ELITIZAÇÃO
Novos ricos da música, por Henry Burnett
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a.r.t.e.
TRÓPICO NA PINACOTECA

MPB: mercado e internacionalização
Por Thais Rivitti

Saiba como foi o debate do músico Luiz Tatit com o jornalista Pedro Alexandre Sanches

"Trópico na Pinacoteca" deixa de ser realizado em 2006

A presença da música brasileira no exterior foi o tema do debate “MPB: mercado e internacionalização”, da série de encontros Trópico na Pinacoteca, realizado por esta revista eletrônica e a Pinacoteca do Estado. A que se deve o sucesso recente da música brasileira no exterior? Por que artistas que não são reconhecidos pela crítica e pelo público brasileiro fazem sucesso fora do país? Perguntas como essas nortearam o debate com a participação do músico Luiz Tatit, professor do departamento de linguística da Faculdade de Letras e Ciências Humanas da USP, e do jornalista Pedro Alexandre Sanches, da revista “Carta Capital”. A mediação foi feita por Alcino Leite Neto, editor de Trópico.

Luiz Tatit, que recentemente lançou o CD “Ouvidos uni-vos” (Dabliú), centrou sua fala na internacionalização da música brasileira. “No fundo, o que está em jogo é aquela história da mundialização em oposição aos elementos regionais”, disse. Segundo Tatit, quando a globalização foi intensificada -e esse momento pode ser representado pelo fortalecimento da world music-, músicos que não tinham tanta difusão no Brasil, na África ou na Ásia começaram a ser redescobertos na Europa e nos Estados Unidos.

A reviravolta na carreira do músico Tom Zé é um bom exemplo para se refletir sobre a globalização na música. Tatit lembra que, durante a década de 1980, Tom Zé estava completamente afastado do mundo musical quando o músico norte-americano David Byrne -que estava no Brasil pesquisando o samba- encontrou por acaso o disco “Estudando o samba”, de Tom Zé. “Ao ouvir o disco com todas aquelas experiências que Tom Zé gosta de fazer, Byrne o achou extraordinário”, contou Tatit.

Por um lado, o auge da globalização é identificado com o processo de massificação que resulta numa música completamente padronizada que, segundo Tatit, serve ao gosto mundial, provavelmente um gosto construído nos Estados Unidos. Por outro lado, “existe um excesso de regionalização, que nós chamamos de excentricidade ou exótico: são músicas que não têm qualquer índice de universalização para você curtir e divulgar no domínio internacional”. Mas nem a massificação nem a excentricidade existem nessa forma pura. “O caso de David Byrne é exatamente essa equação: em nome de uma globalização atenuada ele busca recuperar elementos regionais para que a world music seja representativa de coisas que existem no mundo inteiro”, observou o músico.

A globalização atenuada busca valores regionais passíveis de universalização. “Tenho a impressão de que o gesto que interessa aqui é esse que recupera a regionalização: saber da música do mundo é conhecer valores regionais”, disse Tatit.

Nesse sentido, o músico apontou que a Europa e, sobretudo, a França, acaba fazendo uma “mediação excelente”, pois quer valorizar coisas que vêm de lugares como a África ou o Brasil. “O problema para nós, brasileiros, é que a Europa não tem tradição na canção (letra e música). A tradição da Europa é a música erudita, que não é nosso forte. Quem ouve música brasileira por lá são os jovens que estão descobrindo a canção não como uma coisa de supermercado, de fundo sonoro, entretenimento, mas como algo que tem peso cultural” concluiu.


Guerra do Brasil com o Brasil

Pedro Alexandre Sanches, jornalista e crítico de música popular brasileira, autor do livro “Como dois e dois são cinco” (Boitempo editorial), preferiu refletir sobre a relação do Brasil com seus músicos para tentar entender porque há muitos artistas que fazem sucesso no exterior e não são valorizados aqui.

“Se olharmos historicamente, talvez isso tenha sido iniciado por Carmen Miranda, artista que teve uma carreira forte aqui e depois foi ser estrela de cinema em Hollywood”, lembrou Pedro Alexandre. Ele afirmou que os artistas brasileiros em geral têm uma vida “nômade” ou “cigana”, isto é, de alguma forma, acabam andando pelo mundo inteiro. Mas diferenciou as histórias de nomadismo das que caracteriza como exílio, “muitas vezes o sucesso no exterior dos artistas brasileiros é vivenciado como um período de exílio ou do país ou de uma camada do público”.

Para ele, a bossa nova foi um momento de exílio -entendido não apenas como expulsão, mas como as diversas formas de distanciamento entre a produção do artista e a crítica ou o público de um país- e citou como exemplo Tom Jobim e João Gilberto, que teriam “se divorciado do Brasil no momento em que criaram a bossa nova, um referencial absolutamente novo para a música brasileira”.

A história de Seu Jorge, artista brasileiro de sucesso no exterior, pode ser considerada um bom exemplo do que Pedro Alexandre caracterizou como uma guerra do Brasil contra o Brasil. O jornalista contou que o artista nasceu no Gogó da Ema, na Baixada Fluminense, onde seu irmão foi morto, em uma chacina. Nessa experiência, sua família se esfacelou e cada um foi para um lado. Ele foi morar nas ruas do Rio de Janeiro, onde viveu por sete anos.

Da aproximação de Seu Jorge com um grupo de teatro surgiu o “Farofa carioca”, do qual Pedro destacou uma música com o seguinte refrão: “Moro no Brasil / não sei se moro muito bem ou muito mal / só sei que agora faço parte do país / a inteligência é fundamental”. Para o jornalista, a canção alude ao momento em que Seu Jorge sai das ruas se reconcilia com seu país pela música e pelo teatro. Hoje o artista mora em São Paulo e está fazendo um disco novo, mas não deixa de levar adiante a marca do artista que foi excluído por seu próprio país a ponto de morar na rua.

Para Pedro Alexandre, a globalização possibilita que a música brasileira seja conhecida no exterior, mas ele ponderou que, “por mais que seja motivo de orgulho ter essa gente toda tocando lá fora, é motivo de vergonha que a gente aqui dentro não as valorize”. Polemizando, perguntou: “Será que não há uma briga interna motivada, talvez, pela tragédia social?”. Para ele isso não se restringe à esfera musical, mas serve para outras áreas. “Seu Jorge se relaciona com o Brasil da mesma forma que o presidente da República. Lá fora todo mundo admira o Lula e aqui só se enxerga o pior presidente. Por que é que eles (os estrangeiros) nos entendem melhor do que nós mesmos? Por que nós não somos tolerantes e não tentamos entender as raízes do que fazemos?” indaga.

“TRÓPICO NA PINACOTECA” é SUSPENSO EM 2006

A série de encontros “Trópico na Pinacoteca”, realizada há quatro anos por iniciativa da Pinacoteca do Estado e de Trópico, deixa de ser realizada neste anos por razões técnicas.

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Thais Rivitti
É jornalista.

 
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