ELITIZAÇÃO
Novos ricos da música, por Henry Burnett
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a.r.t.e.
MÚSICA BRASILEIRA

Chega de saudade
Por Coletivo MPB

O grupo de pesquisadores do Coletivo MPB responde aos comentários dos leitores sobre o artigo "A morte e a morte da canção"

Não é de espantar que a repercussão causada pelo artigo “A morte e a morte da canção”, publicado em dezembro de 2005, aqui, no Trópico (veja link no final deste texto), revelasse tanto o rico interesse sobre questões ligadas à música popular brasileira como também a amplitude de problemas e temas correspondentes. Esse foi o propósito do Coletivo MPB: um convite para o debate que se mostrou bem-sucedido.

A idéia central do nosso artigo apontava para a necessidade de se compreender as condições atuais da produção da música brasileira, a segmentação própria do mercado atual, e para pensar os rumos de ação possíveis para quem acha que a morte da canção é mais uma de suas mortes e não o seu fim -partindo da intuição de Chico Buarque sobre o fim da canção, que motivou de muitas formas nosso texto.

Devido ao inevitável caráter sintético do artigo, muitas questões tiveram que ser tratadas rapidamente, assim como outras nem mesmo chegaram a ser abordadas. Certamente que muitas destas questões foram lembradas pelos leitores em seus comentários e críticas (veja link para as respostas dos leitores no final deste texto).

Com o intuito de dar seguimento ao debate, gostaríamos de fazer um comentário geral sobre as intervenções de leitores recebidas, organizando-as em dois blocos temáticos. Partimos dos traços mais gerais do que entendemos por canção (sem aprofundar uma análise estética da produção atual) para, em seguida, insistirmos na necessidade de se encontrar uma brecha para a intervenção na lógica atual do mercado.

O termo canção pode ser empregado no Brasil desde a “cancionalização” dos batuques africanos dos meados do século XVIII (ou talvez antes) até à avassaladora onda de consumo nos anos 90 com o sertanejo, o pagode, o axé, entre outros. Mas nosso tipo ideal -por assim dizer- é a canção na sua singularidade mais essencial: a união entre letra e melodia.

Alguns viram nesse ponto de partida mais geral um “saudosismo desmedido”, como se a afirmação “a canção não morreu” simbolizasse necessariamente um olhar para trás. Não foi essa nossa intenção. Muito pelo contrário.

Bem diferente de um movimento reacionário, preso a um estilo ou tradição qualquer (samba, baião, samba-canção, bossa-nova, tropicalismo etc.), a canção feita hoje pode privilegiar nossa “autenticidade” ou as influências estrangeiras; pode exagerar no ritmo de fundo ou fazer sobressair as melodias; pode arriscar na complexidade harmônica ou na potência expressiva da música modal; pode limitar-se a algum traço determinado do samba ou fazer releituras inteiras do repertório de choro; pode, enfim, juntar o violão, a guitarra e o tamborim.

Hoje ainda é possível visualizar por entre a diversidade de sons e formas da música popular brasileira alguns elementos comuns da sua formação sem, no entanto, abdicar do seu potencial transformador -que pode ir, por exemplo, de Noel Rosa, passando por Jobim, até chegar a Guinga, Lenine, Joyce ou mesmo num jovem compositor como Marcelo Camelo e sua “incompreensível” influência de Dorival Caymmi.

O aspecto mais interessante das iniciativas atuais -em sua grande diversidade, é bom sempre frisar-, não consiste em requentar um repertório já consolidado (apesar da maestria dos novos intérpretes), mas, sobretudo, na consolidação de um repertório novo. A qualidade das novas autorias parece inquestionável, e são estas que merecem nossa especial atenção. Elas mostram que a forma canção não é uma linguagem desgastada que, por fim, emudeceu.

Não se trata, portanto, de fazer uma outra “passeata contra as guitarras”, mas de construir uma vez mais o devido espaço para a música brasileira que não quer simplesmente florear os duros standards da indústria cultural. A posição que defendemos em nosso texto é a de que esse espaço só será conquistado por meio da ação coletiva. Só uma ação política concatenada poderá catalisar as inúmeras iniciativas individuais e de grupos, hoje dispersas.

A nosso ver, um dos passos importantes nessa direção é o de tentar entender como a indústria fonográfica brasileira está estruturada, para além dos clichês e das frases fáceis. Pois essa compreensão talvez permita intervir no mercado com mais eficácia.

Nos anos 60, o racha interno da turma da bossa-nova, ou a disputa externa desta com o samba-canção, com a MPB, com o iê-iê-iê, foram marcados pelo predomínio de duas ou três grandes gravadoras, tal como a Philips ou a Odeon. Uma das experiências mais bem sucedidas da época, em termos de qualidade da produção e lançamento, estava sob o encargo da Elenco, de Aloysio de Oliveira, mas que naufragou sem recursos frente à Philips nas mãos de Armando Pittigliani.

A lógica atual de funcionamento da indústria fonográfica criou uma segmentação no interior das grandes gravadoras que, em larga medida, esteve circunscrita aos seus “produtos”. A grande indústria cultural precisa “renovar” seu estoque, inventando e forjando novos rostos, refrões e danças para abarcar a demanda de consumo que ela mesma tem que criar. E isso não é certamente uma exclusividade brasileira: basta ver, por exemplo, o que se passa com o jazz nos EUA.

Desta segmentação resultou a segregação de uma parcela considerável da MPB por parte dos setores dominantes da indústria. O repertório, os temas, os artistas -nada disso seria útil para a produção de uma oferta facilitada e infantilizadora almejada pela indústria de massa.

A visível parcialidade e unilateralidade musical ofertada pela indústria não agradou a todos. Isso ocorreu não somente devido a uma margem intransponível e porosa da formação do gosto que a indústria pretendia poder controlar, mas também devido à própria transformação do que entendemos por cultura no Brasil. Isso significou, em outras palavras, que a canção ainda falava para muita gente. Ainda que não mais para todo mundo.

Esse também foi um ponto pouco claro do nosso texto. Dizer que a canção “falava para todo mundo” não queria dizer que “todo mundo ouvia e apreciava canção”. Basta dar uma olhadinha na vergonhosa distribuição de renda brasileira para ver que isso não foi e ainda não é materialmente possível.

O que quisemos dizer com isso é que, na década de 1960, ocorreu uma feliz coincidência entre um momento de amplo rearranjo da indústria cultural brasileira e um dos grandes ápices inventivos da MPB. O encontro (ainda que altamente conflitivo, com certeza) dessas duas coisas fez com a indústria cultural brasileira fosse também moldada de dentro, garantindo um espaço para a MPB de qualidade que marcou aquela geração e as seguintes.

De todas as muitas interessantes facetas desse processo, insistimos em nosso artigo no caráter político desse encontro entre a lógica própria da indústria cultural e uma geração de músicos e compositores comprometida não apenas com a renovação da MPB, mas também, em boa parte, com a própria transformação do país.

“Político” no sentido mais amplo da palavra. Não se trata de unidade partidária ou ideológica desse movimento coletivo. Muito pelo contrário e ainda bem. Mas a idéia de que era possível empurrar a indústria cultural na direção da experimentação e dos diversos tipos de engajamento era uma idéia motriz, partilhada por muitos dos envolvidos nesse processo.

Para dar um único exemplo: o público militante dos festivais de TV dos anos 1960 foi criado antes dos festivais, foi criado pelos musicais e shows estudantis. E os shows e musicais estudantis foram obra coletiva e descaradamente política. Foi uma invenção em que iniciativas localizadas se articularam, viraram nacionais, viraram de todo mundo. Por isso, é inútil tentar repetir essa experiência tão rica simplesmente começando pelo fim, começando pela TV. Tomando esse exemplo, podemos nos perguntar: que forma de organização coletiva poderia hoje desempenhar um papel semelhante ao que tiveram os musicais estudantis da década de 1960?

Só que o problema agora é ainda mais embaixo. Uma formação alternativa de público começa hoje de um patamar técnico muitíssimo superior ao da década de 1960, o que já é de saída um obstáculo para a criação de espaços alternativos de baixo custo. Além disso, não vivemos o clima de efervescência político-cultural da década de 1960. E, ao contrário de 40 anos atrás, temos hoje uma indústria cultural consolidada, altamente complexa e integrada em seus diversos ramos. Para divisar as suas brechas, temos de entendê-la em sua complexidade. A começar pelos saltos tecnológicos mais recentes.

Nos últimos anos ocorreu um crescimento tecnológico sem precedentes no mercado musical. Qualquer pessoa pode gravar um disco em casa, prensar CDs com capa por R$ 1,50 a unidade e terceirizar uma distribuição não muito pretensiosa por 10% a 20 % do valor do produto. Se essas possibilidades multiplicaram por muitos mil o número de CDs e artistas novos e, com isso, tornou impossível uma distribuição mercadológica que abarcasse a todos, também serviu para mostrar quantos grandes compositores estavam eclipsados pelo mercado e prontos para vir à tona.

E vale ressaltar mais uma vez que esse tipo de atividade independente nem sempre é sinal de amadorismo ou de má qualidade. Tanto que muitas gravadoras “alternativas” ocuparam esse espaço, realizando cada um desses passos de um modo mais funcional e em escala maior. Tal é o caso da Biscoito Fino ou da CPC - Umes.

Acontece que ainda há mais canções sendo compostas e apresentadas do que essa “fatia” do mercado pôde incluir. Iniciativas coletivas (Clube Caiubi, Songbook e muitos outros) revelam que uma parte importante de compositores e ouvintes já aderiram a um movimento de transformação cultural, que busca a autonomia das criações e da formação do público. Será que não conseguimos concatenar essas iniciativas em um movimento coletivo articulado e plural? Ainda há muito mais por fazer!

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link-se

A morte e a morte da canção - http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2691,1.shl

A crise da MPB, segundo os leitores - http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2720,1.shl

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Coletivo MPB

É um ajuntamento para ver no que vai dar. Atualmente, é composto por José Roberto Zan (professor de sociologia da música industrializada na Unicamp), Marcos Nobre (professor de filosofia na Unicamp), Henry Burnett (compositor e pós-doutorando na USP) e Rúrion Soares Melo (músico, compositor e doutorando em filosofia na USP).

 



 
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