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É uma análise que mostra as duas coisas de uma maneira muito nova. E o que fazem os estudos culturais? Eles pegam a literatura pela temática, pela teoria, vão buscar nela uma etnicidade definida a priori e uma série de questões e temas, que, sem dúvida, são importantes para a atualidade, mas não vêem como estes temas são formalmente tratados como um material estético, como algo já pré-formado.

Mas eu acho que, além disto, existe uma outra questão: temos hoje uma nova hegemonia das ciências sociais sobre a literatura. Paulo Lins é recebido por aqui como se fosse um sociólogo, ou até mesmo um assessor de governo para resolver os problemas da favela e nunca é indagado como resolveu o problema de um ou outro personagem, que é seu “métier”. Isto é um equívoco de nosso tempo, mas o maior equívoco é que muitos letrados estão abrindo mão de seu “métier” para se improvisarem em sociólogos e antropólogos e, portanto, não acharem mais que a questão do tratamento literário da forma seja relevante, da forma sem formalismo. Acredito que Paulo Lins tenha escrito realmente um belo romance, que tem altos e baixos, e depois fez uma versão menor e mais enxuta por solicitação das editoras, que ele mesmo acha até melhor.

Ele tem a pretensão de ser um bom escritor, cuida da forma e está empenhado em depurar seu estilo e não apenas em tematizar a favela. No entanto, quando ele vem aqui para ler ou falar do romance, lhe perguntam sempre coisas que não têm nada a ver com sua tarefa precípua de escritor. Quando se pega um poema feito pelo movimento negro e não se indaga pelo seu valor estético, estou desrespeitando este poema, estou sendo falsamente “libertária”, porque não utilizo para eles os mesmos critérios que valem para a alta cultura. Mas, mesmo que utilize critérios diferentes, tenho de buscar estes critérios, não posso simplesmente esquecer da questão estética, pois é como se estivesse dizendo que, para este tipo de poema, não vale a pena perguntar pelo estético, e o escritor negro quer ser um bom escritor.

Vejmelka - Gosto muito do livro de Paulo Lins, mas o problema da recepção na Alemanha é que o filme chegou primeiro. Ninguém quis publicar uma tradução antes. Somente quando o filme foi lançado a editora decidiu-se por uma tradução apressada da versão condensada. A imagem do filme superpõe-se à leitura do texto e tenho a impressão de que o leitor a percebe como uma “pulp fiction” e veja apenas uma violência estetizada, cheia de efeitos. Não podemos fugir do marketing cultural, mas até mesmo professores por aqui que ensinam literatura brasileira acabam aderindo a esta estratégia. Passa-se a imagem de um Brasil “exótico” e de uma violência primitiva.

O livro é fruto de um conjunto de entrevistas antropológicas, de um projeto que ele nunca pode realizar, e depois foi retocado. Como tradutor, enfrento o problema da recepção sobretudo a partir do domínio da linguagem. A história da recepção de Guimarães Rosa é um bom exemplo de como um escritor de primeira grandeza é completamente diluído neste trabalho de passagem. Guimarães, que era apaixonado pela língua alemã, que lia desde os dez anos e domina todos os níveis de linguagem e da composição musical de seus textos, desaparece nas traduções. Fez-se com Guimarães o mesmo trabalho de folclorização deste tipo de recepção.

Chiappini - Lembro-me, a propósito, de uma entrevista concedida por Candido em 2002, em que ele via na literatura uma perspectiva utópica na qual esta, ao mesmo tempo em que dá acesso ao valores da alta cultura, resgata simultaneamente a cultura popular, que se torna um conhecimento de todos. Esta utopia democrática consiste justamente na superação da distinção entre alta e baixa -embora hoje se afirme que não haja mais diferenças entre uma e outra.


Você está realizando um trabalho comparativo entre Antonio Candido e Angel Rama. Poderia falar sobre ele?

Vejmelka - Embora sejam contemporâneos, eles não pertencem à mesma geração. Rama enxergou Candido como mestre, um professor com o qual ele podia aprender muitas coisas. No inicio, Rama era um crítico sem método e fundamento teórico. Esta metodologia ele aprendeu com Candido, quando se conheceram em Montevidéu nos anos 60 e começaram uma longa amizade intelectual e uma troca de idéias.

Por outro lado, Rama foi alguém que lhe abriu os olhos para o mundo hispano-americano, cujo desconhecimento ele mesmo teve de constatar em si e tentar superar em parte este “tordesilhas cultural” que levava o Brasil e os países hispano-americanos a viverem de costas um para o outro. É um exemplo de como podem surgir projetos maiores a partir de uma amizade intelectual. A aproximação entre ambos é interessante na combinação do olhar sociológico com a perspectiva estritamente teórica.

Candido foi inicialmente sociólogo e depois tornou-se crítico literário. Rama era um oriundo das rodas literárias, conquistando depois para si disciplina teórica, que ele aprendeu com o Candido. São dois caminhos que devem hoje ser relidos nesta convergência. Temos hoje muitos conceitos abstratos e sistemas teóricos, mas falta um trabalho de texto e falta também, na escolha dos textos, um olhar crítico que se pergunte pelo valor real de uma obra literária. Procuro comparar este diálogo de 40 anos com a produção atual em termos de América Latina.

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José Galisi Filho
É doutor em germanística pela Universidade de Hannover (Alemanha).

 
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