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dossiê
LITERATURA BRASILEIRA

Equação natal: presença roubada
Por Juliano Garcia Pessanha

Eu sou um homem sob medida. Eu caminho no interior de uma moldura. Eu não aconteço, eu me assisto. Eu não fluo e o desconhecido não cerze caminhos através de mim. Cada gesto que vou “executar” já está narrado, pensado. Vivo num mundo sem irrigação, sem veia e sem fluência, antimundo onde nada é livre, onde nada ficou encoberto. Apagou-se o bruxuleio da última chama. Um olho biônico invadido em mim antecipa em pensamento o sentido de cada gesto e de cada palavra que dirijo aos outros. Isso destrói e apaga a rugosidade da vida, sua face opaca, transformando tudo em significação pura, em “pura significação”. Tudo agora está liso e eu funciono, eu transito. Não é espantoso! Às vezes eu penso: quer dizer então que acabei por exorcizar o componente de opacidade que alegra e mina a existência de cada homem? Desfinitizei-me? Por componente de opacidade entendo o fato de que as significações dos gestos e atos de alguém lhes são, em grande parte, ou desconhecidos ou conhecidos apenas posteriormente. Isto é, há um hiato entre o gesto e o pensamento, e o gesto excederia o que pode ser pensado no pensamento, mas, no meu caso, a transparência do sentido, sua anterioridade total e sua incrível saturação, já coincide e já antecipou o gesto que realizo. Sou um homem deduzido, não um homem inaugural. Penso então que minha vida desconheceu a intensidade e o arrebatamento, e que, então, talvez a criança que fui inexistiu. Ou ela jamais teve gesto ou, de algum modo, esse gesto foi roubado. Caiu muito asfalto, caiu piche no braço e no rosto de uma criança. Pois, como é possível uma criança sem gesto? Teria de haver uma criança sem corpo. Mas o que é isso então? De qualquer modo, o mundo me parece invertido agora, pois é o pensamento que legisla o gesto e a idéia que comanda o corpo. Trata-se de uma existência em segundo grau, tísica mesmo, uma existência em pensamento, pois no adulto que sou aniquilou-se sombra e corpo, e eu apenas dou voltas nesse reino ofuscado; reino de autotransparência. Já não tenho nem sonhos, desconheço o milagre das cifras noturnas e eles (os sonhos) são meus velhos teoremas de acordado. Eu sou uma vigília permanente, observo tudo mesmo quando estou dormindo.

Mas eu não sofro de auto-observação. A auto-observação implicaria em pensar que algo jorrasse antes para ser depois observado. Haveria uma precedência do gesto e da opacidade inomeada sobre o que é, além, clarificado. Mas não é assim que me acontece. Os nomes precedem tudo. Os conceitos estão grudados em mim parece que desde sempre. Eu me fabrico a partir de conceitos. Ser é igual a ser autoproduzido a partir da idéia. Por isso já anotei: “Eu nunca passei de cibernética, de imperador do vácuo e do barroco. Eu sou o estrategista de mim mesmo, artista da fome e fracasso da verdade”. Portanto, não há auto-observação mas uma autofabricação avassaladora, uma simulação permanente de presença, uma simulação performática de quem teve a primeira presença roubada. Mas há uma primeira presença? E o que é uma presença primeira roubada? É isso possível? Então eu não nasci? Quem sou? Às vezes eu vejo que fui plantado direto no logos, plantado no pensamento, em frases longas e em frases curtas. Tornei-me uma astúcia desvairada, um gigante do speech-act... mas se é assim, se eu sou apenas um Fliper lingüístico, ladrão de frases e relatos, o que teria ou não teria acontecido no velho país da infância?

Um dia eu considerei conveniente interrogar de que pânico, de que núcleo assustado toda essa construção pretendia me afastar! Esse movimento de pura claridade (esse universo de significações decalcadas); seria ele um afastamento, um terror de transbordar? Mas se afastar de quê? Transbordar de onde? De quê? Teria de haver, então, algo antes, alguma região anterior, algum espaço ou experiência dos quais eu fugisse. Mas não havia nada disso antes. E, aliás, é esse exatamente o problema: devia ter havido algo antes, mas eu fui plantado direto na realidade metafísica. Um homem plantado direto na objetividade. Essa aberração é cada vez mais comum e ela foi profetizada já por Dostoiévski no final das Notas do subterrâneo. O homem, a planta-homem, deve enraizar-se antes na nascente suave do real, na delicadeza de um brotar e de um borbulhar para então, e só depois, colocar cabeça e corpo no mundo-realidade. Antes do mundo liso da instituição há o mundo nascente do poema. Todo homem deve passar pelo sopro do poema; poema em que o gesto da criança fez-se um no rosto daquele que o festeja. Quem não é saudado no interior do brilho apaga-se e é reengolido na garganta do vazio. Só a circulação de uma primeira intensidade desfaz a onipresença da fenda. Então eu pergunto: onde eu não enraizei? Por que eu não enraizei? Será que não havia ninguém lá? Como estavam eles quando cheguei na terra? O que aconteceu para que eu ficasse engolido e destinado à migração contínua pelos penhascos da fenda? Ah humanidade! Como eu te pressenti e da lonjura mais distante como eu sonhei com os teus espaços. Eu me tornei um devoto do poema desacontecido e um simulador de humanidade. Desde muito cedo aprendi a passear na “tua” corrente sangüínea. Privado de uma história possível, tolerável -pois toda história começa no poema-, pegava carona nas histórias alheias. Em quantos bairros e cidades não fui parar dizendo as formas da “tua” vida? Quanto tempo escutando -até o dia da monotonia?!- essa intensidade estranha que é um ser humano. Minha inconsistência (o pai-de-santo, o vidente) ouviu a voz de tantas consistências. O que era o outro, afinal? Que tipo de consistência é um ser humano? Eu via a humanidade subjetiva, o sujeito constituído almoçando no imenso refeitório. Cada um, solitário, comia o bife de seu próprio prato. Nas pausas trocavam palavras anêmicas. O bife, o prato, é a história, a narrativa de cada um. A história pessoal era o claustro, o claustro de uma referência que cegava para o enigma de tudo. Pensei que “ter história”, ser alguém, era transformar tudo na “terra batida” de um conhecimento... Eu sempre olhei essa mesa de longe. Eu vi o que havia em cada prato, mas ao olhar para mim mesmo não havia nada, prato algum. Eu não existia em mim mesmo e o meu brinde, o brinde do excluído, é o olhar. O olhar abismal é o dom do abandonado. Ele não vive na ilusão de estar vivendo por Dentro e não tem narrativa que o localize. Para que alguém se assente numa narrativa, é necessário, antes, ter passado pelo poema. Basta olhar. Uma criança faz gesto. Ao ver céu e montanha, ao ver o animalzinho correndo, ela ergue os braços em perplexidade. Ela está tomada pelo enigma. Eis aí um início e um ancoradouro. Se alguém esteve lá com a criança, ressoando a vibração do enigma, então há um salto, a criança pode dançar e migrar para além da fenda, para o interior da descoberta de que as coisas são! Mas é preciso que essa intensidade tenha circulado, tenha se esparramado mutuamente, tenha ido e voltado do rosto do outro até o da criança. O espelhamento da intensidade da descoberta, essa partilha é o amor. O amor é comunhão na perplexidade, partilha do enigma de que estamos descobrindo o mundo. Estamos descobrindo o mundo, pois tanto o recém-chegado quanto o anfitrião devem estar no mesmo espaço. Tudo aquilo que brota na criança e através da criança, o arrepio da montanha e da praia, o vento de que tudo isso é, deve estar no rosto da mãe. Ela não domestica a presença, ela abre mais reverberando. Sustenta o brilho do acontecer. Mas se o poema morreu dentro do adulto, se ele já fechou o seu olhar de aparição, então o que é aberto vai ser logo fechado, selado. E a ventania do novo visitante é respondida com um traque de ventilador. Então o rosto não desabrocha, a criança não continua, fica sem tempo, sem lugar, vai zanzar na vergonhosa zona pré-natal e tentar enviar seus embaixadores da luz, seus personagens, suas coreografias fatigadas.

Eu mesmo, quando recordo e soletro meu país natal, percebo que a criança que fui não teve continuação e que a minha dança ficou interrompida; e quanto mais eu me aprofundo nessa investigação natal, mais eu encontro a frieza do meu tempo e de seus saberes e mais eu sou obrigado a narrar a implosão e a invasão da província humana. Quando eu nasci, o mundo estava muito adiantado e os seus tentáculos já haviam engolido quase tudo. A espiral do progresso e a idéia moderna de liberdade haviam arrastado meu sistema familiar numa tal vertigem que a criança recém-chegada passou inteiramente desapercebida. É como se eu pretendesse pôr os pés no chão para tocar uma nuvem e eles estivessem voando, voando em narrativas de avião; tudo solto, tudo cifra, tudo ficção, tudo no ar de uma enorme Disney-fiction. Mas uma tal obstrução de encontro não é assunto psicológico, pois já, há muitas gerações, que se pretendia erigir a casa humana no além e no supra-sensível e, mais recentemente, pretendeu-se construir o supra-sensível aqui mesmo na terra com a ajuda da ciência e da medicina. E foram elas que me saudaram, foram as mensagens delas atravessando os genitores engolidos que saudaram o bebê sabor morango. Eles estavam lá, mas em pleno sumiço do corpo. A terra estava lá, mas diluída milhões de vezes na poção do objeto. Até uma mamadeira estava lá, mas ela tinha asfalto e cortisona junto do leite. Palavras, também palavras e falas estavam lá, mas de nada adianta haver palavra se já não há real a recolher e a dizer. Então, eu desertei para o interior da fenda-fora e nada abandonei na deserção, pois percebi que o meu primeiro nascimento não seria suficiente. Não fosse a proteção do estranhamento, não fosse a alergia à onipresença da luz e do barulho, eu teria me tornado um estilista do cabelo azul e estaria hoje tão grudado e integrado neste mundo que eu jamais poderia vislumbrar a frieza do primeiro lance. Eu seria, então, apenas uma aberração tranqüila e sem pergunta. Ao contrário, a repelência que me desintegrou do mundo e a alergia que me fez recuar até o coração do exílio eram já uma pergunta ardente: onde está o poema da chegada? Tua vida, onde fica? Mas houve isso, uma vida, se ela jamais esteve no poema?

Certa vez eu caminhava por um bairro de minha cidade quando vi uma criança em cima de uma casa. Ela vestia máscaras de monstros. Tirava uma e colocava outra. Percorria o teto aos gritos, se escondia e reaparecia. Eu fiquei atrás de uma árvore e vi que ela tentava inquietar um velho transeunte. Era como um pedido de socorro, uma confirmação da sua presença. Mas o velho passante, naquela tarde fria, naquela rua de casas ricas que eram templos vazios, o velho passante estava excessivamente gravitado em memórias e projetos. Era um sonâmbulo entretido nos pequenos astros de sua psique. Não soube acolher o grito do garoto, não soube lançar um olhar-de-uivos que pusesse no menino alguma nuvem de espessura. Eu ruminei por muito tempo o acontecimento desse garoto no telhado. Eu soube que ele noticiava o impossível, a imensidão vazia, e que não haveria passagem para o rosto ou para o lado interno da existência sem o abraço de um poema partilhado. Eu continuei andando, eu atravessei um longo canteiro de flores esquecidas, eu pensei que ali estava contida a primeira e a grande desconfiança quanto ao estatuto do que é. Compreendi que ele havia nascido num lugar imenso cujo nome é satanismo da luz. Falo sobre esse lugar. Falo da solidão na claridade. Falo do recém-chegado em sua delicadeza sem forma encontrando um excesso de forma. Falo de um olho fascinado pela aparição encontrando o olho gelado do cálculo. Falo da dor desse desencontro. Não é uma escrita subjetiva, autobiográfica. Só existe “eu” no lado de dentro do mundo. Eu fiquei de fora, fiquei muito longe, numa lonjura que nenhum astrofísico calcula. E nessa lonjura sonhei e proclamei o poema. A incandescência do corpo que não houve. É esse lugar que fala. Eu sou apenas seu mensageiro. O bebê que fui aposentou-se para o mundo logo cedo. Eu sou a antimatéria do mundo, tudo que é arranjo e trançado mundano cai em mim num buraco negro. O instituído e a história se nadificam. Eu sou apenas o sonho e a saudade do poema originário, por isso não há eu algum quando falo. Há apenas o desfazimento de todo calcário, de toda identidade acolchoada e o clamor do fluxo, da cascata acompanhada até a nascente.

 
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