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cosmópolis
ESPAÇO

O eclipse por testemunha
Por Denise Mota


Eclipse solar total de 26 de fevereiro de 1998, fotografado em Aruba
J.C. Diniz

Expedição reúne uma centena de pessoas para observar, em 29 de março, fenômeno que só se repetirá no Brasil daqui a 40 anos

Cem pessoas que nunca se viram antes marcaram um encontro no final deste mês. Será a alguns metros das verdes águas de Natal (RN), sobre as falésias do Mirante dos Golfinhos. Apesar de possuírem profissões, crenças, aptidões, histórias e gostos distintos -e de não ter sido perguntada a opinião de ninguém-, chegaram a um indolor consenso: às 5h25, todas olharão para o céu, e aí estarão partilhando um dos momentos mais esperados de suas vidas.

Esse é o horário previsto do eclipse solar total que será visualizado no Brasil em 29 de março e que depois só voltará a ser visto no país em 2045. Um eclipse lunar parcial acontece no dia 14, mas é para o “Sol negro”, mais raro, que estão voltadas as expectativas e lentes dos amantes do espaço.

Em torno do inusual acontecimento, foi organizada uma viagem de modo igualmente incomum. Batizada Expedição Rumo ao Eclipse Total, reúne um grupo heterogêneo para assistir à transformação do astro-rei a partir do melhor ponto terrestre possível. O plano inicial era mais ousado: colocar 300 pessoas num navio que as transportasse às águas de Fernando de Noronha, lugar irretocável para assistir ao fenômeno. Com a adesão real de somente uma centena de viajantes, a observação a partir do mirante na praia de Tabatinga revelou-se a alternativa viável.

A idéia partiu do fotógrafo publicitário Aílton Tenório, 42, que verá pela primeira vez um eclipse solar total. “Tenho paixão pelo desafio de fotografar acontecimentos celestes. Fui o primeiro a registrar o cometa Halley-Bopp no Estado de São Paulo, em 1997, por exemplo”, diz o paulista de São Caetano do Sul, que vai presenciar o eclipse ao lado da mulher e da filha de três anos.

Em 18 de janeiro, o fotógrafo deu início, através do site www.eclipsetotal.com.br, ao grupo que chamou de “Amigos do Eclipse”. A partir daí, passou a reunir interessados em participar da viagem. No começo, conta Tenório, o site registrava uma média de cem visitas diárias. Com a proximidade do evento -e depois do apoio de empresas como companhias especializadas em previsão meteorológica e agências de turismo-, as visitas saltaram para até 2.000 por dia.

Entre elas, a do cardiologista carioca José Carlos Diniz, 62, que quando pode se desloca para onde for, a fim de observar manifestações celestes. Interessado por astronomia desde os anos 80 e praticante de astrofotografia desde a década de 90, Diniz alterna os períodos no consultório a viagens em busca das estrelas. “A visão do cosmo é fascinante. O deslumbramento instiga, e a curiosidade da mente humana encontra ali uma fonte inesgotável de perguntas e respostas, no caminho do conhecimento”, explica ele, diretor do Clube de Astronomia do Rio de Janeiro e diretor-geral da Rede Observacional de Astronomia. “Não há limites, não há fronteiras, a não ser nosso desconhecimento. É da espécie humana esse dom, essa busca eterna pelo saber e desvendar.”

Atento aos vários fenômenos astronômicos observáveis em vários pontos da Terra, Diniz planeja, depois da viagem a Natal, comparecer em abril à Texas Star Party -encontro americano de entusiastas da astronomia- e, no final do ano, rever amigos em Portugal e se “maravilhar com os céus do Algarve”. Enquanto isso, contempla o espaço em Nova Friburgo, através do telescópio que construiu na localidade de Mury.

Às voltas com um telescópio “autoral” também está o engenheiro eletrônico baiano Danilo Câmara, 34, mais um integrante dessa viagem. Doutorando em ciências da computação e levado à astronomia pelo programa de informática Celestia (http://www.shatters.net/celestia/) -que proporciona simulação tridimensional de corpos celestes-, ele terá em 29 de março seu primeiro encontro com um eclipse solar total.

Desde 2003, Câmara espera por esse eclipse. Nesse meio tempo, observou a oposição de Marte há três anos, quando o planeta se aproximou da Terra como não o fazia nos últimos 60 mil anos, e em 2004 construiu seu próprio equipamento de observação para poder acompanhar o Trânsito de Vênus, visível somente duas vezes a cada 120 anos.

“Todos os fenômenos têm sua beleza própria. O eclipse total talvez seja o mais intenso pela sua magnificência e raridade. Ele subverte a ordem das coisas: o dia e a noite, juntos, o Sol negro com sua aura brilhante em volta, estrelas durante o dia”, descreve José Carlos Diniz. “As mudanças se refletem na atmosfera, um vento sopra de todos os lados ao mesmo tempo, a temperatura cai, os bichos se recolhem. Só quem assistiu a um é que pode entender a magia desse momento. Deveria haver uma lei obrigando todo ser humano a assistir a um eclipse total do Sol na vida.”

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Denise Mota
É jornalista. Vive em Montevidéu.

 
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