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Mas às vezes é tudo ao contrário, o pêndulo pende para o outro lado e eu já não sou mais o buraco negro do mundo, mas é o mundo o buraco branco que me captura inteiro. Nesse esticar-se pendular de um extremo ao outro, nesse dilaceramento está o combate. A gravidade do combate. Então um único nome me aniquila. O calcário do mundo me esmaga. Sou o lugar da luta entre o fluxo e o calcário. Muitas vezes já não sei se há o sopro da palavra se inscrevendo em mim ou se é apenas um escritor, um estilista do cabelo azul, simulando o assunto do limiar e do extremo do humano. Agora mesmo, no preciso momento em que redijo estas notas, me sinto acossado pela dúvida, me sinto soterrado debaixo do calcário. Escrevo sendo filmado e esquadrinhado pela medida opressiva de duzentos olhares e duzentas vozes, então um frio de horror se aloja no meu peito. É o terror da falsidade. A desconfiança permanente por ocupar um lugar tão frágil, pois o que pode uma nascente no meio do asfalto? Onde brotar se já quase tudo está extinto? Vejo de um lado todo o palácio de cristal da instituição literária e, do outro, a pequena fagulha do poema. Pode um camundongo atravessar um elefante? Entrar-lhe pelo rabo ou furar toda a sua pele grossa para saltar do outro lado pela tromba? E já nem se trata de elefante. O elefante é um animal maravilhoso. Se trata de manadas inteiras de entulhos e de carapaças de metal e de calcário. Se trata de um universo inteiro hipernomeado de sentido, hipersaturado de narrações. Escrevo para reencontrar a primeira intensidade, a intensidade sem sentido do gesto inaugural. Escrevo para furar e atravessar o piche sobre o meu rosto e os meus braços. Preparo o meu corpo para o poema da proximidade. Escavo o lugar de um novo começo; lugar de um rosto que amasse o fundamento. No meu primeiro começo a intensidade não circulou, ela teve de retroceder. Estancou. A festa da criança ficou sem ser inaugurada e os meus mares ficaram sem praia. Aconteceu de eu caminhar por uma praia quando vi um caranguejinho azul. Ele zanzava loucamente de um lado para o outro e eu ergui os meus bracinhos para comemorá-lo; e dizendo “bis-su, bis-su, bis-su”, esfreguei os pés na areia num transe de imitação e de excitação diante daquela estranha criaturinha. E essa perplexidade maravilhosa já ia se convertendo numa espécie de dança sacra quando um membro do meu sistema familiar decretou: “Esse menino vai ser doido, ele é meio psicótico”. Então uma única sentença estuprou a dança do menino. Porque os funcionários do meu aparelho familiar já viviam tão longe do poema, não puderam juntar-se ao menino e com ele avançar até a região comovida onde o homem agradece a maravilha de haver coisas. Para tanto, para que eles tivessem acolhido e reconhecido o meu gesto, eles teriam de ter, ainda, alguma companhia do desconhecido. Era preciso, ao menos, ter um pouco de caos dentro de si. Mas não! Uma imensa claridade os havia transformado em tautologia apagada dos saberes. E esses saberes que eram saberes do progresso e da ascenção tinham ocupado e narratizado todos os espaços dentro das entidades familiares. Já não havia restado nenhuma região intacta, nenhum lugar vazio. A festa da criança ficou sem o tu e sem o outro. Os anfitriões não dançaram um “Olha, um caranguejo”, um “Vixe, um caranguejo”; não disseram uma palavra-gesto, uma palavra-corpo para saudar o movimento livre. A festa da criança não conseguiu arrastá-los até a ventania da aparição. A criança ficou só e desde esse dia a intensidade e o mundo se tornaram líquidos imiscíveis.

Ah, às vezes eu invejo o meu amigo japonês que foi saudado diretamente pelo céu e pela estrela. A própria noite foi sua mãe. Quanto a mim, a minha equação natal se resume de um modo muito simples. Atrás de mim, o gorila da fenda me ameaçando e, na minha frente, um peito de silicone e um diagnóstico psiquiátrico. Nessa situação, é impossível não ficar atordoado. A passagem da fenda-fora ao dentro pressupõe a mediação do poema. Sem o poema, sem o amor na brisa de uma orla, se você for pra trás o gorila te carrega pro abismo e se você for para frente, você é queimado pelo zumbi erótico da terra devastada. Se você recua, a fenda te engole, e se você avança, teu gesto é considerado uma loucura. Ah! Como eu invejo o meu amigo japonês, cuja mãe foi a própria terra e cujo corpo urdiu-se no balanço de uma rede. Um dia eu vou contar a passagem desse homem invisível. Eu não! Eu nasci e as estrelas já eram um vago cemitério. Eu nasci na frieza fechada do cálculo. Eu tive de me tornar o hermeneuta do rosto de uma mulher, mas minha hermenêutica esperançosa só encontrava a cara bidimensional da mulher moderna. É impossível escavar uma mulher moderna. Ela desaba num vazio, ela já não se deita sobre a terra. Ela já não tem húmus onde plantar um útero. Eu próprio virei um simulacro, mas o simulacro assustado que fui carregou um coração sangrando e uma pergunta de fogo para espalhar no mundo. Foi muito longa a viagem até cavar um lugar na praia do caranguejo. Até cavar um lugar na orla do primeiro brilho. Um dia eu vou contar toda essa aventura. Mas isso já não importa para mim. São considerações de passagem.

A existência humana e as culturas se decidem no trânsito topológico entre o abismo-fenda, o poema originário e o mundo historicamente instituído. Na sua configuração atual, o mundo é onipresente e engoliu quase tudo. Tanto a arte quanto a palavra do poema e da fenda estão soterradas. Até se fala delas nas universidades e academias, mas é um pensamento-silicone, uma distração intelectual lá no buraco branco do mundo. Em outras culturas, a configuração varia, há espaço para a fenda ou o poema. Pense em culturas e épocas em que xamãs e profetas tencionavam mais o arco da dimensão humana. Então, toda essa raça de reveladores tinha algum lugar além da exclusão e da rota do manicômio. A existência de cada um de nós também se decide e se inscreve em algum lugar nessa topologia de passagens. Localizar-mo-nos é apropriar-mo-nos de nosso quem. Quando isso acontece, uma palavra é liberada para poder falar. Por alguns momentos desaba a polícia teórica da verdade, pois um homem tornou-se verdadeiro. Seu idioma tornou-se carne e ele dá o testemunho de uma passagem. Ele diz o que vê e o que sente. E o que vê e o que sente é o horror da progressiva extinção de toda natalidade. O estágio branco do homem-demiurgo coincide com a morte do nascimento. Apenas uma rachadura colossal nos devolverá ao poema da natalidade.

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Juliano Garcia Pessanha
É escritor, autor da trilogia "Sabedoria do nunca", "Ignorância do sempre" e "Certeza do agora" (editora Ateliê).

 
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