbana contemporânea que pode também assumir algo de “circular” e limitado. Explicando o óbvio: a vida nas grandes cidades, com essa sensação de encarceramento, de falta de saídas, é um retrato da falta de perspectivas, do pessimismo diante das evidências de que o homem tem fracassado na construção de um lugar melhor para viver.

A impressão de claustrofobia dentro de um apartamento quarto-e-sala é a mesma quando nas ruas da metrópole e seus espigões perfilados. O trânsito louco, o bombardeio visual das placas de propaganda, o esmaecimento da afetividade, a solidão em meio à impessoalidade das multidões, ajudam a dar a idéia de encarceramento à vida na cidade. Há falta de horizontes na grande cidade, físicos ou figurados (é o que está dito literalmente logo no início do livro, pág. 23). Se anda, se desloca, se circula, mas é como se não saíssemos do lugar. O final de um dia encontra o início de uma mesma rotina no dia seguinte, e assim por diante. Pois a forma circular dos contos é também uma metáfora para esse “andar em círculos” da vida urbana contemporânea.

Uma das coisas que mais me fascina no conto, que está no Borges que você citou e em todos os verdadeiros contistas, é essa espécie de “reenvio” ao começo que ocorre no final de um bom conto. É no fechamento do conto que se produz no leitor duas atitudes simultâneas e, à primeira vista, antagônicas. Uma, prospectiva, meio epifânica, que abre para o leitor uma outra possibilidade de ver o mundo, preenchendo-o com a experiência de vida que é o conto; e a outra, retrospectiva, que faz com que esse mesmo leitor se volte para a sua própria posição inicial, e se perceba transformado, preenchido pela leitura e pronto a refazê-la, agora vendo o início do conto já como uma parcela do final. Pois aquela espécie de “baque final” que encerra a leitura é somente o fecho de algo que já estava latente desde o início da narrativa.

Em outras palavras: no início do conto já está o seu fim; no fim está seu início. Como numa circunferência, e não num círculo, que é licença poética e, como sabemos, uma figura plana. Mas imagine um título “Os lados da circunferência”?

Além disso, acho que dá para perceber, essa idéia de circularidade é perseguida não só em cada conto individualmente, mas também na estruturação global do livro, na ordem e distribuição dos textos. Se o leitor lê os textos na ordem proposta ele vai percorrer um caminho que de certa maneira é circular. Os contos de “um lado” de uma ou outra maneira se correspondem com os contos do “lado um” como se houvesse um espelho no meio: o primeiro conto tem uma seqüência no último, os personagens do segundo reaparecem no penúltimo, o terceiro se corresponde com o antepenúltimo, e assim vai.


Voltando aos modelos geométricos, ao “Lado um” e “Um lado” que dividem o livro, no conto “Verão” temos o recurso de duas séries narrativas paralelas, que mimetizam a fratura essencial da sociedade brasileira e sua divisão brutal. A rigor, quando as “séries”, ou seja, as classes sociais dos despossuídos e da elite se encontram, o resultado é o conflito sangrento, a morte e a destruição (além do aflorar de preconceitos de toda a natureza). Poderia comentar?

Bettega - Não tem muito o que comentar. É o que está no conto. É isso mesmo. É um conto que não tem muita complexidade, tirando a forma com que ele é apresentado. Por isso até relutei bastante em incluir esse texto no livro. Ele acabou entrando justamente pela forma, que me agrada; acho que consigo produzir ali, através de elementos que dizem respeito à maneira de construir o relato, de apresentá-lo, de dispô-lo na página, uma espécie de “imantação” do texto, ou seja, todos os elementos do texto se orientam na direção do que a narrativa conta, a maneira como o texto se apresenta também conta a história que suas linhas contam.

Por outro lado, é um texto que está na mesma linha de construção do livro em partes, em “lados”, que se refletem, que se espelham, que são parte de um todo, mas ao mesmo tempo se contradizem o tempo todo. Uma estrutura que serve bem para falar de um país tão fraturado socialmente como o Brasil.


A impressão que se tem, ao ler “Os Lados do Círculo” é, embora o livro se utilize do genêro conto, funciona como um romance que aspirasse (como “O jogo da amarelinha” ou “Avalovara”) à totalidade. Você chegou a pensá-lo como um romance? Ou é mesmo graças ao estilhaçamento da experiência moderna que os múltiplos aspectos da realidade podem ser melhor abarcados pela narrativa curta, o conto?

Bettega - Não cheguei a pensá-lo como romance, mas também não queria tirar a possibilidade de que ele pudesse ser lido como um romance, ou em todo caso, como um possível romance. Aliás, essa é uma possibilidade aberta no texto que fecha o livro, “O puzzle (suite et fin)”, quando o narrador se depara com uma série de relatos enviados pela personagem Marta, “todos esses pedaços de vida que me caíam no colo, esses gritos de socorro, esses recortes de biografias minúsculas, solitárias, anônimas…” e com o bilhete da própria Marta, dizendo “seus restos, as últimas palavras, suas histórias estão aí nessas folhas, como peças de um puzzle a ser formado, como um filme a ser montado”. Ela não diz, mas a seqüência da frase é quase natural, quase que pede para a gente completar: como um romance a ser escrito. É uma maneira de dizer ao leitor “faça o que quiser com isto, monte o livro que quiser ler, leia/escreva o seu romance”.

 
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